24-02

1) Como caracteriza o ensino em Portugal nos últimos anos?


Não há um ensino, mas vários. Talvez o que caracterize o ensino em Portugal nos últimos anos seja mesmo a diversidade, a multiplicidade de projetos, individuais e coletivos, que se vão organizando em escolas com características muito distintas.

2) Que propostas sugeria para melhorar o ensino em geral e o da sua área disciplinar em particular?
O ensino em geral pode melhorar com formação adequada às necessidades, específica e não generalista. Pode melhorar se se devolver aos professores a responsabilidade de agirem como intelectuais e não como burocratas da educação.

Quando, em 1998/99, o Ministério da Educação impôs às escolas um novo desenho curricular onde apresentava 30 horas de carga horária global, que contemplava 5 horas para o que eram então novas áreas curriculares não-disciplinares (e que viriam a ter as designações de Estudo Acompanhado, Área de Projeto e Educação Cívica), promoveu uma redução efetiva do lugar dos saberes. Com efeito, as áreas disciplinares de Línguas e Estudos Sociais (do 2.º ciclo de escolaridade) sofreram de 1989 para 1998 uma redução de 2 horas e no 3.ª ciclo as Ciências Humanas e Sociais perderam 4 horas (3 para a História, 1 para a Geografia). Por outro lado, a recusa em mudar programas que ficavam desta forma desadequadamente extensos passou a dificultar a mudança de práticas pedagógicas e a consequente melhoria das aprendizagens dos alunos porque há, infelizmente, a tendência para reforçar neste contexto o ensino de carácter mais expositivo. O desenho curricular dos 2.º e 3.º ciclos aprovado pelo Decreto-Lei n.º 18/2011, de 18 de Fevereiro, nada alterou relativamente a estes problemas que se criaram desde 1998, apesar de se eliminar a Área de Projeto e de se alterar substancialmente o Estudo Acompanhado (a frequentar apenas por alguns alunos) e a formação cívica. As Humanidades perderam terreno e só a Língua Portuguesa e a Matemática parecem motivar as propostas da tutela desde 1998.

3) Como é que o funcionamento das escolas pode ser melhorado?
As escolas devem ser humanizadas. Tem que haver tempo de reflexão em conjunto, de trabalho conjunto. As turmas deveriam ter menos elementos para permitir trabalho colaborativo, para permitir um trabalho mais individualizado. Não se consegue fazer um trabalho eficaz com 8 turmas de 28 alunos cada (e há professores que têm mais do que oito turmas).

4) A profissão de educador parece ser cada vez mais complexa, desgastante, exigente, excessiva… qual é a sua perspetiva sobre esta questão?
A profissão de educador sempre foi complexa, desgastante e exigente. Faz parte da sua natureza. Mas estar mais tempo na escola não significa que esse tempo reverta a favor de um trabalho de qualidade. Reduzir o lugar dos saberes tem implicações diretas no modo como os alunos encaram o trabalho de determinadas disciplinas e tem implicações diretas na construção dos horários dos professores, muito sobrecarregados.

5) Como aperfeiçoar a articulação escola-família e fomentar o envolvimento dos pais na escola?
Há que pensar, em conjunto com os encarregados de educação, regras de atuação e atividades comuns, responsabilizando assim todos os elementos da comunidade educativa pelo trabalho que é desenvolvido.

6) Que medidas se podem tomar para combater a indisciplina e o insucesso escolar?
A humanização que referi é uma das medidas essenciais. Ter menos alunos por turma permite um trabalho mais próximo, permite diversificar metodologias e processos de avaliação, permite detetar mais rapidamente problemas, o que pode contribuir para que não se avolumem excessivamente.

7) De que forma é que as novas tecnologias poderão contribuir para um melhor ensino?
As novas tecnologias por si só não resolvem absolutamente nada. Tudo depende da forma como são utilizadas. São obviamente muito atrativas, mas se o método utilizado for repetitivo ou se não estiver adequado ao nível etário com o qual se está a trabalhar, não contribuirão para desenvolver competências diversificadas e poderão não contribuir para a melhoria das práticas educativas.
8) Qual a importância que atribui, agora e no futuro, ao manual escolar no ensino?
Pessoalmente não lhe atribuo grande importância. Preferia que houvesse no mercado um bom livro de fontes escritas e iconográficas com perspetivas diversas sobre os temas para trabalhar com os alunos a multiperspetiva e todas as outras competências da leitura, da seleção de informação, da análise, da síntese. Acho que era muito mais útil e menos infantil. O manual (diz-se) facilita a vida ao aluno e ao professor. Mas a que preço?

9) Na sua perspetiva, como vê o futuro do ensino da sua área disciplinar?
A partir do momento em que, em 2007, se criaram os mestrados em ensino e foi criado o mestrado em Ensino da História e da Geografia para o 3.º ciclo do Ensino Básico e do Ensino Secundário, isto significa na prática que teremos futuros professores de História e de Geografia com diversas formações académicas, desde que façam determinados créditos nestas duas áreas disciplinares. Teremos futuros professores de História e de Geografia que lecionarão aos alunos do 7.º ao 12.º ano mas cuja formação de base pode não ser nem em História nem em Geografia. Isto, na prática, significa uma formação científica muito mais diluída. Significa também que a área disciplinar de História (e, já agora, a de Geografia) não são áreas relevantes para o Ministério da Educação. O futuro não parece brilhante. Andamos na verdade ao arrepio do que se passa noutros países europeus.

10) Como presidente de uma associação de professores, quais as resoluções que estão a ser tomadas noutros países para fomentar o ensino da sua área disciplinar que poderiam ser aplicadas em Portugal?
A valorização das Ciências Sociais e Humanas, porque já se percebeu que potenciam o desenvolvimento de uma série de competências sociais e cognitivas que contribuem para a integração na sociedade, no mercado de trabalho. Porque se considera que as Ciências Sociais e Humanas, em geral, e o ensino da História, em particular, são um instrumento precioso para compreender a realidade, para promover competências gerais, transversais e específicas, para combater a hegemonia da cultura de massas e o absentismo cívico, para consolidar o regime democrático.

11) Quais as três medidas que implementaria de imediato, se fosse ministro da Educação?
Valorizar os saberes disciplinares nucleares (e não apenas a Língua Portuguesa e a Matemática).
Repensar em conjunto com os professores o novo desenho curricular dos ensinos Básico e Secundário.
Alterar radicalmente o processo de formação inicial dos professores e revalorizar a sua formação contínua.

12) Que mensagem/conselho gostaria de deixar aos pais, professores e alunos?
A formação é fundamental. O futuro está na formação e na constante reatualização. O maior investimento que se pode fazer é, por isso mesmo, na educação.


* Raquel Pereira Henriques é professora de História nos ensinos Básico e Secundário e de Didática e Metodologia da História no Ensino Superior. Doutorada em História e Cultura das Mentalidades Contemporâneas. Atual presidente da Associação de Professores de História.






 
 



publicado por Correio da Educação às 15:45
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6 comentários:
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