07-05

 

* Rosa Duarte


Viver em open space o fast love num zapping delirante ao som da música psicadélica e batatas fritas de palito pode anestesiar momentaneamente o incómodo da crise económica instalada, implacável para os potenciais consumidores de futuros profissionais promissores
que vão aguardando melhores dias na sua terra, mas a troco da embriaguez dos media empacotados e amizades sociais sem rede, por vezes com digestões difíceis de virtualidade continuada. Nos tempos difíceis, especialmente, os frutos obrigam-se a si mesmos a dar espaço para alguns brotarem mais suculentos. Assim, nos escombros da conhecida música que nos vão dando os grandes grupos económicos e políticos, disparam felizmente os vanguardistas sentimentos dos grupos alternativos que vão respirar uma aragem mais inventiva, porque falam das tentações sonantes e arremessos de legumes mágicos, em projetos e concertos inflamados e inflacionados do nosso tempo, com (The) Temptations, Smashing Pumpkins… Vai-se sobrevivendo com a alegria do som.

 

De portas-meias com a dura realidade, somos repórteres dentro e fora do ecrã da nossa mente. Igualmente telecomandados, saltamos de canal em canal e afrouxamos nos noticiários televisivos mais vivos, comentados, a cada passo, que fazem da notícia um parente próximo do espetáculo. Nas televisões brasileiras, por exemplo. É a velha questão da linha ténue que nos poderia levar à reflexão de quem somos, como interagimos, como reconhecer as contaminações interpretativas sobre os acontecimentos. Nós sabemos que as gavetas que compartimentam as palavras e os seus conceitos inversos são propriedade do senso comum, como estas da objetividade e da subjetividade, vendo a sua contaminação vivencial imparável, cúmplice e diáfana! A devoção mediática é massiva, mas os alicerces da verdade ainda querem aguentar as brisas da primavera. Vamos acreditando… Somos construtores civis em formação. Começamos a ser um coletivo sem c, porque há mudanças que se impõem a favor do benefício corresponsável dos povos. Há quem resista e há quem não tenha como fugir-lhes… Claro que a muitos de nós parecem menos comprometedoras as atualizações ortográficas do que a crescente falta de dinheiro, a escassez de emprego, a fraca valorização
da arte, as agressões ecológicas, o árduo caminho da construção da integridade social. Onde anda a boa comunicação intrínseca à preservação do bom entendimento, ao clima de paz e à sustentabilidade? Qual é a forma física do português cuja espinal medula é a alegria de
viver e o reconhecimento de cada falante como ser único e diverso, na sua imaginação e racionalidade?

E continuamos o rol das dúvidas: a que razões se podem agarrar os autores deste novo acordo ortográfico para despender tempo, ideias e dinheiro com o intuito de desferir, ainda que relativos, sérios golpes na prezada etimologia e apreciada plasticidade da nossa língua anfitriã? Todas as mudanças, que são sempre dolorosas aos mais afeiçoados, ao longo da história da língua portuguesa deveram-se naturalmente ao dinamismo da prática da oralidade que vai, aos atropelos, obrigando a língua a algumas atualizações, como esta da fonética. Estas contrariedades arrastam desabafos incontidos como o de: Até parece que já não sei escrever. É um sério desafio ao nosso sentimento de lusa ancestralidade. Mas algo nos diz: não desanimemos porque a nossa vulnerabilidade financeira não atordoou o espírito empreendedor do nosso povo, que continua as suas conquistas, não por terra ou por mar, mas pelo caminho da disseminação da sua língua e cultura… Esperemos que nunca à custa da sua portugalidade. A solenidade do tempo, esse grande escultor também da nossa língua, confronta-nos com os anseios dos nossos mestres intemporais da literatura que clamaram pela árdua, mas inevitável tarefa académica de contextualizadamente repensar a uniformização ortográfica da língua portuguesa em todos os seus recantos. Por isso aqui vai um testemunho conhecido em jeito de ilustração: “…de boamente seguirei qualquer methodo mais accertado, apenas haja algum geral, e racionável em portuguez: o que tam fácil, e simples seria, se a nossa academia, e governo em tam importante cousa se empenhassem.” (Almeida Garrett, Camões: 1825).

Porque os acordos são feitos para discordar, difundo esta minha apressada reflexão num dos mais poderosos meios, democraticamente.

 

* Professora do Ensino Secundário



publicado por Correio da Educação às 15:16
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