26-03

* Rosa Duarte

Mais uma vez o percurso queirosiano de Sintra. No inefável paraíso romântico cantado por Lord Byron e por uns quantos mestres do sentimento e do ofício, foi feita a nossa representativa investida escolar, ao jeito de Carlos da Maia à procura de Maria Eduarda. Com uma curiosidade cultivada pelo revisitado itinerário, à luz de um sol protegido por nuvens Magritte, fomos encorajados pela beleza mais espontânea a elevar os sentidos. Houve até quem ousasse trepar à Pena.

Mas a verdadeira pena sentida foi a de reconhecermos na agudeza magistral de Eça o nosso mais atual retrato social português, à distância de cerca de cento e quarenta anos depois, citado d’ As Farpas, pelo guia: «Nós estamos num estado comparável à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesmo abaixamento de caracteres, mesma ladroagem pública, mesma agiotagem, mesma decadência de espírito, mesma administração grotesca de desleixo e de confusão. Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país católico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa – citam-se a par a Grécia e Portugal. Somente nós não temos como a Grécia uma história gloriosa, a honra de ter criado uma religião, uma literatura de modelo universal e o museu humano de beleza da arte.» (Eça de Queirós e Ramalho Ortigão: 1871). Comentámos, assustados, a imagem realista do Portugal decadente progressiva no tempo, que encerra em Eça um tom comprovadamente premonitório e comprometedor, sem religião que nos salve. Decerto que nem mesmo aos nossos colegas de infortúnio que se estão a ver gregos…naturalmente… E o mais grave nem é, no meu óbvio parecer, o dinheiro, mas os olhares periféricos de malandrice no seio de certos grupos, profissionais por exemplo, com intuito de enfraquecer o parceiro, aquele inofensivo compincha que se quer simplesmente a olhar a vida com outro alcance… Nã… toca a presenteá-lo com indiferenças, desfeitas, palavras secas e contrafeitas. Quando sabemos, ou alegamos que sabemos, que o medo reside na fraqueza de reconhecer a grandeza da serenidade do outro, a coragem do outro, até mesmo o amor ao próximo do outro. De todas as intrigas possíveis de arquitetar na história da vida, mesmo as de fino quilate, são também elas filhas da mesma mãe, daquela que nasce do medo: a ignorância. Embora só os mais humildes morram por aprender, todos devemos aprender até morrer. Até nós, profs, que não somos necessariamente dos mais inteligentes, como diz dilacerante o nosso Eça, carregamos a responsabilidade acrescida de aprender. Aprender a encorajar quem quer aprender, como um direito inalienável e vitalício.


Agradecemos ao guia, já veterano também, por este percurso literário e paisagístico, e todo o demais desvelado acompanhamento ao grupo. Mais de resto, o tempo aguentou-se até ao momento da largada dos jovens passageiros (para depois oferecer uma saraivada, daquelas! que não tem havido grande memória…), o almoço estava bom e recomenda-se, a amizade das verdadeiras imperou entre os participantes e as finas ironias ecianas ficaram a deliciar as mentes gustativas para as próximas sessões sobre a família Maia.

 

* Professora do Ensino Secundário



publicado por Correio da Educação às 15:44
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