02-01

 

 

* Inês Silva

O percurso casa-escola e escola-casa é feito diariamente por milhares de alunos, pais e professores, com uma certa fé de que o que vai acontecer a seguir vale a pena. Nesse mesmo percurso, tudo pode ser visto, caso o viajante não vá alheado do mundo, absorto nos seus pensamentos, a caminhar como um autómato, o que por vezes acontece.
Em 1991, Maria vinha da escola no autocarro, distraída, muito distante dos outros passageiros, embora encostada a eles. Com dezassete anos, a vida espraiava-se à sua frente e a força do corpo para realizar o impossível aumentava em cada instante. Embora ciente da imperfeição do mundo, dado o facto de a mãe ter saído de casa meses antes, levando-a a ela e à irmã, por não aguentar mais os maus tratos do marido, Maria tinha esperança de que a separação fosse o início de uma nova vida para todos.

Subitamente, a meio da viagem de autocarro, passou por um acidente que interrompeu os seus pensamentos. Ambulâncias, polícia, uma multidão a assistir chamaram a atenção dela e dos passageiros do autocarro, que logo se colaram ao vidro, comentando, lamentando. Maria acabou por não dar demasiada importância à situação, frequente em todos os percursos, e voltou aos seus pensamentos. Momentos mais tarde, veio a saber de quem eram os corpos que estavam a ser retirados do passeio: o da mãe, assassinada pelo pai com um revólver, e o do pai, que se suicidou em seguida com o mesmo revólver. Ao dirigir-se ao hospital, para onde os tinham levado, uma senhora, num guiché, disse-lhe que a mãe já entrara sem vida e que o pai estava em coma. Tempos mais tarde, num tribunal, o juiz colocou em cima da mesa a arma que tirou a vida aos seus pais. Hoje, Maria visita-os no cemitério. E quando a jornalista, no dia em que é lançada uma campanha nacional para combater o crime da violência doméstica, lhe pergunta, em frente às câmaras, se ela perdoou ao pai, decorridos vinte anos, ela diz que sim. “O amor de filha não se perde”, afirma. A forma como as mãos de Maria se contorciam a descrever a tragédia mostrava bem o sofrimento por que passou. Ficar sem pai e mãe no mesmo dia por culpa de um deles só pode ser suportado por alguém feito de amor. E saber perdoar é uma questão de amor. E de fé. Só estes podem vencer o ódio.

Num destes dias, Alessandro deslocava-se de casa à escola, de autocarro, numa cidade italiana, absorto nos seus pensamentos, quando viu de repente um cartaz publicitário de uma marca de roupa, com o papa Bento XVI a beijar na boca o imã egípcio Ahmed el Tayyar. Mais à frente, viu um outro cartaz da mesma empresa, desta vez com Obama a beijar Hugo Chávez. Incrível. E ainda um outro, com Nicolas Sarkozy e Angela Merkel, e outro, com  Mahmoud Abbas e Benjamin Netanyahu. O slogan a acompanhar a publicidade era “O ódio nunca é apaziguado pelo ódio e só o anti-ódio pode apaziguar o ódio.” No dia seguinte, Alessandro deixou de ver os cartazes. Os anúncios "UNHATE" (não ao ódio) foram, pois, retirados. A polémica tinha-se instaurado. O Vaticano anunciara uma ação legal contra a fotomontagem, reacendera-se o debate em torno das campanhas polémicas, condenara-se a marca de querer chamar a atenção a todo o custo. Ora, ninguém beija quem não quer. O beijo forçado não é um beijo. É um encosto repugnante!

Os efeitos de se verem inimigos a beijar-se na boca ainda duram. A polémica está longe de abrandar.

O que nos ensinam as viagens de Maria e de Alessandro sobre o amor e o ódio? Que têm estas duas histórias em comum? Possivelmente apenas o facto de ambas acontecerem no percurso casa-escola ou escola-casa. Ou talvez mais… Maria continua a beijar a campa do pai, por amor, enquanto outras mães são espancadas e mortas pelos próprios maridos, num silêncio duradouro. Alessandro procura perceber o que aconteceu aos cartazes, porque foram retirados na hora e porque se estendeu uma passadeira vermelha tão comprida ao ódio, com holofotes a iluminá-lo.


* Doutora em Linguística (Sociolinguística). Professora Adjunta convidada na Escola Superior de Educação de Santarém. Tem realizado estudos sobre a escrita dos alunos. É autora de várias publicações de caráter didático e de caráter linguístico. Na ficção, publicou o romance: A Casa das Heras.



publicado por Correio da Educação às 14:56
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