15-10

1. Na imprensa diária dos dias 9 e 10 de Julho fez-se eco da avaliação externa do Programa Novas Oportunidades, levada a cabo por uma equipa da Universidade Católica, liderada pelo antigo ministro da Educação, Roberto Carneiro.

Os maiores problemas identificados foram: demasiado tempo de espera, horários difíceis de compatibilizar com a vida pessoal e pouco impacto a nível profissional dos formandos. Apesar de tudo o Coordenador do estudo faz um balanço positivo das Novas Oportunidades.  

“As pessoas que estão certificadas sentem que não houve grandes avanços na carreira, na remuneração, nas oportunidades de emprego, como porventura teriam legítima esperança de ter antes de terem feito a certificação”, disse Roberto Carneiro, que acredita que um dos problemas é os gestores e empresários da maioria das empresas portuguesas serem eles próprios pouco qualificados. “Talvez fizesse falta uma Iniciativa Novas Oportunidades para as chefias das nossas micro e pequenas e médias empresas”, defendeu (Público, on line, 09.07.2009).

Também revistas e jornais, ligados à educação, começam a reflectir sobre este projecto ambicioso no qual o governo aposta fortemente desde 2006.

 

2. O ponto de partida é muito claro, real e ninguém mesmo o questionará. Assim descrito na plataforma governamental sobre a Iniciativa Novas Oportunidades:

“O atraso que nos separa dos países mais desenvolvidos radica, em grande medida, no insuficiente nível de qualificação da população portuguesa. […] A solidez do processo de modernização do país depende essencialmente de vencermos a batalha da qualificação. […]

Temos de fazer mais, temos de fazer melhor e temos de fazer mais rápido. Precisamos de acelerar fortemente a qualificação dos portugueses, tendo em vista a convergência com os países mais desenvolvidos. Precisamos de objectivos ambiciosos e de uma estratégia clara. E precisamos de acção firme, persistente e determinada.” (http://www.novasoportunidades.gov.pt/NovasOportunidades.aspx).

Não é a primeira vez que vemos governos do país serem tomados pelo voluntarismo, relativamente à qualificação. Nos anos cinquenta do século passado, registamos a oportunidade dada à população de aceder à terceira classe, como forma de valorização pessoal e de diminuir o fosso estatístico de analfabetismo entre Portugal e o resto da Europa.

 

O mesmo se passou com o exame ad hoc para a entrada na Universidade, na década de setenta, ainda antes do 25 de Abril de 74, para elevar a média dos que acediam ao ensino superior. Ainda hoje se mantém esta estratégia e com grandes resultados, tendo-se tornado num balão de oxigénio no financiamento de alguns estabelecimentos de ensino superior.

O que havia de comum entre estas duas realidades, capaz de vir a ser objecto de comparação com a Iniciativa Novas Oportunidades é o facto de os alunos se autoproporem a uma avaliação legitimada e legitimante: um exame numa Escola oficial, Primária ou Universitária.

Este carácter autoproposto era, aliás, frequente no final de qualquer um dos ciclos do liceu (2º, 5º ou 7º anos). Figuras ilustres como Miguel Torga, melhor, o jovem Adolfo Rocha, se autopropuseram a esses exames liceais antes de entrarem na Universidade.

Viria a propósito lembrar, ainda, que durante grande parte dos séculos XIX e XX, os alunos dos Colégios (desde os renomeados jesuítas até aos municipais) se viam obrigados a autoproporem-se a exame nos liceus nacionais. Isto é, não existia o paralelismo pedagógico que hoje se verifica, nem o elevado número de escolas oficiais por todo o lado.

 

3. Ora uma das limitações que parecem envolver a Iniciativa Novas Oportunidades, é a do reconhecimento ou do poder legitimante da sua existência quando comparadas com as outras formas de qualificação.

Desde logo se poderá perguntar: essa qualificação é escolar / académica ou é profissional / exterior à escola? Ou seja, é obtida / concedida por que instituição? E qual a natureza e reconhecimento social, escolar e governamental desta?

Uma instância de avaliação, escolar e academicamente, credível e reconhecida colocaria a iniciativa a coberto de críticas de facilitismo, por certo, infundadas, na lógica da sua concepção e realização. Era isso que acontecia com aquelas formas de qualificação / aprendizagem que os diferentes tipos de alunos tinham depois de superada tal avaliação, ao regressarem à sociedade.

Fosse perante um profissional, possível colega, fosse perante um empregador, fosse perante um grau de ensino de nível superior: esses cidadãos possuíam um diploma reconhecido e apresentavam-se investidos do mesmo valor simbólico que os alunos regulares dessas escolas (primárias e liceus) ou os profissionais que, por elas, haviam passado na infância ou juventude.

 J. Esteves Rei - Professor Catedrático de Didáctica das Línguas e de Comunicação, na UTAD, Vila Real.



publicado por Correio da Educação às 19:00
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1 comentário:
De replica omega a 27 de Setembro de 2016 às 03:31
Fosse perante um profissional, possível colega, fosse perante um empregador, fosse perante um grau de ensino de nível superior: esses cidadãos possuíam um diploma reconhecido e apresentavam-se investidos do mesmo valor simbólico que os alunos regulares dessas escolas (primárias e liceus) ou os profissionais que, por elas, haviam passado na infância ou juventude.


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