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Raúl da Cunha e Silva


Como a professora Áurea Judite exerceu funções num período da afirmação da Escola Nova ou Activa e do seu controle tem cabimento trazer à colação alguns dados que considero pertinentes:


- Emergência da Escola Nova, no estrangeiro - em Portugal a Escola Nova floresceu nos anos 20 devido a uma geração de pedagogos notáveis. A partir dos anos 30, o nacionalismo apoderou-se do movimento da Escola Nova. Eram os sinais dos tempos.

- Educação Funcional. Claparède (1873-1940), biólogo e médico estuda as crianças dos 3 aos 7 anos na Casa dos Pequeninos, no Instituto Jacques Rousseaux, em Genebra a partir de 1914.

- A Pedagogia Científica de Montessori (1870-1952). Funda a sua investigação na Casa dei Bambini aberta em 1907, em Roma, na base da liberdade de expressão dos “bambini”.

- O Método de Decroly (1871-1932) que baseando-se na psicologia da criança, defende os centros de interesse.

- Os centros de interesse na escola de Freinet (1896-1966). Estes são alguns dos muitos exemplos do que se começava a fazer por essa Europa fora, lançando com a solidez que a ciência do tempo consentia os ensaios da Escola Nova ou Activa cujas caraterísticas essenciais são as seguintes:

. Puerocentrismo, ou seja, a escola centrada no aluno, em vez de centrada no professor como até então.

. As matérias, ou seja, o currículo construía-se a partir das necessidades e interesses dos alunos e não do Ministério da Educação.

. Era abolido o castigo físico e a repetência. Insistia-se nos jogos pedagógicos e secundarizava-se o ensino verbalesco.

. Estas doutrinas chegaram a Portugal. Professores houve, que, como bolseiros ou por outro processo se inscreveram, ou visitaram apenas, algumas das escolas referenciadas.

 

Baseando-me nos textos indicados, vamos percorrer um pouco o caminho que nesta matéria seguiu a professora Áurea Judite do Amaral.

 

Frequentou aulas do professor Claparède e de outros eminentes docentes em Genebra cujo relatório iremos abordar, seguiu aulas em Londres, visitou a escola de Catarina de Sena em Milão e de Montessori em Roma, além de outras situações pedagógicas referidas nos textos.

 

Faz um registo, no seu relatório, da escola no Cantão de Genebra: ensino obrigatório dos 6 aos 15 anos; gratuitidade do ensino; o Estado fornece gratuitamente os livros e material escolar; subsidia cantinas para os alunos pobres e dá assistência médica, incluindo tratamento dos dentes; 3 níveis de ensino primário: escolas infantis; escolas primárias, escolas complementares; não havia castigos corporais; as turmas eram mistas; havia entre 10 e 12 passeios de estudo por ano; havia trabalhos de casa (TPC); bibliotecas escolares gratuitas (Em Portugal a biblioteca e museu do Ensino Primário foi instituída em 1933 na Direcção Geral do Ensino Primário, não nas escolas - é o atraso de 50 anos a que se refere a Professora Áurea Judite Amaral); ensino das cousas (res); classes especiais para os alunos mais fracos.

 

Para além destes indicadores, gostaria de me referir ao decreto n.º 22.369 de 30 de Março de 1933, ou seja, ao decreto que estabelece a inspecão e a orientação pedagógica do Ensino Primário (a inspeção escolar visa o bom rendimento escolar).

O professor consciente não teme o inspector, se o professor deseja progredir, melhorar a pedagogia e o inspector tem os mesmos objectivos.

Relativamente à inspeção feminina, embora ela já existisse na Lei, a sua efetivação agora mostra 50 anos de atraso relativamente à Europa.

Neste contexto, a professora Áurea reconhece que a escola está organizada para o aluno médio (segundo a taxonomia de Glauss). De fora, ficam os outros alunos: os muito bons e os muito fracos que precisam de atenção e de organização adequadas para obterem sucesso.

 

Preleções inaugurais:

- Feita pela professora Áurea em Leiria, em 25 de Janeiro de 1934. Aí explica a função da inspeção, a orientação que os inspetores transmitem aos professores, com todo o carinho, e a necessidade da sua ação tanto mais que ela é usada em todo o mundo.

- Preleção foi proferida a 1 de Fevereiro do mesmo ano. Curioso o discurso do Diretor Geral que presidiu à sessão. «Estão aqui os estudantes; e os vossos professores onde estão?” Esta ausência pode ter muitas explicações.


Raúl da Cunha e Silva – Doutor em Ciências da Educação, docente aposentado da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, ligado à formação inicial de professores de Letras. Apresentam-se aqui aspetos da Comunicação proferida no dia 5 de Outubro no âmbito do Centenário da República, em Alfândega da Fé. Fonte de informação: Escola Portuguesa. Sobre a mesma figura, consultar António Nóvoa, Dicionário de Educadores Portugueses, Porto, Edições Asa, 2003: 492-494: 83 - 85.



publicado por Correio da Educação às 20:54
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