18-06

Inês Silva*

 

A língua permite-nos comunicar. É pela língua que nos afirmamos como pessoas interventivas, com gostos e opiniões, crenças e valores culturais. A língua que falamos e escrevemos é o nosso ser. É-nos transmitida pelos pais, avós, família, escola e sociedade, como herança a preservar com orgulho. É a “língua de Camões”, a que foi sabiamente moldada e engrandecida pelo poeta. Mas, infelizmente, esta expressão poderá vir a desaparecer, talvez daqui a cinco, dez, quinze anos. Ou vir a ser substituída por outra. Isso não é muito importante, claro, desde que as pessoas a falem. O problema residirá apenas no facto de deixarem de a falar, porque não lhe reconhecem valor, grandeza e perfeição. Poderão adulterá-la, inglesá-la, castigá-la com tantas incorrecções que será melhor estar calado. E, se os portugueses a calarem daqui a uns anos porque não a conhecem ou reconhecem efectivamente, ela morre.

Neste momento, lá fora, a língua de Camões tende a ser valorizada, felizmente. Prova disso é o facto de se falar cada vez mais em lusofonia e em literaturas lusófonas, em Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, em internacionalização do português, em política da língua portuguesa; recentes notícias dão conta que o português é a 3.ª língua materna mais falada no Japão e que está cada vez mais afirmada como língua opcional no ensino básico e no secundário em Espanha.

É ainda a língua de Camões que é usada quando os jornalistas, na África do Sul, entrevistam os emigrantes que acompanham a selecção portuguesa. Alguns residem lá há muitos, muitos anos: quinze anos, vinte anos, trinta anos. Bem ou mal, é o português a língua que serve as respostas, com yes à mistura, é certo, mas é o português. Há um esforço para se fazerem entender, para pronunciarem as palavras sem um certo “sotaque” estrangeiro, para usarem os termos próprios da língua, ou seja, para manterem viva a língua que herdaram à nascença, que levaram na bagagem e que colocaram na sua mesa-de-cabeceira para servir de oração diária. Muitos só transportaram consigo o português. Todo o resto já foi comprado em terras sul-africanas.

E cá dentro? Vemos um desprezo cada vez maior pela língua dita de Camões, como se o velho poeta estivesse fora de moda, aliado a um esforço constante desta sociedade para agarrar o moderno, o fácil e o que está “mais ao jeito” - e com um empurrãozinho daqueles que deviam lutar pela sua preservação e valoração. Ainda ninguém diz em Portugal que Camões é um político ou um jogador de futebol. Mas o futuro dirá se será sempre assim. Porque o país está descrente. O país está a tirar os grandes autores da escola, a pedido dos que procuram todos os dias o registo do facilitismo. Camões para quê? Ou Gil Vicente, cuja língua é tão “anterior” à que usamos hoje? Ou Eça de Queirós, tão cansativo nas suas descrições intermináveis? Ou Miguel Torga, tão erudito na sua expressão? Para quê, se o nosso português se quer tão simples? O ensino da literatura no básico e no secundário está quase reduzido a adaptações, resumos e sínteses, paráfrases mal feitas de excertos e colagens obscuras de capítulos e cantos, dada a falta de paciência dos alunos para uma análise “corpo a corpo” de excertos e a desmotivação e cansaço de professores. Muitos já se recusam a ler o texto original, incluindo-se aqui O Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, Os Lusíadas, de Camões, contos, novelas e romances de autores consagrados, entre outras obras de reconhecido valor literário.

E como nos sentimos tão impotentes para ensinarmos o “difícil” - a literatura - abre-se a possibilidade de os alunos transitarem do 8.º ano para o secundário, passando em vão o 9.º (ano em que estudam precisamente, na disciplina de Língua Portuguesa, a obra de Camões e Gil Vicente, entre outros), se tiverem mais de quinze anos, embora a passagem dependa de exames. É certo que eles poderão contactar com alguns destes autores no secundário, mas, dadas as exigências que se vão impondo no percurso destes alunos, com falta de “pré-requisitos”, o programa com certeza se ajustará a seu favor e, por isso, nem nesse ciclo esse estudo acontecerá.

Voltando ao exame de Língua Portuguesa do 9.º ano: este tem incluído, até ao momento, um grupo de questões que incidem sobre obras literárias, precisamente as que não vão ser lidas por quem tem a possibilidade de não frequentar o fim do básico. Por questões de coerência, os exames não poderão avaliar conteúdos relacionados com as obras que mais esforço requerem na disciplina. Vão, pois, incidir na leitura do texto não literário (mais acessível e circunstancial) e poderão eventualmente contemplar um excerto de uma obra cuja interpretação se esgotará em meia dúzia de perguntas sobre uma personagem, o tempo ou o espaço onde se situa a acção. Nada sobre um autor, o seu estilo ou a grandiosidade literária. Nada sobre Camões ou Gil Vicente. Passarão invisíveis por uma geração que não sabe de onde vem - e que, por isso, desconhece para onde vai.

Obviamente os alunos aprenderão a falar e a escrever sem as obras dos grandes autores. Mas não aprenderão a pensar. A ter espírito crítico. A gostar e a consumir a arte e o Belo. A dizer não ao facilitismo e ao consumismo. A rejeitar o que é pernicioso para sua vida.

Com Gil Vicente, o aluno aprende a analisar a sociedade do seu próprio tempo – os costumes e a moral. É uma questão de “pensar” sobre o que lê e a recuperar a língua mordaz do autor para o século XXI, que tanto precisa de se rir de si. Já Camões chama a atenção para o herói que contra tudo e contra todos avança firme nos seus sonhos, contradizendo a apagada e vil tristeza dos submissos. E o que nos ensinam Pêro Vaz de Caminha, Fernão Mendes Pinto, José Cardoso Pires, Manuel Bandeira, Lourenço do Rosário, Vergílio Ferreira, José Gomes Ferreira, Eugénio de Andrade, Cesário Verde, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade? Ensinam-nos a ver o mundo, a pensar nele e a reflectir sobre o que é importante nesta vida tão breve.

Desistir dos grandes autores é desistir dos nossos alunos – levando-os para a frente, para o secundário, para o trabalho, para a vida, sem tempo de pensarem nas coisas do seu país, do seu ser e da sua alma. Damos-lhe um diploma, ou dois, ou três. E que fazem eles com estes canudos? Vêem a língua de Camões a flutuar num mar muito distante, junto ao nascer do sol, e a ser engolido por este. E aprendem bem (e talvez apenas isto) que o sol quando nasce não é para todos.

Inês Silva - Doutora em Linguística (Sociolinguística). Tem realizado estudos sobre a escrita dos alunos. É autora de várias publicações de carácter didáctico e de carácter linguístico. Na ficção, publicou o romance: A Casa das Heras. É docente no Externato Cooperativo da Benedita.




publicado por Correio da Educação às 11:55
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