20-05

* Teresa Martinho Marques

 

 

Ela aproximou-se de mim no final da aula e disse: "De tudo o que andamos agora a fazer nas aulas quando resolvemos problemas, o que mais me tem ajudado é aquela coisa da professora estar sempre a dizer e a mostrar que temos de usar a nossa inteligência natural para os resolver! Já estou melhor a resolvê-los e já nem tenho tanto medo!”

Há uns anos li um livro de John Holt que marcou indelevelmente o meu caminho (How children fail – Dificuldades de aprendizagem, Ed. Presença). Entre muitas coisas escritas nos anos 60, mas com preocupaçãoes tão atuais como as de hoje, uma história prendeu-me. Essa história foi, por sua vez, retirada por John de um outro livro (James Herndon – How to survive in your native land) e estava num capítulo intitulado “A turma burra”. Esse capítulo dizia respeito a uma turma, que James lecionava, constituída por crianças do 1.º Ciclo incapazes de aprender e, sobretudo, a um rapaz que parecia ser o mais burro da turma burra. Era descrito como absolutamente irrecuperável e incapaz para qualquer trabalho escolar. Um dia, James encontrou-o numa pista de bowling anotando os resultados oficiais em torneios exigentes. Apontava as sobras, os plenos e havia sido contratado por trabalhar rapidamente e com precisão. Ninguém toleraria erros nesses torneios e ele não os cometia. Então James decidiu propor-lhe, na escola, alguns problemas sobre bowling... e ele não foi capaz de os resolver! As respostas, mais do que erradas, eram completamente absurdas.


Ao longo dos meus muitos anos de ensino não foram raras as vezes em que senti muitas crianças dentro da sala de aula completamente afastadas da realidade e da sua inteligência natural (aquela que usam no mundo fora da escola) quando resolviam problemas simples. Que idade tem a menina? 95 anos... Quantos meninos foram no autocarro? 18,25... Quanto aumentou a menina de peso dos 10 para os 11 anos? 380 kg... Tudo é respondido com naturalidade, vira-se costas depois de responder, não se pensa mais nisso. Acreditamos que, pelo simples facto de colocarmos “coisas reais” nos problemas matemáticos, tudo se torna mais próximo do real e da vida. Não é assim e tudo isto merece(ria) um olhar profundo e atento. Que efeito tem este corropio na escola, que parece estar tão distante da vida mesmo quando fingimos que é da vida que falamos? Quando lhes conto estas histórias de respostas absurdas (faço-o nas aulas como estratégia) eles riem-se e são capazes de identificar o erro. Avaliam sem qualquer problema a razoabilidade de um resultado se não se sentirem ameaçados por esse problema. Mas, curiosamente, ao resolverem um problema parecido... distanciam-se dessa sua já provada competência e cometem os mesmos erros de que se riram antes.

Muito antes de apelar para os caminhos e soluções matemáticas, encaminho as crianças para a confiança no seu julgamento, na sua inteligência natural. Muitas reagem positivamente e os efeitos são visíveis. É preciso resolver muitos problemas de todos os tipos e feitios (podem – e devem – nem sequer estar próximos do real, porque a abstração tem um papel muito importante no seu desenvolvimento) e levá-los a pensar em voz alta sobre eles. Matar a vergonha, o medo de se exporem, levá-los a virarem-se do avesso com gosto, tornando os cérebros transparentes e capazes de mostrar a forma como pensam, é fundamental e a recompensa é imensa. Mais do que encontrar respostas rápidas e precipitadas para se verem livres do “bicho” sem dor, ou engolirem o óleo de fígado de bacalhau de nariz tapado e olhos fechados, passam gradualmente de “a resposta é” para “eu faria assim e assim e depois assim e então calculava... e depois ia verificar se tinha razão com uma conta ou medição ou se tinha lógica!”

Quando, numa universidade, olhamos para vários exames de alunos (mais de 50% numa turma) onde é solicitado que determinem graficamente (desenhando) um ângulo cuja medida da amplitude é, nesse desenho, visivelmente inferior a 20º e, depois, o têm de fazer analiticamente (recorrendo a cálculos) obtendo valores próximos dos 90º e assumindo, sem crítica, essa resposta como válida (mesmo tendo a possibilidade de comparar o ângulo desenhado com os valores obtidos)... sabemos que algo de (muito) grave se passa.

Por onde começar? Confiar nas crianças e jovens, levá-los a confiar em si, apoiá-los e ajudá-los a (re)encontrar a inteligência natural que parece desaparecer, como que por triste magia, no território distante, isolado, quantas vezes estéril e insondável, a que chamamos escola.

 

* EB 2,3 de Azeitão e CCTIC – ESE/IPS: http://projectos.ese.ips.pt/cctic/ e  http://eduscratch.dgidc.min-edu.pt/



publicado por Correio da Educação às 16:15
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2 comentários:
De Tomás Martins a 22 de Maio de 2011 às 14:59
Estou de acordo com o artigo. No decurso da minha actividade docente também constatei (desde muito cedo) a necessidade de se contrariarem esses medos inconscientes dos alunos em se exporem e deixarem as suas inteligências e habilidades desabrocharem. Quando nós mudamos um pouco a "abordagem tradicional", os alunos têm tendência a alterar os seus comportamentos e a sua prestação. Passam a fazer as coisas de forma diferente e a mostrar capacidades ocultadas. Na minha opinião, antes de mais, importa mudar a escola e os professores e essa é uma tarefa muito difícil (mas nada impossível). Se o conseguirmos, os alunos também mudam... Naturalmente! :-)


De Teresa M Marques a 22 de Maio de 2011 às 20:03
Tomás, obrigada pelo interesse e pelo comentário. Sinto o mesmo... linha a linha. E dizes com razão: difícil mas não impossível. Daí a importância destas reflexões e partilhas que podem tocar outros ou fazer-nos pensar de outros pontos de vista...


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