16-12

**Altino Serrano

 

Os olhos da ausência, num Natal

 

Entrou no shopping como quem entra num túnel iluminado. Acabava de chegar do Douro e tinha pressa de se perder no rebuliço das gentes em fim-de-semana.
Na primeira esquina dobrada sente sobre si um olhar fixo, vindo de um rosto feminino, ainda jovem, rasgado e claro como a luz do dia. Não o retém, desvia-se e continua sem qualquer fim mais definido, àquela hora, do que o simples deambular por um centro comercial.
Vagueia pelos corredores amplos, formigando de gentes que se deslocam lentas, aparentemente, a matar o tempo ou à espera de quem não vem. À hora marcada e em frente à Dielmar, onde fora tratar de um fato, chega a Agnuska, uma rapariga suíça do seu tempo, com quem se encontrava de longe a longe, desde a sua estadia naquele país.
Ela nunca conseguira grande integração social na cidade do Porto, preferindo partilhar a nostalgia do seu país com pessoas que dele guardassem quaisquer recordações. E como ele aí vivera alguns anos, em serviço oficial, mantinha esse convívio mais como solidariedade com a senhora do que por qualquer razão verbalizável ou devida à sua passagem pelas montanhas da Heidi.
Como era quase Natal e haviam marcado, em tempos, esse encontro, ele ali estava para o cumprir. Foram juntos tomar qualquer coisa ligeira, pois a hora do cinema aproximava-se. Terminada a fita e cumprida a desobriga da solidariedade que desde há anos se impusera para com Agnuska – não sabendo mesmo por que razão a mantinha – despediram-se, pois tinham os carros em lugares opostos do parque.
Eram onze horas e pensava no que fazer, sozinho, numa cidade que bem conhecera, quando estudante, mas que sentia fugir-lhe das mãos como enguia acossada por pescador fortuito.
Segue de passo lento, liberto das responsabilidades institucionais que deixara para lá do Marão. E nem a proximidade do Natal lhe impunha grandes preocupações com as compras de presentes, pois não tinha família e estava divorciado havia anos. Era sábado à noite, o limiar entre duas semanas, ou um tempo livre para homens livres, como costumava dizer.
Casualmente, olha à sua direita e detém-se na montra de uma loja de artigos desportivos. Porque guarda da juventude o hábito de dar grandes caminhadas, entra, para ver as novidades daquilo que no seu tempo se chamavam “sapatilhas”, transformadas hoje em infindáveis tipos de ténis que enchem as paredes da loja.
– Precisa de ajuda? – ouve da sua esquerda, numa voz suave, saída de um rosto delicado, com um sorriso medido e um olhar que reconhece...

 

 

Agora, mais de perto, identificava-o com o olhar que o fixara à entrada do shopping.
Sim, aceitaria a ajuda, não sabendo bem para quê nem vislumbrando quanto esses olhos, de novo postos sobre ele, lhe diriam mais tarde, vindo até a tirar-lhe o sono nessa noite.
Comprou os ténis e deu mais umas voltas à espera da meia-noite, hora a que fechava o centro comercial, para voltar e procurar a menina, pois haviam combinado ir beber um copo ao Napoleão, um bar na Foz do Douro.
Chamava-se Inês e fora sua aluna de Comunicação no Instituto Superior ERASMUS, onde ele dera aulas no início dos anos 90, no Porto. Era o tempo em que o ensino superior privado recebia alunos às centenas por curso, solucionando ao governo o problema do boom de finalistas do secundário, perante a exiguidade de vagas no superior público. Só as turmas numerosas poderiam explicar não ter ele fixado aqueles olhos grandes, claros e profundos de uma sua aluna, a iluminar um rosto pequeno, redondo que agora lhe fazia lembrar o de sua mãe. Mas também já lá ia muito tempo, é verdade.
Por felicidade sua, à chegada ao Napoleão, saía da mesa do canto um casal de meia-idade. Era a sua mesa preferida desde o tempo em que por ali passava, quando queria impressionar as colegas mais jovens ou menos vividas, ao chegarem da província à universidade.
Ao contrário desses tempos, porém, nesta noite, aí seria apenas ouvinte. Parecia ter sido o destino a trazê-lo ao Porto, nesse fim-de-semana. Chegara a pensar nem vir, por haver coisas urgentes a retê-lo no Douro.
Mas o que ele não ouviria, nessa noite, no Napoleão...
Que havia sido tema de imensas conversas em sua casa, quase desde que Inês se conhecia. Que fora a razão por que a mãe a matriculara em Comunicação naquele Instituto e aquela mesma estivera a seu lado quando recebera o diploma, com ele presente no palco, entre os professores que recebiam os recém-licenciados. Que elas não haviam tido a coragem de o abordar ao longo dos quatro anos do curso, para lhe dizerem quanto estava presente em suas vidas. Que a mãe, desaparecida havia um ano, devido a doença incurável, se chamava Mafalda e lhe dizia ter sido a sua primeira namorada, quando chegara ao Porto!
Ele não queria acreditar no que ouvia, mas confirmava o nome da namorada, quando entrou na universidade... Quantas vezes estivera naquela mesma mesa, com a “sua” Mafalda e, pelos vistos, mãe dela, já partida... Não podia ser verdade, tão jovem, tão cheia de vida...
Nunca mais a vira desde o dia em que, na biblioteca, em voz baixa e para sua completa surpresa, uns meses após se terem deixado, Mafalda lhe disse que ia casar, convidando-o para o casamento!
Nada entendera desse seu passo, mas com a fugacidade dos dias, à idade de vinte anos, também nunca quis saber mais sobre isso. E separaram-se depois daquele “Não”, que ele lançou como resposta àquele pedido, que sentia como provocação e atrevimento de ex-namorada.
Ao despedirem-se no parque do shopping, onde Inês deixara o carro, deu por si a fazer contas sobre as idades dela, da mãe e dele próprio.
E, no regresso ao apartamento, que mantinha na cidade como quem não quer a coisa, era a sua vez de fixar os olhos naquela ausência em que mãe e filha tinham trazido os olhos delas ao longo de tantos anos...
Nem lhe faltou a coragem para soltar, entredentes, a pergunta que, a partir de dada altura do serão, lhe tomou a cabeça:
– E se Inês fosse minha filha?!
Daí a dias seria Natal e ele recebeu em sua vida uma Menina-Jesus já crescida, vendo lavrada em certidão de registo de nascimento a descendência que sempre havia desejado e que sua mulher, por deficiência congénita, nunca lhe dera.
Todavia, a primeira namorada do Porto, sem que lhe pudesse agora agradecer, guardou consigo a melhor prenda de Natal. É que, também para ela, “o amor primeiro era o verdadeiro”.
Foi o Natal mais feliz da sua vida.

 

 

 

* In Hoje em Belém. Contos de Natal, José Leon Machado (org. ed. e ver.), Edições Vercial, 2010, http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/evercial
** Altino Serrano é o pseudónimo de José Esteves Rei, professor na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal. Altino Serrano “é o rosto de dois amigos que se encontraram em viagem de comboio, o ‘Arbalète’, entre Belford e Zurique, numa tarde fria de Outono, em 1978” – como se lê em “Registo de identificação”, na sua primeira coletânea de poemas com o título, Hinos… em Louvor da Terra, editada pela Universidade Fernando Pessoa (Porto, 1996: 3).



publicado por Correio da Educação às 21:15
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

CONTACTOS

ce@asa.leya.com
pesquisa
 
Correio Disciplinar
Ciências Sociais e Humanas
Línguas e Literaturas
Ciências Exatas e Experimentais
Expressões
Escola em destaque
Escola Secundária Alcaides de Faria
Agenda


arquivo
Ligações
Parceiros
subscrever feeds