15-04

 

 

* José Matias Alves

 

Como se sabe, a pedagogia requer a capacidade de ver o nosso próximo, de reparar, de reconhecer, de intervir. De ver os alunos, nas suas singularidades e diferenças, de os conhecer nos seus talentos, nos seus limites, nas suas necessidades. Mas de ver também os professores, exatamente nas mesmas dimensões para que se constitua e desenvolva uma comunidade profissional de aprendizagem que esteja ao serviço de um ensino mais eficaz.


A pedagogia é a ciência e a arte do provável, do incerto e que joga a sua eficácia num sem número de variáveis que não é possível determinar a priori. Por isso, a centralidade da proximidade e da atenção para que seja possível compreender o que se (não) passa e se tomar a decisão mais adequada.

 

Com o movimento das agregações de escolas que desagregam os laços e os conhecimentos das pessoas, com a tendência para aumentar o número de alunos por turma, instala-se na ação pedagógica um desafio de enorme complexidade. Vai ser mais difícil praticar a diferenciação pedagógica, mais difícil realizar a avaliação formativa (já de si precária), mais difícil conhecer o outro e ajustar os modos de ensinar e fazer aprender.


Ao nível das lideranças das organizações educativas (seja as de topo, seja as intermédias), a atenção tende a despersonalizar-se e a concentrar-se na produção de circulares e normativos internos na vã esperança de comunicação e aproximação. O risco da balcanização da ação educativa nunca foi tão óbvio. A lógica da desconexão, da desarticulação, e da arena política começam a ter as condições ótimas de emergência e desenvolvimento. A qualidade dos processos e dos resultados só tem condições para piorar. É um cenário doloroso de ver, sobretudo quando havia esperança de algum renascimento educativo.


Dói-me pensar e escrever que a pedagogia corre um risco grave de perder a sua capacidade de intervir na invenção de dias mais claros. Mas, como não podemos desesperar, fica o apelo à construção de pequenos círculos de comunidades profissionais que teçam as oportunidades de escuta, proximidade e reinvenção de possibilidades.

 

 

* José Matias Alves é investigador, doutor em Educação e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa.

 



publicado por Correio da Educação às 15:38
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