13-01

 

1. O país é diferente de há dois anos a esta parte, devido à crise, nossa e dos outros. Os mercados, subjugadas a Grécia e a Irlanda aos seus apetites ou às suas conveniências, apontaram baterias a Portugal, à espera que este faça, perante o FMI, o mesmo que o cavalo na fábula de Esopo e La Fontaine fez perante o homem.

 

Na verdade, aquele, queixando-se da impertinência do veado que com as hastes o magoava, foi pedir auxílio ao homem, inteligente e forte, dizia, para pôr o veado na ordem. Assim foi, mas, desde então até hoje, o homem nunca mais deixou de montar em cima do cavalo.

Com a resolução da questão financeira, não acabarão os problemas do país. Estes, antes, ganharão muito com uma nova educação, na qual o homem adquira a centralidade que nela perdeu, desde o início da segunda metade do século XX.

 

2. Aqueles que pretendem transferir para outros a capacidade de resolvermos os nossos problemas financeiros ou outros lembram a D.ª Sorte, preocupada em acordar o menino que dormia à beira de um precipício.

«- Vá, Menino, levanta-te e sai daqui, pois se caíres no precipício não há aqui ninguém para te salvar e dizem que a culpa foi minha.» Responde-lhe a criança: «- Pois, mas se eu continuasse a dormir e não caísse, todos haviam de pensar que eu bem sabia o que fazia…»

É evidente que o perigo não tem preço e há que evitá-lo sem atribuição de culpas ou de benefícios. Todavia, parece estar nas nossas mãos a saída da crise, nas suas diversas ramificações. Para tal, parece indispensável uma educação nova para construirmos um novo país.

Procure-se o regresso da educação humanista, com renovada mentalidade, proporcionando o surgimento de uma nova gente. Guardaremos tudo o que de bom conquistámos no passado – capacidade de trabalho, sublimação, abertura à diferença, vontade de enfrentar o desconhecido e aprender, ambição, alegria de viver - libertando-nos do mau que adquirimos – ostentação, alheamento da planificação e do esforço continuado, indefinição do essencial e do acessório, aconchego em paternalismos serôdios, fatalismo cantado.

Aprendamos a viver com pouco, como os nossos pais, ou com menos e não a correr atrás de estratégias de comunicação de empresários sem ética que prometem tudo e nada dão ou muito pouco. O mundo atual necessita de uma nova «aurea mediocritas», de cariz citadino, que traga serenidade de espírito, tanto perante o positivo como perante o negativo, que o dia-a-dia nos ofereça. Aprendamos a estar acima dessas contingências, por contarmos com as nossas mãos e com a nossa cabeça.

A oportunidade poderá ser de ouro para visarmos o equilíbrio entre o défice económico-financeiro, de bem-estar e de direitos e o excesso de consumismo, de dinheiro - chegado de outra Índia ou de outro Brasil, que se chama Europa – e até de vida. Aparentemente, tratar-se-ia do regresso ao franciscanismo, depois de termos seguido, durante quinze anos, o jesuitismo.

No século XV, seguimos para África por não possuirmos trigo suficiente para alimentar as populações, nem ouro para cunhar moeda. Ora todos sentimos que, antes desta crise, circulava em Portugal dinheiro a mais e sustento em demasia. Infelizmente, porém, não eram nossos… Por isso temos a crise às costas. É que o exagero, positivo ou negativo, nunca foi saudável!

 

3. O país realizou nos últimos vinte e cinco anos uma gesta bonita de desenvolvimento cultural, económico, social, educativo e científico. Terá chegado ao fim?

A cada um de nós a resposta, através da acção, que é sempre a via mais comprometida e convincente. A cada um de nós o desmentido daquele aforismo romano, querendo agora alguns validar, de viver por cá um povo que “não se governava nem se deixava governar”. Não é verdade!

Teria sido um acaso o surgimento e a duração da mais prolongada soberania na Europa? Um «não» foi a resposta dos nossos maiores, que se anteciparam aos outros europeus na sua organização político-administrativa, no comércio com uma infinidade de povos, raças e gentes e na superação de crises bem mais problemáticas que esta.

Cabe a cada um não permitir, como refere Camões, que qualquer “fraco rei faça fraca a forte gente”.

 

J. Esteves Rei - Professor Catedrático de Didáctica das Línguas e de Comunicação, na UTAD, Vila Real



publicado por Correio da Educação às 11:49
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1 comentário:
De Maria a 5 de Abril de 2011 às 16:36
Bom, Sr Professor, parece que o Ensino e também o Superior só precisava de desenvolver duas competências nos jovens: vontade de trabalhar e capacidade para criar oportunidades para si e para os outros.
Amabs as coisas onde estão?


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