27-09

Hoje como ontem…

1. O mesmo mar, mas o interior diferente. A mesma terra portuguesa, mas diferentes os estrangeiros a visitarem-nos – hoje chegam pelos aeroportos, ontem, de carro, pela estrada da Beira, recebendo-os a minha geração, à boleia, entre a Guarda e Celorico, à chegada, e entre Celorico e a Guarda, à partida.

A mira era treinar uma língua estrangeira e ver se, pernoitando aí, as filhas poderiam sair à noite, até ao parque, houvesse ou não Festas da Cidade, acompanhadas ou não pelos pais…

Neste ano, diz a comunicação social, o Algarve teve um mês de Agosto pleno, mas de Portugueses. Querendo com isso dizer que teve menos dinheiro. Mas ainda bem, pois, assim foi mais nosso…E as moiras encantadas – que ainda por lá as deve haver – terão assim ficado mais contentes, por falarem e ouvirem mais a nossa língua!

 


2. É verdade que hoje temos mais dinheiro no bolso, mas menos poder de compra. Coisas que a inflação e a economia tecem. Mas esse facto aproximou as minhas férias daquilo que eram antigamente. Ao mesmo período, corresponderam diferentes convivas à mesa: a morte e a vida levaram uns, os mais velhos, e trouxeram outros, os mais novos.

Nem diria que tive saudades das idas ao Algarve, a Valência, ao Mónaco ou a Santos, como noutros anos de maior abundância. Lembrei, antes, o tempo que nenhum desses destinos turísticos existia. Na minha memória, emergiram os relatos da ida de minha avó para a Figueira, a Rainha das praias, dizia-se, com os contrapontos do Estoril e da Póvoa de Varzim – as três encimadas por monumentais casinos.

Nesse momento, reli “Sinais de Fogo” (edições 70, 1978: 51), de Jorge de Sena, um romance esquecido, cuja acção se passa nos anos trinta, na Figueira, e onde a guerra civil espanhola toma relevo. E cito, a propósito:

“Para mim, a Espanha era meramente um nome, e a multidão de espanhóis que costumavam veranear na Figueira da Foz atroavam com a sua agitação e a sua gritaria as ruas dos ‘cafés’. E, no meu tempo, já as espanholas haviam sido batidas, no campo da prostituição, pela concorrência nacional.

Na Figueira, elas não faziam vida, porque os compatriotas logo tratavam de as repatriar, por causa do bom nome de Espanha, a menos que fossem bailarinas do Casino, que, essas, muito lambidas e com sapateados, exemplificavam para admiração dos portugueses, a grande arte da Hispânia.”

Este ir de férias cá dentro - e tão dentro que quase nem saí de casa - proporcionou-me rever amigos, refazer convívios, retomar o grelhador das sardinhadas e das fêveras e, sobretudo, reviver a sensação das noites longas e quentes, perdidas na conversa fiada de quem tudo tem para (re)contar desde a infância. E ouvia-se, de vez em quando: “Estamos a ficar velhos ou isto nunca aconteceu?” – eram os mais melancólicos que traziam o coração à boca…

 

3. A crise levou-me às festas da minha terra, o que causou espanto nos mais velhos – pois já nem recordavam a última vez que me haviam visto. Muitos, da diáspora como eu, surgiram-me quase irreconhecíveis, portadores de disfarces que nem pareciam naturais: da cor do cabelo ou da ausência deste às redondezas avolumadas por todos os lados, com destaque para a proeminência abdominal e as filhas, senhoras feitas, que eu vira, meninas, havia longos anos!

Não levei a mala de livros como quando jovem regressava do colégio. Mas deu para reler “A Musa em Férias” de Junqueiro (“Obra Poética”, Lello, 1972: 694), em homenagem aos que já partiram e da vida idílica que com eles vivi.

“Como um burguês grave e sério, / Um bom burguês exemplar, / Fui-me até ao cemitério / Ontem depois do Jantar // A morte cheia de horrores / Na Primavera é gentil: Veste um vestido de flores / Do guarda-roupa de Abril.”

E quedei-me à espera de melhores férias. Mesmo se, diferentes, estas foram bem minhas.

J. Esteves Rei - Professor Catedrático de Didáctica das Línguas e de Comunicação, na UTAD, Vila Real



publicado por Correio da Educação às 09:10
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