22-06

A palavra aos professores


Nome: Paula Manuela Cardoso

Habilitações: Licenciatura e Mestrado

Disciplinas: Português/Francês

 

- O que é para si ensinar?

O meu acto de ensinar sempre foi a transmissão de conhecimentos científicos, culturais orientados por um programa definido mas de forma “personalizada”, isto é, o ensino é também um acto pessoal durante o qual a postura, a transmissão de valores culturais e éticos são o reflexo de quem ensina perante quem quer ser ensinado. Ensinar é também aprender com jovens de gerações diferentes que, de certa forma, nos obrigam a uma constante actualização.

- O que é um manual da(s) sua(s) disciplina(s) bem conseguido?

Um manual bem conseguido é aquele que permite ao docente uma flexibilidade no seu uso. É actual quer na sua diversidade textual, quer nas suas propostas de exploração de textos ou temas. O manual, como instrumento de trabalho, deve proporcionar ao docente a aos alunos momentos de reflexão adaptados ao ano de escolaridade. O manual bem conseguido é um instrumento para o professor e um apoio ao estudo para o aluno.

 

- O que é hoje um docente realizado?

As pressões políticas e sociais são uma constante na nossa sociedade a que o docente também está sujeito. O papel do professor tem vindo a sofrer alterações ao longo dos últimos anos que dificultam ou impedem muitas vezes o seu bom desempenho profissional. Contudo, é docente realizado aquele que, independentemente das situações político-sociais do seu país, realiza as suas tarefas com brio, com satisfação e chega ao fim do dia certo de ter cumprido os seus objectivos.

 

- Quais os vectores da profissão mais gratificantes? E os menos gratificantes?

O trabalho em grupo, a pesquisa, a troca de experiências, o contacto com a realidade juvenil, o reconhecimento profissional, são os vectores mais gratificantes desta profissão. Os outros, bem, são correcções a fazer, são aprendizagens a realizar e são, por vezes, muitas vezes, as causas das frustrações com as quais devemos viver e aprender.

 

- Por que é Professor/a? Qual o porquê da sua opção profissional?

Sou Professora por imposição parental. Sou de um tempo em que, a preocupação de pais atentos era, sem dúvida, proporcionar aos seus filhos uma carreira segura, honesta, e de prestígio. Senti que seria a carreira certa não tanto na minha vida académica que me deixa lembranças extraordinárias mas quando iniciei a minha actividade, no meu ano de estágio pedagógico. O contacto com a realidade escolar fez-me sentir bem, no lugar certo, senti que estava “talhada” para esta profissão. O futuro confirmou esta minha vocação.

 

- Teve modelos como aluno/a (um professor, familiar…)? E como Professor/a? Como o(s) caracteriza?

Não sou pessoas de ter modelos. Na verdade, aprendo com quem tem algo para me ensinar e admiro pessoas que sabem reflectir sobre a vida, pessoas com coragem, pessoas com capacidade de não ficarem caladas e que assumem a sua posição na vida. Não sigo modelos, tento seguir bons exemplos quando os vejo e me revejo neles. Prefiro seguir formas de estar na vida de ninguém em particular e de muitos ao mesmo tempo. São as minhas vivências que me têm feito mudar, que me permitem crescer como pessoa e nessas vivências, aquelas pessoas que partilham a minha vida.

 

- Como quereria que os seus alunos o/a vissem?

Na verdade não sei. Nunca parei para pensar nesta questão. Quero que os meus alunos me tratem com respeito, que me vejam como uma autoridade mas nunca como uma autoritarista. Gostava de sentir que fui importante na vida dos meus alunos, de uma forma ou de outra, seja no ensinamento de conteúdos ou numa só frase dito na hora certa.

 

Qual o livro que mais o/a marcou na vida? E na sua profissão?

Nenhum livro me marcou em particular. Tenho várias leituras, lidas em épocas diferentes da minha vida, e que, talvez por pertencerem a momentos distintos da minha existência, aqui partilho:

A vida de Pi de Yann Martel; A Solidão dos números Primos de Paolo Giordano; Os meus 35 anos com Salazar de Maria da Conceição de Melo Rita; Le Petit Nicolas de Sempé-Goscinny; Loucura de Mário de Sá Carneiro; O Príncipe Rosa-Cruz de José Braga Gonçalves; e tantos outros. O livro que me aguarda em cima da mesinha de cabeceira? Os Homens que odeiam as Mulheres um policial de Stieg Larsson.

 

- Qual o tipo de aluno mais interessante que encontrou? Poderia narrar algum episódio do seu relacionamento com um deles?

Encontrei vários tipos de alunos interessantes: admiro alunos que gostam de desafiar, sem prepotência e com educação, alunos que entendem um trocadilho à primeira, alunos que têm uma bagagem cultural acima da média. São também interessantes alunos com dificuldades de aprendizagem e mas que, com vontade, conseguem superar as suas lacunas atingindo níveis positivos de realização escolar e pessoal. São interessantes alunos que completam a sua educação académica com projectos culturais ou de solidariedade na sua escola. Felizmente são ainda muitos os alunos interessantes que encontramos de ano para ano.

 

-Como gostaria de ver a classe dos professores?

Gostaria de ver uma classe mais unida, com mais tempo para a investigação profissional, para a actualização tão necessária. Gostaria de ver uma classe mais valorizada quer pela classe governante que tem denegrido a nossa profissão quer pelos Pais e Encarregados de Educação que depositam cada vez menos a sua confiança nos educadores dos seus filhos.

 

Que mensagem deixaria aos professores?

A maior vitória de um professor é sair do seu local de trabalho com satisfação, dignidade e profissionalismo. A certeza de um dever bem cumprido é a satisfação de qualquer bom profissional.

E deixo este poema:

 

Não sei quantos seremos, mas que importa?!
Um só que fosse, e já valia a pena
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!
Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.
E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.

Miguel Torga




publicado por Correio da Educação às 15:42
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