23-02

* Por Inês Silva

 

E o que acontece sempre que os salários dos gestores públicos são trazidos à praça da classe trabalhadora (não se pode dizer pública porque deixou de o ser há muito) é simplesmente isto: alguém no Parlamento levanta a questão e é imediatamente acusado de ter contribuído para a soma avultada que agora contesta. Resultado: tudo fica como está. Entretanto, a imprensa dá a notícia e convida para os noticiários comentadores que justificam tais quantias, dizendo que, se esta gente não for apaparicada por todos nós, ela vai para o estrangeiro ou para o privado.
E porque não a deixamos ir?
Não, não, nem pensar. Ela dá a ganhar muitos milhões de euros ao Estado.
Ah, sim… e onde estão esses milhões?
No Estado.
Mas o Estado somos nós. E nós estamos falidos, certo?
Certo. O diálogo sem fim à vista morre aqui.
O Estado está falido, porque não se sabe governar a si próprio, daí continuarem milhares de portugueses a descontar para pagar tanto aos catalogados de melhores do país – os que mais se esforçam pelos famosos lucros das empresas públicas. No fundo, os salvadores da pátria; os insubstituíveis, cujos cargos mais ninguém, com menor salário e sem chantagear o país de que se vai embora, consegue desempenhar; os que têm um QI acima da média, desenvolvido por muitos professores que veem agora os seus salários a serem reduzidos e os seus lugares nas escolas a diminuírem, só para que não se deixe estas crianças, agora adultas, tão esforçadas e tão inteligentes, sentirem uma dificuldade no seu percurso de vida, que seria ganhar menos, muito menos, porque o país não pode pagar tanto.
A diferença entre um gestor e um professor é, de facto, muito grande. Reside no salário. Reside no bom senso. Reside no espírito de sacrifício. Reside no bem que procura fazer aos outros e à comunidade onde está inserido. Reside no que entende por Estado. Não se acha o mais especial. Não é o melhor. É simplesmente um entre muitos. Comete erros todos os dias. Muitos. E o maior que o professor pode cometer é o de não ensinar o indivíduo a trabalhar para o bem comum.
Há que corrigir o erro no futuro, já que filho criado, trabalho redobrado.


Os acontecimentos da educação, que têm sido noticiados nos últimos tempos, relacionam-se, sobretudo, com a forma como o governo tem conduzido a sua ação governativa, assente em questões financeiras, que se traduziram nos cortes dos salários dos professores do ensino público e nos despedimentos dos do ensino particular e cooperativo. O desequilíbrio na profissão de docente é notícia. E é notícia séria, para levar a sério.
A sério deveria também ser levada a notícia sobre os salários dos gestores trazida a lume recentemente, que, aliás, não é de hoje. Lembro-me de, há um tempo atrás, ter ouvido qualquer coisa semelhante. Não me lembro dos valores revelados. Lembro-me simplesmente de ter ficado atónita perante a inércia de todos, tal como aconteceu agora.

 

* Inês Silva - Doutora em Linguística (Sociolinguística). Professora Adjunta Convidada na Escola Superior de Educação de Santarém. Tem realizado estudos sobre a escrita dos alunos. É autora de várias publicações de caráter didático e de caráter linguístico. Na ficção, publicou o romance: A Casa das Heras.



publicado por Correio da Educação às 11:49
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