02-11

* Rosa Duarte

 

Fazer da família um suporte real do indivíduo, que é um ser em permanente construção, tem sido objeto de estudo do projeto artístico em geral. Quantos letrados recorrem à palavra para revisitar histórias de família, como por exemplo aquela do viúvo preparado para a viagem que o levará até à sua senhora, crente na união perpétua (Valter Hugo Mãe, O Filho de Mil Homens, capítulo 5)? Quantos realizadores de cinema recorrem à representação para retratar a inédita beleza de cada amor filial (Pedro Almodóvar, Tudo sobre a minha mãe)?

Criar é também exprimir o desejo do outro num discurso artístico que alguns gostariam de fazer, mas não o fazem. Porque (ainda) não sabem. Porque é uma vontade que exige um trabalho árduo. Vontade não apenas de se imaginar a fazer, mas de fazê-lo de facto, num trabalho persistente e continuado, como o enlace do instrumentista no seu instrumento, várias horas por dia a tocar a mesma composição musical. Enid Blyton dizia que ser escritora era sentar-se e escrever. Não partilhava da crença na bênção do escritor pela musa inspiradora para iniciar a sua obra. É uma atitude interessante pela intenção desmistificadora e despretensiosa que constitui um convite espontâneo à criação e às inevitáveis reflexões sobre o ato criador, por aspirantes e pelos veteranos nestas lides criativas.

Na frase simples e quase óbvia: a arte serve para conhecer o mundo, Urbano Tavares Rodrigues faz-nos pensar no papel vital da dimensão artística para a comunicação que é muitas vezes descurada na formação de qualquer ser humano. A escrita, simultaneamente dom e necessidade, serve a todos para comunicar. Como sentir e desenvolver qualquer dom? O pedagogo americano Ken Robinson escreve sobre a importância da descoberta do elemento criativo em cada indivíduo para o seu desenvolvimento. É urgente o lado interessante da vida, sem o qual o trabalho útil e eficiente dolorosamente se suporta. A música, feita de execução e técnica, só é bela quando é bem tocada ou cantada porque é sentida e irrepetivelmente interpretada; assim acontece com as palavras que não servem apenas para substituir a presença de um objeto ou de uma emoção convencionada, mas para ser ela mesma uma palavra sentida, logo, vivida de forma única por cada leitor (mesmo pelo autor-leitor).

Há muitos anos, num projeto escolar, numa turma de ensino básico (currículos alternativos), em que as palavras eram sentidas pela arte habitualmente presente, ricas na sua diversidade cultural e no convívio assíduo, foi organizada uma semana cultural que deu conta à comunidade do muito que cada um tinha para contar sobre os seus costumes e expressões artísticas afroeuropeias, da qual os registos ainda comovem.

Neste ano, os alunos de uma turma de CEF de Apoio à Família apelam-me às memórias pelo seu perfil de caminhos distintos, sem sobras afetivas, que são tão emergentes neste período da sua juventude. Fazem-me pensar que precisam de se dar a conhecer e de extravasar a sua individualidade em busca do reconhecimento. Que precisam de ouvir a sua voz, de negociar a sua vontade com o outro, de dar sinais de presença, de se integrarem no grupo-escola e (re)aprender o valor do respeito mútuo. A sua noção de família parece-me ser séria e corresponsável.

Muitos estudiosos e pedagogos sabem aconselhar e ensinar como desenvolver uma boa relação familiar, e no seu dia a dia com a sua própria família os programas que promovem de construção familiar nem sempre são aplicados ou concertados. Sabemos que a grande maioria dos pais e educadores só conheceram a sua própria experiência familiar enquanto filhos, naturalmente. E porque aprendemos sobretudo com aqueles que amamos, os exemplos são os mais dialogantes. Refiro mais uma vez o nome da famosa escritora inglesa, que povoou de emoção e aventura a minha infância e adolescência com as aventuras dos Cinco e dos Sete, e, no entanto, consta que teve dificuldades em se entregar emocionalmente aos seus filhos (vide, por ex., o filme Enid). Convidava frequentemente os seus jovens fãs para as hilariantes horas do chá que organizava e achava que não precisava de convidar os seus próprios filhos.

Então dou por mim a pensar em alunos como estes que frequentam aulas para os habilitar a dar apoio a outras famílias, muitas quem sabe como as suas, e olho-os, alunos já não meninos, sérios portadores de uma meninice adiada prestes a emudecer, ainda com um olhar chispando ou endiabrado.

 

* Professora do Ensino Secundário



publicado por Correio da Educação às 18:00
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