14-11

 

* José Matias Alves

 

Dizia Roland Barthes, o célebre linguista e semiólogo francês precocemente desaparecido, na sua luminosa Lição, que há uma idade em que se ensina o que se sabe. É a tarefa comum dos que estão incumbidos da função docente: passar às novas gerações o património de valores, conhecimentos, técnicas, artes, culturas; ensinar as teorias, os métodos, as leis, os códigos, os factos; ensinar o que já se descobriu, o que já se inventou.

Mas vem em seguida a idade de ensinar o que não se sabe. Ensinar a incerteza, o obscuro, a viver sem teto, nas ruínas do tempo. Ensinar as rotas que ignoramos. E como é que se ensina o que não se sabe?

 

Através da procura. Do método. Não sabemos, mas procuramos respostas para os problemas do tempo. Ensaiando, tateando, experimentando. Formulando e testando hipóteses capazes de iluminar e resolver os velhos velhos problemas. E os mais novos. Os que derivam da deriva económica, da especulação sem fim. Os que surgem no cenário de uma escolarização obrigatória de 12 anos que vai transformar as escolas em palcos e bastidores ainda mais complexos. Em textos muito mais difíceis de escrever e decifrar.

Ensinar o que não se sabe exige uma outra disposição de autoridade, uma outra postura didática, uma outra relação pedagógica, uma outra atitude. De mais escuta, de mais lucidez, de mais exigência, de mais humildade.

Será esta a navegação sucedida, seguindo aliás os passos dos navegadores portugueses. Navegando sem o mapa que faziam, para deste modo descobrir outros horizontes. E esta postura reclama ousadia e coragem. A prática sistemática do direito de autoria. É este o repto e o desafio. A condição sine qua non para sairmos do labirinto onde todos nos vamos perdendo.


* José Matias Alves é investigador, doutor em Educação e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa.



publicado por Correio da Educação às 10:36
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9 comentários:
De Anónimo a 2 de Dezembro de 2011 às 18:00
Obrigada por estas palavras! Nem imagina como materializaram as minhas preocupações! E como sossegaram no sorriso que neste momento flui dos meus lábios.
FS


De htm h100 a 9 de Junho de 2014 às 11:52
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De Profesor a 6 de Dezembro de 2011 às 19:46
Como tudo isto é verdade e nos faz doer o coração e a mente enturbilhada no "labirinto" da educação.


De Navegador a 6 de Dezembro de 2011 às 19:47
De Professor a 6 de Dezembro de 2011 às 19:46

Como tudo isto é verdade e nos faz doer o coração e a mente enturbilhada no "labirinto" da educação.


De bruno domingos a 7 de Dezembro de 2011 às 14:55
Admiro os seus posts neste blog...
Se me permite, entendo as suas descrições como a epistemologia da e sobre a educação...
Cola-me ao monitor com a sede de absorver todas as suas palavras até ao final... e posteriormente, quando termino a leitura, fico com a sensação de ter abandonado um pensamento de outra dimensão...

Obrigado e parabéns...

Bruno Domingos, professor do ensino secundário e treinador de futebol da Académica de Coimbra

brunomumita@iol.pt


De Ana Maria Silva a 15 de Dezembro de 2011 às 14:10
Amigo, há já uns anos moderei uma sua comunicação sobre construção do projeto educativo, nas jornadas do Centro de Formação das Escolas da Covilhã, e escrevi um texto sobre o tema, a seu pedido, para o CE. A mesma lucidez, claridade e sabedoria, que vi nesse dia e que tem mantido acrescentada ao longo do tempo, é hoje transparência e companhia segura para todos os que andamos nesta tarefa de levar as pedras pela colina do ensinar e aprender até ao limite da coragem.
Obrigada.


De thl w100 a 21 de Maio de 2013 às 07:59
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