28-10

*Inês Silva

 

Otimismo é uma palavra pouco audível nos dias que correm. A tendência é a de se dizerem, quase ininterruptamente, palavras de outra ordem, como “crise”, “dívida”, “desemprego”, “dificuldade”, “sacrifício”, “austeridade”, “boys”, “corrupção”, “falência”, “corte”, “custos”, “queda”, “incompetência”,”fragilidade” – nomes que, nos contextos em que são ditos, só podem semanticamente contribuir para caracterizar de “infeliz” o país em que vivemos. E não são apenas proferidos em conversas de circunstância, aquelas que preenchem os espaços sociais nos locais públicos e privados, quando encontramos algum amigo ou algum conhecido e perguntamos “Como vai?”/ “E a família?”, e onde, por vezes, ainda introduzimos um comentário, como “Choveu imenso nos últimos dias!”, finalizando com um espécie de refrão de cantiga de escárnio e maldizer dos tempos de agora: “É a crise!”. Os tais nomes depreciativos também têm sido utilizados “à boca cheia” por várias personalidades públicas, jornalista e políticos, quer na imprensa quer na televisão, em todos os canais, em todos os debates e em todos os noticiários. Ou seja, estão a dominar lexicalmente a comunicação pública e privada do momento.

 

E há razões de sobra para tal: temos hoje um país desfeito, devorado pela derrapagem, pelos maus negócios, pela ausência de injustiça, pelo irreconhecimento da inteligência, do trabalho e dos valores morais.

Ora, os poucos que pronunciam a palavra otimismo neste infeliz Portugal são incluídos imediatamente num dos grupos de pessoas que passo a discriminar: o dos enganadores do povo, caso daqueles que, ao invés de analisarem o país em laboratório permanentemente, a fim de estudarem com rigor o comportamento das partes do todo para prevenirem doenças futuras, vão prescrevendo genéricos que não curam qualquer mal; o dos irónicos, que dissimulam por graça, por crítica ou por afronta; e o dos sonhadores num país em que não há maravilhas” – sendo estes tidos por pessoas que não são como os seus contemporâneos, ou seja, não seguem a norma estabelecida baseada na cultura pessimista hoje instalada.

Vou deter-me neste último grupo, o dos sonhadores, pessoas irrealistas que fogem ao “normal” nas visões da atualidade. E detenho-me neste grupo porque é onde me incluo como professora e onde é obrigatório incluir todos os professores.

Ser professor hoje é ter razões de sobra para desacreditar, por ver enfraquecido o seu papel social, a sua dignidade e o seu sustento. O professor conhece bem o significado dos nomes que a sociedade vai proferindo com desalento: tem sentido a crise, mas uma crise mais moral, social e cultural do que financeira, assegure-se. No entanto, ele não pode reiterar a significação dos nomes que invadem a sociedade na sua sala de aula. Não pode, pois, manifestar-se pessimista no seu trabalho. É na procura de ver o lado positivo sempre, mesmo num emaranhado de problemas graves, que ele se assume. Por isso, o professor faz parte do terceiro grupo, o dos sonhadores, que guardam para si todos os pessimismos e propagam o otimismo, principalmente quando têm à sua frente crianças, adolescentes, jovens e mesmo educandos adultos.

A missão de um docente é educar para o sucesso, para o desenvolvimento, cantando a toda a [sua] gente: és capaz / vais aprender / consegues / esforça-te que vale a pena / não desistas / estás quase lá / a escola é o caminho / a aprendizagem leva ao sucesso /não queiras o que é muito fácil / puxa por ti / não te deixes ficar para trás / procura a nota máxima / tudo é possível…

Educar para o otimismo deverá passar a ser norma em Portugal. A anormalidade consiste, pois, em não o fazer. E o professor sabe-o.

Talvez com este esforço, o futuro traga uma geração de pessoas mais otimistas, crentes num “país feliz” que poderão refundar, porque foram educados por professores que acreditaram neles para essa refundição. E talvez seja essa geração futura que vai limpar dos dicionários de língua portuguesa os nomes comuns mais depreciativos que se leem e ouvem hoje por todo o lado, e com eles os nomes próprios dos responsáveis pelo seu emprego sonante.

 

 

*Inês Silva - Doutora em Linguística (Sociolinguística). Professora Adjunta Convidada na Escola Superior de Educação de Santarém. Tem realizado estudos sobre a escrita dos alunos. É autora de várias publicações de caráter didático e de caráter linguístico. Na ficção, publicou o romance: A Casa das Heras.



publicado por Correio da Educação às 15:52
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