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Relia há dias o romance, Orgulho e Preconceito, de Jane Austen e deparei-me com uma série de preconceitos essencialmente sociais e culturais, tal como surgem identificados, expostos e narrados. Porém, surpreendeu-me o facto de me confrontar subitamente com uma interessante passagem, por mim já esquecida, e que, contudo, assinala um importante foco de interpretação da obra e da sociedade epocal ali enformada. Para além disso, a aludida passagem assinala interessantemente um ponto de relevante e actualizada polémica, sensível, por isso, à nossa época e hodiernas sociedades e demais subsistemas culturais e educativos. Trata-se, mais exactamente, da passagem relativa à consideração da personagem Mr Collins relativamente à leitura de romances no contexto da visita à casa da família Bennet. Justamente, Mr Collins afirmava a dada altura:

“ [...] O Sr. Collins prontamente aceitou, e um livro foi introduzido, mas ao contemplá-lo (pelo que todos os livros provinham de uma biblioteca itinerante) afirmou nunca ler romances. [...] ". O Sr. Collins, [...] disse: "Tenho muitas vezes observado quão pouco as jovens moças se interessam por livros de carácter sério e grave, embora escritos exclusivamente para o seu benefício. Espanta-me, confesso, - já que, certamente, não pode haver nada tão favorável a elas como a instrução. [...] ". [Austen, 1984:113].

 

Portanto, a personagem de Mr Collins, qual figura de sinédoque, representativa de tantos outros indivíduos desconfiados e hostis para com o género romanesco, com ou sem responsabilidades educativas, com ou sem relações directas com o sistema escolar contemporâneo, reage de modo abrupto à ideia da leitura de um romance. Justamente, considera-o objecto de desconfiança, descrédito e de imediata negação ou causador de notas de horror instintivo, a avaliar pela sua atitude de pudor livresco e movimentação que sugere ofensa ou negativa surpresa. Mais ainda, a personagem de Mr Collins aponta tamanho género literário como o oposto dos livros ditos sérios, caracterizando-os, deste modo, por serem nefastos, desvantajosos, destituídos de qualquer interesse didáctico ou de valor instrutivo real e geral.

Ora, tamanha observação, produzida pela personagem ridiculamente descrita, caracterizada e retratada de Mr Collins suscita, de facto, o levantamento das seguintes questões: Quão instrutivo pode ser um romance e que potencialidades didácticas o mesmo género literário enforma, mesmo quando não fora pensado segundo essa intencionalidade original? Mais, será ainda ou terá sido alguma vez o romance potencialmente educativo, sério, vantajoso, oportuno, recomendável e salutar? Ou seja, o romance fará bem a todos nós leitores, mais ou menos instruídos, mais ou menos escolarizados? Justamente, Wayne Booth, líder da crítica ética contemporânea, objectou na sua obra The Company We Keep, An Ethics of Fiction, 1988, “[…] que toda a genuína ´literatura´ ou ´arte´ é boa para nós: ambas reduzem um complexo conjunto de problemas a um manto distintivo. […]”[Booth 1988:300]. Com efeito, Booth coloca essa vantagem da leitura literária nos seguintes termos:

“[…] Se nós tivéssemos lido muito daquilo que designamos de ´literatura´ - a boa matéria - se assim podemos designar, juntamente com outros momentos de violência e horror, mais nos confrontaríamos com as imagens que ´vemos´com gratidão, dádivas que alargaram as nossas vidas imaginárias com possibilidades que as nossas vidas reais nunca poderiam oferecer. Ali nós encontramos cenas de inequívoca felicidade e preenchimento mas também momentos correctivos e punitivos quando uma imagem maldosa, deliberadamente criticada pelo seu respectivo contexto, abriu os nossos olhos para os vícios de algumas práticas anteriormente aceites: […]” [Booth 1988:284].

 

Trata-se, portanto, de uma leitura crítica e ética da literatura, capaz, deste modo, de influenciar ética e moralmente os seus leitores, desde a mais tenra das idades. Tamanha influência é essencialmente manobrada e materializada por via da acomodação gradual do universo narrativo e ficcional (personagens, enredos, histórias, peripécias, acções, etc.) na estrutura mental dos leitores, acabando por assumir uma presença constante nas nossas vidas, quais companheiros ficcionais, com os quais somos capazes de estabelecer relações de amizade e de companheirismo [Booth 1988]. Estas presenças literárias, representam, para Booth a fundamental matéria ética e moral, a partir da qual se compõe a natureza educativa da literatura, muito particularmente das narrativas romanescas, pelo que toda a literatura, “ Todas as narrativas são didácticas” [Booth 1988:151], a avaliar pelo modo mais ou menos frequente e eficaz com que os leitores levam algo das suas leituras para “ [...] os seus eus reais. [...]” [Booth 1988:151]. Na verdade, e segundo o mesmo autor,

“Toda a arte da imaginação, benigna ou violenta, profunda ou trivial, pode colonizar a mente […]”[Booth 1988:298]; “[…] Ler pode igualmente produzir memórias obsessivas e (talvez) lamentáveis ainda que as imagens que construímos através da leitura sejam frequentemente menos gráficas do que aquelas que construímos com a ajuda das mais explícitas artes visuais […]” [Booth 1988:294].

A partir dessas leituras, o autor refere que absorveu “[…] As imagens permitidas, aquelas que repito e com as quais admiravelmente travo luta na memória são ainda mais firmes e, deste modo, potencialmente destrutivas. Afinal de contas, ´elas ajudaram-me a ser quem eu sou hoje´[…]” [Booth 1988:295].

De facto, desencadeando reacções de expressa negação ou motivando absoluto repúdio e hostilidade, vários são os Mr Collins reais incapazes de perceberem o alcance formativo de tamanho género literário, ainda que confirmem nos romances a posse de um inequívoco poder influenciador, seja ele qual for. De facto, talvez a questão seja, essencialmente, didáctica e pedagógica. Talvez a “atribulação” tão parafraseada e o “mal” tão vulgarmente comentado se situem nas leituras impreparadas ou acríticas, tal como denuncia Booth [Booth 1988]. Assim, e fazendo eco das cautas e avisadas reflexões de Jacinto de Prado Coelho na sua célebre obra A Educação do Sentimento Poético, 1944 [Coelho 1944:14-16], mais do que ler é por demais conveniente saber ler, pelo que cabe ao educador e professor essa devida orientação pedagógica, no sentido amplo do termo e assumindo-se muito naturalmente as incidências éticas e morais correspondentes, dos seus alunos quando confrontados com esse poderoso instrumento educativo que é o romance.

De modo semelhante, autores antigos interessados sobre o campo da educação e pedagogia como Plutarco haviam já colocado os termos da presente questão nos terrenos próprios da moral e da ética [Plutarco 1987]. De facto, Plutarco discordaria da opinião aludida de Mr Collins, assim como daqueles que hoje lançam sobre o romance e demais géneros literários tratados e ensinados na escola gestos de criticável sobranceria e desconfiam da sua utilidade pedagógica ou mais-valia formativa. Pelo contrário, a existirem no seu tempo, tal como hoje os conhecemos, Plutarco decerto recomendaria os romances no conjunto das leituras abrangidas pelo currículo escolar, visto que os alunos devem, na sua opinião, ser confrontados com todas as leituras de boa ou má índole moral, pelo que lhes era liminarmente útil [Plutarco 1987:93,117-124]. Justamente, essas leituras eram oportunas para lhes desenvolver o espírito cívico e responsável, dotando-os de capacidades para distinguir as boas e as más leituras, incentivando-os, deste modo, a aceitar as primeiras e a recusar as últimas. Com efeito, os alunos devem, antes de mais, aprender a ler, devem, portanto, ser guiados, conduzidos e orientados pelo seu educador [Plutarco 1987:90-91]. Este, sensível para com os conteúdos literários narrados e consciente das estratégias didácticas mais propícias, será responsável por esse entrosamento didáctico-pedagógico, ao mesmo tempo que corresponde às expectativas do aluno pela sua realização leitora aprazível, materializando ou operando simultaneamente o labor instrutivo que preside ao ensino e aprendizagem do texto literário, neste caso o romance.

Portanto, os romances são, na opinião destes e outros autores, objectos distintamente estéticos e genuinamente susceptíveis de exercer uma poderosa influência ética e moral. Dos seus respectivos conteúdos narrativos, destaca-se, deste modo, a sua rica e poderosa matéria ético-moral, verdadeiramente instrutiva e idónea, desde que abrangida, percebida e trabalhada por uma não menos conveniente e desejável filtração didáctica e pedagógica. Deste modo, exortemos à retirada do Preconceito sobre o ensino das grandes narrativas e demais textos literários que neles deslinda terrenos humanos de vasta e extraordinária exploração e invistamos no Orgulho educativo que, assim, virtuosamente educa o aluno e forma o homem. Assim ousados a agir, seremos finalmente capazes de concluir, afinal, que os romances são os que nos fazem melhor(es).

 

Bibliografia:

Austen, Jane, Pride and Prejudice, 1984, The Penguin English Library.

Booth, Wayne C., The Company we Keep, An Ethics of Fiction, 1988, University of California Press.Ltd., The Regents of the University of California, p.557

Coelho, Jacinto do Prado, A Educação do Sentimento Poético, 1944, Coimbra, Coimbra Editora, p.88.

Plutarco, “Comment Lire Les Poétes”, 1987, Texte établi et traduit par André Phillipon, Inspecteur Général honoraire de l´instruction Publique, Oeuvres Morales, Tome I, 1ere Partie, Introduction Génerale par Robert Flaceliére et Jean Irigoin, Membres de L´Institut De L´éducation dés Enfants, Texte établi et traduit par Jean Sirinelli Professeur à L´ Úniversité de Paris – Sorbonne, Société D´Édition «Les Belles Lettres» 95, Boulevard Raspail, Paris, p. 172.

 



publicado por Correio da Educação às 17:01
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