29-06

* Inês Silva

 

Tem-se vindo a assistir, desde o início do século XXI, ao fim das humanidades em Portugal. Cada vez menos os alunos escolhem esta área de estudos no ensino secundário. Cada vez menos pretendem tirar uma licenciatura em línguas e literaturas ou em linguística, ou ainda em história ou filosofia. E cada vez menos se interessam pela “cultura” associada à sua língua, literatura, vivências do passado…


Também em certas licenciaturas, como Educação Básica, os docentes confrontam-se com a dificuldade crescente dos estudantes (futuros educadores e professores) em acompanhar os programas de unidades curriculares como cultura portuguesa, literaturas lusófonas, linguística, história.  


A que se deve este desinvestimento e este desinteresse (quase repúdio) pelas humanidades?

Em primeiro lugar, pelas várias ideias estereotipadas que se foram criando (e confirmando, de certa forma) de que as humanidades, por si só, não dão emprego a ninguém. Em segundo lugar, pelo sentimento de «perda de tempo» no trabalho gasto com um romance, um ensaio, uma antologia de poemas, um achado arqueológico, um facto linguístico, uma forma diferente de ver o mundo. Finalmente, pelo enorme prestígio social que certas profissões hoje em dia têm, como a de médico (porque escasseiam) ou a de gestor de uma multinacional (porque ganham muito), que contrastam, e bastante, com a de historiador ou a de professor, por exemplo.


Posto isso, percebe-se que a sociedade vá matando as humanidades. Deixou de lhes dar importância, ao não exigir dos que educa, desde o básico, um trabalho de “corpo a corpo” com certos textos de referência sociocultural e literária, considerados “muito difíceis”, “muito puxados”, “muito estranhos” à geração da Playstation e dos Morangos com Açúcar. E aceitou passivamente que a roda económica chamada euro, uma espécie de pesa-papéis calcador das humanidades, marcasse a velocidade da existência.


Postas as humanidades nas prateleiras das bibliotecas mais antigas, dá-se o início inevitável de uma crise humanitária. Sem a leitura, sem a reflexão, sem o pensamento associado ao que fomos, para onde vamos, quem somos, o que queremos, o que é a paz, a guerra, o amor, a vontade, a esperança… transformamo-nos em autómatos. Isto é, desprezando o conhecimento histórico, filosófico, literário, social, o homem deixa de ser criativo, deixa de ser empreendedor, deixa de querer ser independente do Estado, deixa de ser solidário, deixa de conhecer o mundo onde vive, deixa de pensar, deixa de ser competente a ler o que os outros escrevem, a ouvir o que os outros lhe dizem, a escrever as suas opiniões…
Deixa de se amar a si, deixa de amar os outros… deixa de ser homem.

 

* Inês Silva - Doutora em Linguística (Sociolinguística). Professora Adjunta convidada na Escola Superior de Educação de Santarém. Tem realizado estudos sobre a escrita dos alunos. É autora de várias publicações de caráter didático e de caráter linguístico. Na ficção, publicou o romance: A Casa das Heras.



publicado por Correio da Educação às 15:28
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17 comentários:
De Jorge H. Moniz Ribeiro a 5 de Julho de 2011 às 00:48
Parabéns senhora Doutora!
Já há muito que a este, já velho, Mestre em Linguística e também em Literaturas lhe apetece dizer algo de parecido com o que escreveu.
Desde o 25 de Abril que todos os Governos fizeram o contrário do que se fazia no tempo "da outra senhora": foi desfazendo a Nação, o sentimento de Pátria, foi desfigurando os programas de História de Portugal e mesmo os de Português (que são uma "fantochada" agora). Fazia-nos falta uma nova Restauração da Monarquia, para começar. Faz-nos falta sentirmo-nos um Povo filhos da mesma Pátria (ou Mátria, como preferir...)
Oxalá o novo Ministro da Educação possa encontrar em si, senhora Doutora, a porta para o reencontro com o passado sem deixar de pensar no futuro. Bem haja!


De Anónimo a 11 de Janeiro de 2013 às 02:10
É graças a pessoas antiquadas como você que o país está no estado em que está. Senhora Doutora? Estamos no século XXI, deixe-se de tais formalidades ridículas. Eu próprio sou doutorado em medicina e acho ridículo tratarem-me por senhor doutor.


De fernandosimoesalberto a 11 de Janeiro de 2013 às 17:56
Comentários de Anónimos seriam mesmo de desprezar, mas o anonimato deste Anónimo de 11 de janeiro e a sua ignorância dão vontade de (desculpem o termo) vomitar.
E saberá ele o que é ser doutorado? Com doutoramento ou só com licenciatura, já que lhe chamariam Dr.? (mas não deixaria de ser apenas licenciado).
O que é para ele ser antiquado? Antiquado está a ser este Governo que quer devolver-nos ao antes do 25 de abril.
(segundo o Acordo Ortográfico, que parece estar em vigor)


De Acer rom drives a 22 de Julho de 2013 às 07:09
Now many people while trampling on the humanities, while saying to protect human, huh, protecting human begins with education, start from the child


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De Gonçalo Cândido a 5 de Julho de 2011 às 10:42
Doutora Inês Silva,

Concordo em pleno com o seu artigo de opinião. Creio que a crise das Humanidades até surja anterior ao século XXI. O artigo reflecte receios, angústias e intuições que nós professores, não excluo os docentes de outras áreas, têm sentido ao longo destas três décadas.
Depois de colocar o dedo na ferida ... resta-nos criar soluções - O Que Fazer?
Enquanto professores das humanidades há possibilidade em escolher livros de leitura que problematizem a natureza humana vs. tecnologia; ...Enfim temos que pensar e aplicar ideias e práticas que humanizem a sala de aula...Criar momentos de silêncio, ... Não me quero alongar. Apenas acredito que a Literatura será a salvação - Teremos que ir ao encontro de textos que revelem a singularidade de ser humano. Começar com poesia - logo no primeiro ciclo e pôr os alunos a decorar versos para que mais tarde essa musicalidade crie raízes para desenvolver olhares críticos através da palavra. Talvez dar alargar a definição de lucro face àquela que temos agora, que é limitada à Moeda.

Parabéns pelo o artigo,

Professor de Inglês,
Gonçalo Nuno Cândido


De ekipa a 5 de Julho de 2011 às 11:59
Como professor de História, tenho vindo a alertar os alunos para que, na hora da escolha da área de estudos, o façam de forma consciente e tendo em atenção os seus gostos e aptidões. Muitas vezes, constato que optam pelas ciências e tecnologias porque o amigo, ou a namorada, também vão, ou porque socialmente são melhor aceites. Interpares , é preferível ser aluno sofrível a C. e Tecnologias que bom aluno a Humanidades -«Isso é para burros» -comentam eles. Esta mentalidade existe em todo o lado e é isso que tem de ser alterado. Parece-me que ainda não vai ser com este Ministro da Educação, que já disse querer exames no 3º ciclo a Ciências e Inglês, esquecendo a História e a Geografia, talvez condenadas ao desaparecimento ou à comparação com Educação Visual, ...para excêntricos. Os políticos sabem que o verdadeiro julgamento vem com a História, daí ser melhor esconde-la.


De Paulo Fonseca a 11 de Julho de 2011 às 13:34
Exma Prof. Doutoura Inês Silva

Parabéns pelo seu texto. Espero que ele chegue aos responsáveis do Ministério da Educação e aos "fazedores" de opinião. Era bom que as Humanidades voltassem a ter mais importância em todas as áreas do Ensino Secundário, a bem de uma sociedade mais culta.

Paulo Fonseca


De Manuel a 13 de Agosto de 2011 às 19:19
Não creio que se possa dissociar a crise das humanidades de outros factores, como seja a não valorização do que se chama «cultura clássica» ou «geral», na sociedade portuguesa, a começar pela brutal empresa de estupidificação que se desenvolve há décadas nas nossas televisões!
No nosso ensino, nota-se que as pessoas com interesses, aptidões e competências literárias também são as que possuem melhores resultados nas ciências exactas e naturais! Ora, acontece que um/a aluno/a pode ser (apenas) bom nas disciplinas científicas e excelente nas humanísticas (caso não muito raro); porém, irá escolher um percurso universitário científico!
Isto deve-se também a uma visão demasiado redutora da cultura e mesmo míope. Basta ver que nos países mais avançados têm muita necessidade de formações humanísticas e existem numerosos «nichos» de emprego que se abriram nos últimos anos. Também é geral o reconhecimento da importância dos estudos humanísticos para uma verdadeira excelência em formações científicas.


De Uncertainty a 4 de Novembro de 2011 às 22:44
É na ci~encia que está a força motriz para o desenvolvimento da sociedade. O mundo não para á nossa volta por estarmos a ler um texto filosófico ou tentyar desvendar a metafísica das coisas. Tudo é ciência, tudo a física explica. Nada se perde por descartarmos as Humanidades de vez, pois um cientista pode ser filósofo e agir moral e eticamente, mas um filósofo ou um poeta não pode ser um cientista.

Como disse uma senhor uma vez: "Os poetas dizem que a ciência tira a beleza das coisas, transformam coisas belas como as estrelas em meras bolas de gás; eu também me maravilho com as estrelas do céu noturno e a sua beleza, então quem vê mais?"


De Maria a 9 de Outubro de 2012 às 17:35
Que tristeza de pensamento!! A ele se deve certamente pouco tempo de leitura e reflexão. Só assim é compreensível tamanha ignorância.


De replique montres a 2 de Dezembro de 2013 às 15:49
Só para dizer que concordo e que há saídas. Só é mito quando não se age de forma consistente e sistémica.


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