16-12

 

*Inês Silva

 


Boa notícia… a de que subimos no ranking da OCDE. Boa notícia… a de que as retenções baixaram. Boa notícia… a de que os professores foram os grandes responsáveis por estas boas notícias.
A televisão vai mostrando os políticos a regozijarem-se com a aprendizagem de sucesso dos nossos alunos e com o trabalho de todos os professores. Convém-lhes neste momento tecer alguns elogios a quem é sistematicamente espezinhado e culpado dos males maiores da sociedade das (in)competências.

É Natal. Lá fora chove. Cá dentro está quente, tão quente que não apetece ir para a rua. Mas, de repente, a rua veio até mim.
Pela janela embaciada, vi uma aluna pequenina, tão pequenina que passava despercebida entre a multidão. Vivia na minha cidade, cheia de neve branquinha, com prédios e casas e ruas iluminadas por grandes estrelas de luz. Pelas chaminés saía o fumo das lareiras fartas de lenha e o vapor das panelas bem apetrechadas de bons legumes e nacos de carne. E foi aí que a criança sentiu fome, mas ninguém lhe dava comida. Descalça, encostou-se à montra de uma sapataria. Olhou para os preços – que horror… como os adultos são cruéis e exagerados. Não há criança que lá chegue. E, ainda mais, ela não tinha nada para vender. Outrora, leram-lhe uma história de uma menina igual a si, que andava pelas ruas de outra grande cidade, recheada de neve macia, a vender fósforos. Com fome e com frio, lá ia ela de pessoa em pessoa, de casa em casa, até conseguir que alguém os comprasse. Mas, um dia, a menina, para se aquecer, acendeu-os todos. Depois, morreu e foi ter com Jesus, que vivia numa casa muito quentinha.
A aluna pobre decidiu, então, procurar luzinhas de Natal para se aquecer. Rua abaixo, rua acima, verificou que estas não existiam. A Câmara não as colocou porque não tinha dinheiro. Só mesmo dentro das casas elas cintilavam, muito recolhidas nas salas e nos quartos de pessoas tão diferentes dela. Então resolveu bater à porta de uma casa apalaçada. Com certeza lhe dariam uma luz.
Truz, truz.
Veio uma empregada que lhe perguntou o que queria.
- Quero uma luz. Uma luzinha pequenina que me aqueça.
- A luz vem da inteligência que herdaste da tua família. Vai, vai para casa.
A criança lá seguiu, esfomeada, e virou para outra avenida larga, muito iluminada, com casas de grande beleza e conforto. Os jardins branquinhos tinham bonecos de neve e arbustos forrados de chantilly.
Subitamente, viu uma criança à janela de uma dessas mansões. Decidiu-se e lá foi.
Truz, truz.
Um rapaz de dez anos veio abrir-lhe a porta.
- Sim?
- Olá. Dás-me uma luz da tua casa para me aquecer?
- Oh, quem oferece luzes é o governo. Procura-o, porque ele dá muitas a meninos pobres.
A criança, já enregelada, pensou que não podia perder mais tempo e foi procurar a casa do governo. Caminhou, caminhou, até que encontrou um edifício muito grande, de pedra tão fria que nem a neve ficava colada às paredes. Viu uma placa que dizia acesso reservado aos membros do governo.
- É aqui.
E lá foi. Subiu uma escadaria imensa, até que se lhe afigurou uma porta muito alta, robusta, trancada a sete chaves. Com a sua mãozinha roxa, bateu.
Truz, truz. E mais três vezes: truz, truz, truz.
A ausência de calor humano era total. Percebeu que o governo estava fora, percebeu que também dali não levaria nenhuma luzinha para se aquecer, e percebeu, finalmente, que o governo a tinha abandonado, a ela, criança pobre.
Talvez estivesse a tratar das famílias, daquelas que depois de muito bem cuidadas podiam dar inteligência às suas crianças, para estas poderem chegar sem ajuda à luz que aquece os corações.
Resolveu, então, voltar às casas que estavam em baixo mas escorregou na escadaria, vindo a bater com o seu frágil corpo em todos aqueles degraus. Tombou na neve macia e aí ficou. Foi ter com Jesus, para a sua casa quentinha.
Descobriu-se mais tarde que, afinal, esta pequena aluna não constava do ranking da OCDE nem do número dos chumbos. Esqueceram-se dela. Talvez porque o seu problema tivesse a ver com fome e com frio… problema menor face aos resultados escolares, que brilham mais quando são bons.
Mas se, no próximo ano, em vez de uma andarem mais crianças à deriva, procurando luzes de Natal para se aqueceram, e se encontrarem ausência de calor humano na casa do governo, as boas notícias de agora tornar-se-ão más notícias, porque com fome e com frio não há aprendizagem nem resultados. E assim virá a má notícia… a de que descemos no ranking da OCDE. E também a outra má notícia… a de que as retenções subiram. Má notícia ainda… a de que os professores foram os grandes responsáveis por estas más notícias.

 

* Inês Silva - Doutora em Linguística (Sociolinguística). Professora Adjunta Convidada na Escola Superior de Educação de Santarém. Tem realizado estudos sobre a escrita dos alunos. É autora de várias publicações de caráter didático e de caráter linguístico. Na ficção, publicou o romance: A Casa das Heras.



publicado por Correio da Educação às 12:57
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