24-09

1. Para compreender uma realidade é indispensável existir uma linguagem capaz de a expressar. Depois há que aceder a esta para apreender ou pensar aquela. Trata-se da antiga relação fundamental, mas pouco conhecida, entre a realidade, o pensamento e a linguagem – sendo esta constitutiva daqueles dois elementos, sem a qual, provavelmente nenhum deles existiria.

Ora parece ter-se hoje perdido a missão social do professor, tão viva, por exemplo entre esses profissionais na altura do liberalismo e da Primeira República. De facto, nestas épocas, tanto a escolaridade longa como a curta traziam claros e palpáveis ganhos individuais e sociais, observáveis desde a postura, à actividade profissional, à cidadania – pela capacidade de voto –, aos interesses culturais, aos tempos livres, para quem os tinha…

Hoje as coisas não são tão evidentes nem lineares. Antes, se apresentam mais sofisticadas e exigentes relativamente à linguagem e ao pensamento. Também parece ter desaparecido “a missão” do professor, substituída por papéis sociais adequados a tempos, públicos e situações específicas.

 

2. A motivação é a mola que faz avançar os homens e o mundo social. E, diríamos, até o físico se, metaforicamente, compararmos as condições do determinismo natural àquelas que são indispensáveis para que a motivação surja. Todavia para que haja motivação, é indispensável o conhecimento e o envolvimento com o meio circundante. Só depois, parece surgir a vontade de nele intervir.

Qual o compromisso dos professores vertido numa missão, que os envolva a eles e aos seus alunos na construção da cidadania, aqui e agora, hoje e amanhã?

Como pressuposto do regime, temos o aumento da escolaridade obrigatória. Isso, porém, não é garantia de sucesso de alunos, de professores ou do próprio regime. A prova está nas estatísticas internacionais que não nos oferecem um progresso qualitativo equivalente a esse aumento da escolaridade, na comparação, com outros países, dos resultados dos testes internacionais como o PISA, quanto à leitura, à escrita, à matemática e às ciências.

Ainda que a nossa escolaridade média de 7,7 anos subisse para os 10,5 anos da EU e a nossa aproximação desta média nos acarretasse um aumento do PIB entre 14% e 33%, nem assim estaríamos a aproximar-nos desta. Para além dela evoluir a um ritmo superior ao nosso, o meio familiar dos alunos é uma condicionante–chave da utilização e progressão dos recursos.

Quais serão os objectivos novos, para alcançarmos outros resultados cognitivos, capazes de formarem os homens, verdadeiros activos de uma sociedade do conhecimento?

A resposta parece ser: apostar no trabalho como um valor, capaz de unificar todos os cidadãos, delimitando a fronteira entre um novo humanismo e a ameaça de marginalidade e exclusão social. Assumir a valorização permanente do indivíduo, como capital humano, ao serviço da economia, da cultura e da educação para a vida, medida pelas capacidades de trabalho e de inovação, conducentes à realização da pessoa humana.

Com efeito, não basta saber e conhecer mais, é necessário criar novos elementos de avaliação, novos percursos ou programas formativos, novas provas e novos exames, nova formação, inicial e contínua, de professores, pautados pela exigência e excelência máximas, compatíveis com cada um, no lugar e no tempo em que se encontra, sob a égide da areté grega.

 

3. Parece hoje claro que os professores carecem de novos elementos no seu contrato social, a consciencializar por si mesmos, pelos alunos, pais, comunidade envolvente e tutela.

Na era do conhecimento, deve ser cognitiva a tarefa da educação, para esses seus actores. Cada acto educativo, realizado por estes, tem de ser um acto cognitivo, isto é, deve situar-se para além de rotinas, de automatismos e obediências cegas a regulamentos e despachos, mesmo se estes procedimentos são indispensáveis.

É urgente ir além deles. Como? Pelo conhecimento, que se torna específico do acto educativo. Cada presença na escola por parte desses actores tem como singularidade a dimensão cognitiva, desde logo, na compreensão da sociedade, da escola, do aluno, do seu trabalho, do professor e da tutela.

 

 

J. Esteves Rei - Professor Catedrático de Didáctica das Línguas e de Comunicação, na UTAD, Vila Real



publicado por Correio da Educação às 13:17
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1 comentário:
De Maria Alzira Reis Andrade a 2 de Outubro de 2010 às 18:27
Concordo e subscrevo esta análise, desilusão e angústia imanente a esta perspectiva. Com efeito, pretendem que os professores de hoje sejam silenciados para q sirvam apenas para tomar conta das crianças, sem que lhes possam transmitir/exigir nem educação, nem valores, nem conhecimentos, tudo isto disfarçado pela pseudo-avaliação dos docentes e pelo pseudossucesso das estatísticas dos resultados escolares. Isto porque estamos superados pelo mundo da "papelândia" e dos números, a quem alguém chama "simplex" e "sucesso". É lamentável contribuir para gerações (inocentes) perdidas.


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