15-11

1. A relação pedagógica entre professor e aluno, ocupava, até há pouco, tempo grande espaço escolar, sendo essencial na Grécia antiga, mas tendo quase desaparecido da escola, nos nossos dias. A burocratização da vida docente eliminou o tempo e a disposição para professor e aluno partilharem uma cultura humanista e uma referência a modelos de vida, de carácter e de intervenção social.


 

Hoje seria impossível o diálogo entre o neurocientista, António Damásio, e o seu professor de Filosofia, Joel Serrão:

“Era um professor magnífico – ensinava História e Filosofia – e eu de vez em quando conversava com ele. Um dia, falei-lhe do que queria fazer e disse-lhe que estava a tentar decidir se ia escolher a via literária ou científica no liceu. Ele ouviu-me e respondeu: ‘O que tu queres ser é neurologista.’ ‘Ah, disse eu, neurologista. E porquê?’

A questão é que vieram daí uma quantidade de textos que ele achou que eu devia ler e, em particular, a recomendação de ler um livro do Egas Moniz. Tudo isto aconteceu, lembro-me muito bem, quando eu tinha 16 anos – e, depois de ter pensado bastante no assunto, decidi que ia para Medicina e que ia ser neurologista. Foi uma decisão que nunca se alterou.” (Público, online, 18/10/2010)

 

2. Esse saber era o saber tradicional, exterior ao currículo, tomando este o saber físico-matemático, pós-Descartes. Esse saber tocava a fronteira do sagrado, porque ligado à vida. Um saber que ficava fora da ciência positivista e suas leis cuja capacidade explicativa do real desaparece com novas leis.

Esse saber tradicional era aquele que os povos transmitiam à roda da fogueira, no lar ou no terreiro público. Conta-se, em certos países africanos, que tal saber desapareceu quando chegou a lâmpada elétrica. Com esta, as populações, enfeitiçadas, deixaram de contar as histórias instrutivas das crianças e jovens para se fixarem na contemplação desse objeto mágico que dava luz!

E, metafórica e contrastivamente, essa luz, elétrica, trouxe a ignorância de um saber secular que orientava as ações e as consciências dos homens. Estes perseguiam, até então, outra luzinha que brilhava na relação pedagógica, de adultos e jovens, dentro e, sobretudo, fora de salas de aula.

As famílias hoje não vêem nem procuram mais essa luz. Mas esperam que alguém a indique aos filhos, procurando-a: da catequese ao clube, ao campo de férias ao escutismo e, sobretudo, na escola.

 

3. Essa busca e esse pedido não são de hoje. Podemos encontrá-los já na carta de Abraham Lincoln ao professor do seu filho, em 1830, divulgada por José Manuel Fernandes no seu Facebook, a 11/09/2010. Podendo não ser desse autor, materializa bem esse outro saber que se espera seja plantado perante os jovens.

E era bom que o professor sentisse possuir tempo, disposição e reconhecimento, institucional e social para o fazer, como no caso de António Damásio.

"Caro professor, ele terá de aprender que nem todos os homens são justos, nem todos são verdadeiros, mas por favor diga-lhe que, por cada vilão há um herói, que por cada egoísta, há também um líder dedicado, ensine-lhe por favor que por cada inimigo haverá também um amigo, ensine-lhe que mais vale uma moeda ganha que uma moeda encontrada, ensine-o a perder mas também a saber gozar da vitória, afaste-o da inveja e dê-lhe a conhecer a alegria profunda do sorriso silencioso, faça-o maravilhar-se com os livros, mas deixe-o também perder-se com os pássaros do céu, as flores do campo, os montes e os vales.

Nas brincadeiras com os amigos, explique-lhe que uma derrota honrosa vale mais que uma vitória vergonhosa, ensine-o a acreditar em si, mesmo se sozinho contra todos. Ensine-o a ser gentil com os gentis e duro com os duros, ensine-o a nunca entrar no comboio simplesmente porque os outros também entraram.

Ensine-o a ouvir a todos, mas, na hora da verdade, a decidir sozinho, ensine-o a rir quando está triste e explique-lhe que, por vezes, os homens também choram. Ensine-o a ignorar as multidões que reclamam sangue e a lutar só contra todos, se ele achar que tem razão. Trate-o bem, mas não o mime, pois só o teste do fogo faz o verdadeiro aço, deixe-o ter a coragem de ser impaciente e a paciência de ser corajoso.

Transmita-lhe uma fé sublime no Criador e fé também em si, pois só assim poderá ter fé nos homens. Eu sei que estou a pedir muito, mas veja o que pode fazer, caro professor."

Abraham Lincoln, 1830

 

J. Esteves Rei - Professor Catedrático de Didáctica das Línguas e de Comunicação, na UTAD, Vila Real



publicado por Correio da Educação às 20:44
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1 comentário:
De Valdemar Sousa a 19 de Novembro de 2010 às 16:32
Concordo com o Doutor J. Esteves Rei. Idealizou Vygotsky (entre outros autores) que a aprendizagem dá-se através da socialização entre aprendiz e mestre. São os alunos o centro da nossa missão.
A nossa relação com eles está a ficar para 2º plano no meio de tanta preocupação com a avaliação e progressão na carreira docente, entre alterações curriculares supérfluas e economicistas, entre pessoas sem vocação e vontade a exercer a docência, etc.


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