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Exemplos maiores


1. Para Guerra Junqueiro, a Pátria estava perdida desde o Ultimato inglês, em 1890. Mas Teixeira de Pascoais faz um esforço de compreensão das “qualidades da alma pátria”, num esforço de motivação para aquilo que poderiam ser as réstias da sua salvação. Assim, em A Arte de Ser Português, de 1915, algumas delas poderão oferecer-nos elementos capazes de nos encaminharem para uma noção de cultura, reflectida na realidade portuguesa.

Fiquemo-nos por duas: o génio de aventura e o sentimento de liberdade e independência (Pascoais, A Arte de Ser Português, 199, p. 89-93). A primeira é definida como “a força que leva o homem a arriscar a sua vida individual, para conseguir determinado fim de utilidade colectiva.” Nasce da herança celto-latina e árabe no que tem de espontaneidade e ânsia do indefinido. A sua educação apela a “uma disciplina consentida, compatível com o poder de iniciativa”. E o seu defeito, como verso de medalha, é a falta de persistência, pois “a aventura não tem continuidade na acção. Opera por impulsos que nem sempre se coordenam para um fim determinado.” (Pascoais, 1991, p. 99).

A segunda qualidade é identificada com a vida, pois como afirma, “Independência, liberdade quer dizer vida; e vida quer dizer – concordância entre o meio e o fim […] sacrifício do inferior ao superior, do criador individual e animal à criatura espiritual” (ibid.) E o retrato que nos dá do português até parece ter ficado perdido no tempo. Vejamos.

“O antigo português foi livre no sentido verdadeiro da palavra. As descobertas nasceram da sua própria força criadora. Nas cortes falava, rosto a rosto ao Príncipe, e a sua lança, cravada na fronteira, assegurou a Portugal a nobre independência garantida pelo espírito de sacrifício. […]

Sem actividade criativa não há liberdade nem independência. Cada instante de liberdade é preciso construí-lo e defendê-lo como um reduto. Representa um estado de esforço alegre e doloroso; alegre, porque dá ao homem a consciência do seu valor; e doloroso porque lhe exige trabalho nos dias de paz e a vida nas horas de guerra. A escravidão é feita de descanso e de tristeza.” (ibid.)

 

2. Pascoais viu confirmado o acerto da sua afirmação empírica pelo construtivismo de Jean Piaget em 1977 (“A propósito de criatividade: os três métodos”, in Análise Psicológica, n.º1, Out. 1977, p. 69), quando este afirma:

“[…] para mim a educação consiste em produzir criadores […]. É preciso produzir inventores, inovadores, e não conformistas. […] Todos os indivíduos podem ser criadores em graus diferentes. Há sempre um domínio no qual o sujeito pode ser criador.”

Estabelece, também, os fundamentos da noção de cultura avançada por Paulo Freire, na sua obra, Acção cultural para a Liberdade, de 1976 (Rio de Janeiro: Paz e Terra: 9) Segundo este autor, a cultura é uma forma de recriar o mundo e o próprio homem e exige que o indivíduo “assuma nela o papel de sujeito”. Isto significa que: a relação do sujeito com a cultura é activa e de produção; o acto cultural é uma atitude de compreensão frente ao mundo e às suas práticas dos homens; uma acção cultural é um diálogo do indivíduo com os outros e de todos com o mundo, em comunhão e partilha de sentimentos e vontades, alegrias e angústias, vitórias e fracassos.

 

3. Talvez dos exemplares mais conseguidos desta concepção de cultura, entre nós, tenha sido Miguel Torga, desde a criação do seu nome até à publicação da sua obra, como sendo de autor. Mas ele próprio nos dá testemunho do que foi a sua actividade cultural, ao discursar, no Estoril, em 8 de Julho de 1992, na recepção do Prémio Figura do Ano, dos correspondentes da imprensa estrangeira.

“ Sou, afinal, como vós e à minha medida, o repórter inquieto de um quotidiano sem fronteiras. Nenhum acontecimento significativo sucedido ao longo de quase um século me deixou indiferente. Fui uma espécie de homem da telegrafia no barco acossado pelas ondas enfurecidas da realidade coetânea a lançar SOSs de aflição. […]

De mim, ireis naturalmente repetir o que consta, como pareço e me declaro. Acrescentai que lutei, luto e lutarei até ao derradeiro alento pela preservação da [nossa] identidade, última razão de ser de qualquer indivíduo e colectividade […]” Torga, Diário XVI, 1993, p. 129-130).

Eis um exemplo do ser e fazer cultural de um cidadão comprometido, um dos nossos maiores.

J. Esteves Rei - Professor Catedrático de Didáctica das Línguas e de Comunicação, na UTAD, Vila Real



publicado por Correio da Educação às 10:58
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