14-10

1. O homem ainda não conseguiu libertar-se do lugar e do tempo mesmo na era do virtual. Assim, comemorando-se neste ano o centenário da implantação da República, parece acertado que este facto surja no horizonte veraneante. Tais comemorações celebram-se um pouco por todo o lado, com destaque para a capital onde mais lugares e pessoas estiveram ligados a esse acontecimento.

Em Lisboa, parece ter concentrado o seu interesse a Comissão Nacional das Comemorações do Centenário, ao criar três grandes exposições, que chamam a atenção do transeunte desde os grandes painéis exteriores. A do “Corpo”, no torreão oriental do Terreiro do Paço, a do “Viajar”, no local oposto a esse da mesma praça, e a da “Viva a República 1910 – 2010”, na Cordoaria, à Junqueira.

Uma deslocação a Lisboa para uma visita a esses espaços faz lembrar outras peregrinações culturais à capital, como a “Expo 98”, bem mais badaladas pela comunicação social, mas com idênticos motivos e de igual implicação identitária.

 

2. O “Corpo” é o tema da primeira. Na passagem do século XIX para o século XX, ele adquire uma visibilidade apenas conhecida na arte sacra de séculos anteriores. Passara assim de “besta negra” que enclausurava a alma, na Idade Média, para estrela espelhada diante de cada um dos cidadãos, com um brilho proporcional ao “status” social e à carteira do indivíduo.

Para isso, contribuiu o avanço do conhecimento médico, aumentando a auréola que envolvia a aprendizagem e o exercício da medicina, bem visíveis na exposição. Para isso, contribuiu, também, o desenvolvimento da socialização e a frequência de clubes e associações por onde passava a vida social crescente, e onde a exposição do corpo ganha relevo. Iniciava assim o reinado que conheceria no século XX e mantém até hoje.

O “Viajar”, no tempo da implantação da República, é a massificação elitista da “viagem” que desde o século XIX vinha ocupando o imaginário do nobre e do burguês. A Suíça surge no horizonte como o local que qualquer viajante digno desse nome, à época, não deixa de incluir no passaporte.

Intramuros, o triângulo, Tomar, Batalha e Alcobaça é dos destinos mais divulgados pela “Propaganda de Portugal”. Mas também a corda, Figueira, Coimbra, Luso, Viseu, Serra da Estrela, chama a atenção e aparece bem cotada. Em contraponto, porventura, com maior impacto social, nasce o gosto pelas praias e cresce o termalismo.

Todos estes aspectos ressaltam bem documentados e expressivos em imagens que, predominantemente, a preto e branco, prendem pela simplicidade do traço e do ângulo por que são tomadas. É com a República que nasce o turismo, ao criar a Repartição do Turismo em 1911.

 

J. Esteves Rei - Professor Catedrático de Didáctica das Línguas e de Comunicação, na UTAD, Vila Real



publicado por Correio da Educação às 15:31
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