12-10

 

 

 

 

* Teresa Martinho Marques

 


Abro a televisão e lá está a psicóloga a falar dos casais desavindos (e muitas vezes divorciados) por causa do Facebook. E são tantos e pelas mais diversas razões... «Está a ver... algumas mulheres não gostam que os seus companheiros façam like em meninas de biquini... Ou que as adicionem como amigas... E não querem que os companheiros/as fiquem tanto tempo de volta do computador em vez de prestarem atenção à família...» E que antes a culpa já foi também muito das salas de chat... e continua a ser dos sms do telemóvel e de toda essa parafernália de tecnologias do demo que chegou apenas para destruir as pobres famílias e afastar as pessoas umas das outras. Antes de tudo isto, penso eu à luz do que escuto, nunca ninguém se desamava, se traía, se afastava como agora. Saudades de uma caverna à luz da lareira.

 

Depois olho para o outro lado das coisas e relembro a quantidade de gente especial que conheci, primeiro virtualmente e depois no real, muitos transformados em amigos mais preciosos do que os que escolhi de forma convencional. Aqueles com quem aprendo imenso todos os dias e hão de continuar no virtual porque estão longe. Aqueles que se tornaram parceiros de projetos educativos. Aqueles que revi depois de muitos anos sem saber deles e a família cada vez mais próxima mais depressa, porque longe e espalhada pelo mundo.

Nunca molestei ninguém com um garfo ou com um lápis afiado. Mas se o tivesse feito, estaria de consciência tranquila: a culpa era ou do garfo, ou da faca. Ou do cigarro, ou da fast food, ou dos bancos que me obrigaram a contrair empréstimos que eu não podia pagar, ou dos stands de automóveis que me fizeram levar para casa o topo de gama em vez do utilitário ao meu alcance, ou do menino que não estuda, ou da família que não educa, ou do professor que é mau.

Andamos esquecidos que o mundo é feito de pessoas mais ou menos (im)perfeitas, com mais ou menos juízo e bom senso, mais felizes ou menos felizes. Nem é mais seguro ou menos seguro namorar o amigo do amigo que se conheceu num bar ou numa festa, do que alguém que não se conhecia e se conheceu no virtual. A violência doméstica, as violações, os raptos não nasceram com os encontros virtuais. Nem as guerras são piores ou melhores antes ou agora.

Nem a educação muda para melhor, ou para pior, por causa das tecnologias ou do apontar de culpas.
A culpa é sempre do cérebro, do coração, da carne e da pele que nos dão forma, das decisões que tomamos com o que a vida coloca no nosso caminho. E a estrada somos nós que a fazemos... caminhando. Colhemos o que escolhemos.

Gosto de acreditar que sou responsável pelos meus gestos, para o melhor e para o pior. Gosto de passar esse testemunho aos meus alunos.
A culpa é sempre nossa de uma forma ou de outra, quer queiram quer não queiram... e o resto é conversa!



* EB 2,3 de Azeitão e CCTIC – ESE/IPS: http://projectos.ese.ips.pt/cctic/ e http://eduscratch.dgidc.min-edu.pt/



publicado por Correio da Educação às 17:40
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17 comentários:
De Anónimo a 17 de Outubro de 2011 às 17:40
está enganada. a culpa não é a questão aqui.
e se fosse uma questão de culpa, não seria apenas, como superficialmente e ignorantemente quer fazer crer, das desavenças entre casais.
a questão é que entre as pessoas informadas, não pelo facebook, mas por outros meios mais fidedignos de informação como o são estudos e pesquisas, já se percebeu para que serve o facebook.
aqueles que não perceberam, isso sim, muito catolicamente procuram encontrar culpas para os males do mundo
que incluem, além dos males que referiu, outros mais sérios, como a pedofilia, o tráfico de mulheres, o terrorismo, etc
culpas? para quê preocupar-se tanto com elas? só mesmo a gente irresponsável que não vê mais longe do que o seu próprio umbigo e (não) pensa que os outros, especialmente os mais novos, especialmente os alunos, muitos, inúmeros, que não tiveram as mesmas oportunidades de desenvolver o chamado "bom senso", porque têm um computador e uma ligação à net mas não têm quem os eduque ( nem pais nem, pelo que se vê, professores) em muitas coisas que os ajudem a desenvolver o tal bom senso , muitas vezes caem nos perigos da internet, e perdem aí a inocência, é que se preocupam com encontrar culpas.
Se um qualquer exercício de raciocínio sobre o facebook tivesse interesse, seria apenas para tentar compreender as causas do fascínio recente e as consequências deste fascínio a curto e longo prazo para quem se deixa fascinar.
tudo o resto, incluindo este texto de opinião, é puro lixo pseudo-intelectual


De Teresa Marques a 17 de Outubro de 2011 às 23:35
Respeito os comentários alheios, mesmo quando são agressivos e não identificados.
Felizmente nem os meus Alunos nem os seus Pais pensam assim... e se tivesse tirado um bocadinho do seu tempo para perceber o que faço na minha ação enquanto professora (e uma delas é frequentemente ajudar os Alunos a navegar nestes universos novos e ensiná-los a proteger-se, quando as famílias não conseguem, pelas mais variadas razões) talvez não se tivesse precipitado em agredir-me, e ao que escrevi, de forma tão excessiva. A metáfora da culpa para reforçar a importância da responsabilização foi intencional... Em vez de culpar as famílias, ou as ferramentas tecnológicas, procuro manter-me informada e ajudar os alunos, assumindo que também tenho essa responsabilidade enquanto docente. E dou a cara pelo que faço ou digo, desde sempre, e nunca, em tantos anos de entrega ao ensino, alguém me agrediu como hoje... e anonimamente. O que também nos diz algo sobre os excessos que a internet permite e os juízos apressados que podem ser feitos sem conhecermos as pessoas a quem dedicamos as palavras que me dedicou. Nunca comentei alheias palavras anonimamente, mesmo quando tive de expressar com veemência a minha opinião. Obviamente não culpo a internet por isso... nem o culpo a si. Provavelmente algo nas minhas palavras o provocou, embora não fosse essa a intenção das minhas palavras. Lamento que tenha sido apenas isso que leu e viu em mim neste breve texto. Se tiver paciência, tente ir um pouco mais longe e conhecer um pouco do que faço. Talvez mude um pouco o juízo que acabou de fazer... e passe a acreditar que não sou uma pessoa irresponsável.


De hongmi 1s a 9 de Junho de 2014 às 11:49
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De Vasco Nunes a 17 de Outubro de 2011 às 23:46
Ser ou não ser, eis a questão! Qual é a questão? O facebook não é fidedigno e as outras vias são? Basta vestir a roupagem apropriada para ser o que se pode não ser? Os que estão apenas informados pelo facebook não percebem para que serve o mesmo? Mais de 500 milhões de pessoas estão enganadas? Como devem estar indignados! "Os indignados do facebook". Porque, os tais outros, com acesso à verdade pelo únicos meios inquestionáveis não têm dúvidas. Têm certezas. Quem não tem dúvidas corre o risco de estar enganado. É mais fácil defendermos a nossa posição a partir de uma qualquer contrária do que perceber os fundamentos de cada uma delas. A culpa é do(a)…


De Anónimo a 18 de Outubro de 2011 às 11:53
Eu acho que, realmente, o que a autora quer apontar, falando de "culpas", é que antes de haver tecnologia já existiam desgraças no mundo, a pedofilia vem a par com as "profissões" mais antigas que se conhecem, etc. Ela até é bastante abrangente. Não se limita às culpas ou aos casais desavindos. Aponta para cada um de nós como responsáveis pelo próprio caminho (o que, catolicamente, não acontece, é sempre culpa de um ser maior que nós!!) Há que saber ler nas entrelinhas :-)


De Teresa Marques a 19 de Outubro de 2011 às 11:52
... e, muito tristemente, as estatísticas confirmam que, por exemplo, a percentagem de abusos a crianças (poderíamos também falar na violência contra as mulheres) se centra muito mais no meio familiar ou em meios próximos do que propriamente no exterior... embora mediaticamente... acabemos por ter mais informação sobre os casos-exeção relacionados ou não com as tecnologias. Enfim... Obrigada por ter lido nas entrelinhas o essencial: a importância de olhar para nós, antes de olhar para os outros com o dedo apontado... seja qual for o contexto. Algo que se traduz na conhecida frase: se não somos parte da solução, então a probabilidade de sermos parte do problema é imensa...


De Anónimo a 5 de Janeiro de 2012 às 11:48
Muito interessante o seu comentário, especialmente o penúltimo parágrafo! obg.


De JOHN a 18 de Outubro de 2011 às 00:14
Isto não é questão de culpa mas sim de valores sociais e absolutos que as pessoas já não têm e tentam então despejar a suas frustrações nas redes sociais, mas o problema é o que é virtual torna-se real e depois volta como um boomerang e dá-lhes nos cornos que entretanto já criaram com o tempo on-line!


De SRC a 18 de Outubro de 2011 às 08:50
Compreendo tudo o que diz e concordo plenamente consigo! Também sou professora e amiga de muitos dos meus alunos em redes sociais na internet. Tento mostrar-lhes os perigos e muitos se envergonham quando percebem que é a mesma coisa que andar na rua...

Não me parece tratar-se de uma questão de culpa, mas sim de consciência! Os nossos alunos não têm consciência dos perigos das redes, embora alguns tenham consciência dos perigos das redes sociais REAIS! Reais por não estarem no computador, porque as da internet também são reais! Os amigos dos amigos e os amigos dos pais também são perigosos...

É que redes sociais não são só virtuais e já são muito antigas, por isso a "culpa" (se é que podemos dizer assim) é das pessoas. O Facebook não obriga nenhum homem de meia idade a ver meninas em bikini sabendo que a sua esposa, quando acabar de fazer o jantar, vai reparar que era isso que o seu marido estava a fazer, porque também é amiga dele no Facebook! Se calhar também só se aperceberia de uma situação semelhante no verão seguinte na praia, ou talvez na praia o marido seja mais discreto. O Facebook está é na sala de estar no portátil ou no telemóvel.

Por este tipo de situações digo tratar-se de uma questão de consciência e de boas e más pessoas, só que estas últimas não são recentes como a internet. Já há mais consciência sobre gente ruim e ignorante hoje em dia.

Claro que para se saber isso, para se ser consciente dos perigos e benefícios, não é preciso ler um estudo fidedigno, basta viver a sociedade atual em todas as suas potencialidades e progredir com ela, para não se ficar na ignorância.

Parabéns pelo seu trabalho.


De Teresa Marques a 19 de Outubro de 2011 às 11:54
Muito obrigada... Tem toda a razão...


De Agostinho Silva a 18 de Outubro de 2011 às 11:54
Cara Teresa Marques,
TIRO-LHE O CHAPÉU!
Não apenas teve a coragem de ir ao cerne da questão, como o fez bem mas sem aprofundar, para não ferir quem quer que fosse.
Muita gente na nossa sociedade (que muitos estrangeiros consideram idiotas, cobardes e preguiçosos), apenas sabe acusar e destruir. Nunca assume as suas responsabilidades. É mais cómodo e fácil assim, pois dessa forma podem continuar a fazê-lo indefinidamente.
[Poderei usar algumas palavras menos bonitas, mas não fui eu quem as criou. Quem as criou fê-lo para que fossem usadas, não é verdade? Por isso, se não as uso quando são necessárias, então quando o farei? Eu não sou cínico nem hipócrita e assumo todas as minhas responsabilidades (os meus ex-alunos e formandos são testemunhas). Por isso prefiro dizê-lo aqui, abertamente, em vez de o dizer nas costas dos outros, ou ao abrigo da “anonimicidade”. O meu nome e o meu email são reais.]
Essas pessoas, quanto têm 10, queixam-se que alguém tem 100. Querem mais. Se têm 100, querem 200. E se não conseguem ter mais, então destroem quem tem. Assim sentem-se melhor. Estão no topo. E no topo é mais fácil fazer: nada! Esta é a mentalidade reinante em muita gente do nosso país.
Esquecem-se do velho ditado: “Quem não está bem, põe-se!”.
Não preciso gabar-me, mas gosto de dar o exemplo. Foi isso que sempre fiz e continuo a fazer. Apesar das minhas qualificações (2 licenciaturas + 13 certificações técnicas reconhecidas mundialmente), continuo a estudar e estou a fazer um mestrado.
Sou um dos muitos professores desempregados. Não tenho a profissionalização, pois apesar de ter o CAP desde 1990, (e de o ter renovado três vezes sempre com as melhores notas pedagógicas nos grupos em que estive) e de ter sido avaliado com Excelente e Muito Bom no ensino oficial, porque não tinha esse “papelzinho” nem sequer me posso candidatar a ser professor, no concurso anual. É frustrante. Cansei-me. Decidi mudar. Estou desempregado. Não é bom, mas…
Não estou de braços cruzados a queixar-me de tudo e de todos! Gasto as minhas energias e saberes a estudar no mestrado (ALUNO), a procurar ativamente emprego, a melhorar o meu CV quase todas semanas, após cada entrevista a que vou (PROFISSIONAL), e ainda a cuidar e sustentar sozinho a minha filha e a acompanhar os seus estudos (PAI e MÃE), pois a mãe não quer saber dela. Não tenho nenhum apoio especial do estado nem me preocupo em obtê-lo, gasto essas energias à procura de emprego. Talvez seja injusto para mim. Mas ainda seria mais para a minha filha. Afinal, ela não pediu para nascer. Por isso, eu *assumo* todas as minhas responsabilidades. Ai se todos fizessem o mesmo…
Quanto a políticos: quem vota e elege os nossos governantes? São eles próprios ou somos todos nós cidadão adultos e votantes?
Quantas pessoas das que se queixaram este fim de semana nas ruas (os ditos “indignados”) votaram nas duas legislaturas anteriores, no PS, de José Sócrates? Cerca de metade, segundo as estatísticas! É que o PS ganhou com maioria, certo? E duas vezes! Quantos votaram agora no PSD da Madeira, de Alberto Jardim que esbanja o dinheiro do *nosso pais*? Metade também! Não é incrível? E ainda têm a lata de dizer que a culpa é toda dos políticos? Se não sabem é porque não querem saber. São irresponsáveis. Problemas e falta de tempo, todos os temos. Nada justifica tomarmos más decisões.
Se cada um assumisse inteiramente as suas responsabilidades; ou seja, se os pais educassem, se os alunos estudassem e se esforçassem por aprender, seria muito mais fácil os professores poderem concentrar-se todos em ensinar bem. Também os há incapazes (tal como em todas as profissões) mas comparativamente com o nº de pais que se demitiram da sua função e do nº de alunos que não o desejam ser, o nº de professores incompetentes é até muito reduzido.
A autora deu-nos uma ajuda ao desmitificar uma “pseudocausa”. Devíamos agradecer-lhe. Usemos essa ajuda, e depois eliminemos as causas.
Em vez de reclamar dos outros, deitemos mãos à obra para CONSTRUIR, pois só com o esforço *conjunto e solidário* de todos conseguiremos tirar este país do buraco em que *nós* (e não os outros) o metemos.
P.S. Não sou de esquerda, nem de direita. Já votei em 4 partidos com assento parlamentar. E sabem porquê? Porque deles depende a nossa vida!


De Teresa Marques a 19 de Outubro de 2011 às 11:59
Agostinho... há pessoas Enormes... O Agostinho é uma delas. Com umas quantas pessoas assim este país estava salvo... na verdade nem se teria afundado. Obrigada imenso pelo seu testemunho de vida que é um Exemplo para todos nós... O dia hoje ficou mais claro de repente... A Esperança é uma luz que motiva a ação e o caminho...


De João Torres a 18 de Outubro de 2011 às 12:11
Seja a culpa de quem for, se é que existe, estes meios têm riscos que não podemos ignorar.

Qualquer ferramenta pode ser usada para o bem e para o mal. A escolha é de quem a usa. Muitas vezes confundimos a mensagem com o mensageiro... Já tive acesso a alguns estudos científicos, imagine-se, via facebook!

Nem sempre é fácil, no entanto, distinguir o que é bom do que é mau, as coisas boas das coisas más...

No facebook, por exemplo, podemos partilhar informação e trocar opiniões com pessoas que, supostamente, conhecemos ou a quem permitimos o acesso ao que escrevemos. Associado a tudo o que fazem deixam um perfil onde se identificam. Isso não acontece em todo o lado, nem na Internet nem no mundo supostamente real.

Mas aproveitar ou não a facilidade do anonimato também não é culpa da plataforma, apenas de quem a utiliza....

Gostei do teu texto porque me fez pensar. Gosto de pensar e trocar opiniões, aqui ou no facebook. Tenho a certeza que, mais cedo ou mais tarde, os estudos científicos sobre os riscos do facebook, elaborados por doutores que, certamente, não o utilizam aparecerão e saberemos então tudo pelas vias certas e utilizando metodologias infalíveis!

Entretanto o teu texto é mais uma opinião de alguém que arregaça as mangas e não esconde a cabeça na areia. Eu concordo com o que escreves e, sobretudo, respeito.


De Teresa Marques a 19 de Outubro de 2011 às 12:03
Obrigada, João. Não fossem as tecnologias e provavelmente nunca teríamos cruzado os nossos caminhos de vida e de aprendizagem... Olhando para trás só posso dizer: que bom viver neste tempo, que bom ter podido (e continuar a) conhecer pessoas reais que enriquecem tanto a minha estrada. :)


De Luísa Vila Verde a 21 de Outubro de 2011 às 18:08
Concordo totalmente.


De Maria do Resgate Coelho Portas de Sousa a 21 de Outubro de 2011 às 23:34
Gostamos...Um opinião clássica a uma questão que vem de geração em geração...


De best android phone a 21 de Maio de 2013 às 08:28
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