14-04

 

* Teresa Martinho Marques

 

 

Poderia começar por dizer que não há receitas. Que cada contexto é um contexto específico. Que a primeira diferença nasce em cada um de nós pessoa, professor, em cada escola. Poderia dizer que o tempo é uma variável fundamental. Verdades incontestáveis. Mas preciso de dizer um pouco mais. Procuremos, então, alguns aspetos comuns das viagens. Pequenos exemplos e ideias soltas.

Há uma variedade imensa na quantidade, tipo e causas para os erros que os alunos cometem. Em Matemática, se não fosse às vezes triste... poderíamos sorrir com as variantes. Então, qual o interesse de ir ao quadro fazer a correção de um teste de forma distante, que parece servir a todos e não serve verdadeiramente a nenhum, que pouco lhes devolve de essencial e aborrece de morte os que têm tudo certo e são obrigados a copiar todas as respostas?

Os alunos podem e devem ser confrontados diretamente com os erros cometidos (chamo-lhes as consultas “médicas”). Nesses momentos ganhamos um conhecimento privilegiado sobre eles (erros e alunos). Se não individualmente, pelo menos em pequenos grupos. São momentos de crescimento para nós, também. Perceber a lógica de um erro novo que nunca observámos é ter a possibilidade de ajustar a forma como determinado conteúdo pode ser abordado de forma a evitar a confusão. Como? Se possível, criar um tempo de diálogo exterior à aula (como Estudo Acompanhado, um clube de apoio – aproveito frequentemente esse tempo de qualidade com eles para aprofundar a relação e o conhecimento das pessoas que todos são). Se não... então organizar o diálogo/correção em grupos autónomos, dispensando os alunos que não cometeram erros significativos (sempre que sinta que é mais vantajoso para estes organizarem autonomamente o trabalho que irão fazer na aula). Não é tão rico, mas é preferível à massa anónima da aula dirigida como orquestra em que todos tocam o mesmo instrumento.

E é sempre especial quando estes ritmos se interiorizam na vida da turma, chegar aos grupos dispensados da correção e ler os seus sumários. Ontem dois alunos escreveram: «Início do estudo da razão e proporção» (avançaram sozinhos pela unidade, com raros pedidos de auxílio, resolveram exercícios e encantaram-se com as descobertas e com a responsabilidade que lhes é atribuída). Outras três alunas registaram «Exercícios de consolidação: estatística – moda e média. Esclarecimento de dúvidas». Os restantes corrigiram a ficha de avaliação, havendo alguns alunos nos grupos com maior responsabilidade no apoio a colegas, enquanto eu circulava e procurava ajustar o trabalho às necessidades de cada um.
Há momentos comuns, claro. Muitos. Há pontos de situação. Não acertamos à primeira com os grupos de trabalho e não é sequer desejável que se mantenham estáticos (frequentemente funcionam em toda a turma, com atividades diferenciadas e níveis de acompanhamento e supervisão distintos, ou em grupos mistos onde quem domina melhor puxa por quem precisa – alterna-se o trabalho por nível com o trabalho em turma não diferenciado). Alguns alunos gostam de trabalhar autonomamente num dia e sentir-se protegidos e mimados noutro. Alguns gostam de ajudar, outros nem tanto. Aceito as flutuações com naturalidade. Os TPC são marcados muitas vezes pelo grupo de trabalho. A diversidade é grande e o controlo descentralizado. Ontem o J. (cujo comportamento e aproveitamento haviam descido do ano passado para este, mas agora regressou, em fase de teste, a um grupo autónomo de desenvolvimento) avisou-me que me irá ser entregue uma tabela com o relatório das atividades dos alunos do seu grupo (TPC e trabalho na aula). À partida não o exijo. Peço um balanço oral ou uma indicação de qual será o plano da aula e se foi cumprido. Escrevem o seu próprio sumário. Mas aproveitei a deixa e o J. explicou à turma o que iam fazer. Pedi a todos que cada grupo o fizesse à sua maneira, sem formatação prévia ou fichas criadas para o efeito. Estou cansada do frenesim de formulários que invadiu o tempo da escola.

Corro pela sala o tempo todo. Ou simplesmente trabalho com o resto da turma, enquanto alguns grupos autónomos fazem um suave zumbido de fundo, alheios a mim. Saio cansada, mas satisfeita. É no colo deles que tudo faz sentido, porque do lado de fora há muito que se vai perdendo esse espaço de crescer, de autonomia, confiança e respeito que todos, professores e alunos, merecemos.




* EB 2,3 de Azeitão e CCTIC – ESE/IPS: http://projectos.ese.ips.pt/cctic/ e  http://eduscratch.dgidc.min-edu.pt/

 



publicado por Correio da Educação às 10:53
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9 comentários:
De Hugo Correia a 20 de Abril de 2011 às 08:46
Acho importante(mas quem sou eu) que os alunos(as) com maiores dificuldades de aprendizagem, seja por distracção, por timidez, auto-estima baixa ou outras razões, não se sintam demasiado pressionados. Há esta gestão e necessidade de equilíbrio das diferenças que é preciso atingir e acredito que o esforço da Teresa vai nesse sentido. Envolver os menos interessados para um patamar de quase igualdade com os restantes, pelo menos na dedicação e na vontade de aprender e fazer melhor.
Vejo pela imagem que a lição nº100 foi alcançada. Sem querer contribuir para uma moda discutível, no meu tempo, há uns 20 anos, quando se atingia essa meta a aula era substituída por momento de festa e uma doce merenda. Continuação de um bom trabalho.


De Teresa Marques a 13 de Maio de 2011 às 19:32
Muito obrigada, Hugo, pelas palavras gentis. Faz-se o esforço, e alguns resultados aparecem...
Temos as festividades marcadas para o fim... Eles sabiam que o tempo era pouco, a tensão muita... Esta moda das provas de aferição no início do 3.º P ... concentram muita aflição nos dois primeiros períodos...


De xiaocai x9+ a 9 de Junho de 2014 às 11:48
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De IC a 22 de Abril de 2011 às 06:44
Correio da Educação!!! :))) Vim agora pelo Terrear. Mas onde ando eu, que não sabia???? (Desde que o JM foi substituído, claro)
Teresa, adoro este teu post. Sem pretender ter sido a prof que és, mas também sem falsa modéstia... penso muitas vezes que saí, mas que tu me substituis. "Corro pela sala o tempo todo. Ou simplesmente trabalho com o resto da turma, enquanto alguns grupos autónomos fazem um suave zumbido de fundo, alheios a mim" Foi por isso que quatro estagiárias que me tiveram, não como orientadora, mas apenas como prof. cooperante, a 1ª coisa que me disseram à porta da 1ª aula a que acabavam de assistir, que eu devia sair extenuada... Olhei para elas verdadeira/ admirada, pois a sala de aula era pequena, nunca me passara pela cabeça que me dissessem isso tão admiradas. E, se deixo aqui este comentário, não é para falar de mim, mas para dizer que toda a vida defendi que a elevação do sucesso escolar em Mat passava pelo método, passava pelo trabalho activo dos alunos, pela cooperação, pelo NÃO professor a explicar, a explicar no quadro, etc. Na minha geração bastantes defenderam isso, mas, infelizmente, com pouco sucesso. Que tu e os que não dizem apenas que "isso é excelente" e, a seguir, "ai, isso gera muita indisciplina", mas sim, praticam, descobrem o "segredo", saiem de facto cansados da aula, às vezes momentaneamente exautos, mas ficam admirados com aquele comentário que me fizeram as estagiárias, porque a satisfação de parar um momento para olhar a turma com grupos esquecidos da nossa presença e, ao mesmo tempo, montes de braços levantados a fazerem-nos andar num virote, essa satisfação e, sobretudo, a de os ver progredir a sério, fazem-nos ficar espantados por aquele comentário ser o único que da primeira vez ocorre a quem (por obrigação) assiste a uma aula dessas - que tu e os que praticam assim, dizia eu já lá acima, tenham bem mais sucesso na defesa do método do que tiveram os idênticos da minha geração! Aposentados, ficaríamos mais felizes. Ficaremos... Consigam isso!!!


De Teresa Marques a 13 de Maio de 2011 às 19:34
Querida Isabel... só um imenso sorriso... :)) E um muito obrigada!


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