29-10

1. Que responderia o leitor se lhe perguntassem quando escreveu a última carta? Claro que ninguém terá a ousadia de lhe perguntar quando usou pela última vez o telefone ou o telemóvel. Correria o risco de o estar a usar no momento em que esta crónica cai debaixo dos seus olhos.

Durante cento e cinquenta anos, o grande objectivo do ensino do Português, no liceu, era dominar a língua escrita, até a um nível (quase) literário. Hoje a escrita desapareceu das práticas escolares, em qualquer grau de ensino. Como outros, sou do tempo da composição escrita semanal ou de quinze em quinze dias, na sala de aula. Não quer dizer que a oralidade aí tenha hoje melhor tratamento. A verdade é que, em termos de aprendizagem, nem a oralidade nem a escrita são tomadas a sério, metodologicamente.

Que peso tem hoje aprender para crianças e adultos? O seu peso, ontem, é visível, na resposta de Medina Carreira (com três cursos, engenharia, direito e economia), à pergunta: “Essa sua escolha por estudar tanto era pela ânsia pessoal de aprender ou por ambição de carreira?”

Responde: “Não o fazia por querer ter dinheiro, ser importante. Era ânsia de saber, porque sempre desde rapaz tive a convicção de que na sociedade ou sabemos alguma coisa ou não valemos nada.” (Expresso. Revista Única de 22 Outubro de 2009: 104). Então, saber era valer.

 

2. Hoje trabalhar é trabalhar em organização. E se é verdade que a escrita é fundacional das organizações – em estatutos, registos, actas, informações… –, também é verdade que o discurso oral é a plataforma de trabalho quotidiano de todos os seus membros – no atendimento, reuniões, entrevistas, debates…

Prepara a escola para essas competências? Infelizmente, não. Perguntaríamos, mesmo, para que preparam hoje as escolas, especificamente? Para além de uma base de sociabilidade, uma certa “cultural geral escolar de hoje” e da consolidação de habilidades genéricas - manuais, tecnológicas e mentais – pouco mais deixam nos jovens, à saída.

Por isso, muitos afirmam que a escola mais do que eliminar diferenças, as acentua e cristaliza. É que os que podem – este poder tem a ver com o estar avisado em relação ao futuro e com uma carteira recheada de dinheiro – ultrapassam as limitações escolares com actividades fora da escola…

Por outro lado, há o currículo oculto que aí desempenha o seu papel: é o ambiente familiar e amical, com objectos, tarefas, viagens, conhecimentos e empenhos…

 

3. Assim, não surpreende o aparecimento em órgãos de informação tão generalistas como o Destak (22 de Outubro de 2009: 7) apresentar um título como este: “Candidatos fazem testes invulgares por trabalho”. De seguida, lê-se logo: “Para conseguir lugares de topo em grandes empresas, há candidatos que têm de participar em debates semelhantes aos televisivos.”

Aí surge, citando a revista Sábado, o exemplo de alguém que, em 24h, teve de preparar a sua intervenção para um debate “televisivo” sobre a localização do novo aeroporto. Apesar de defender Alcochete, viu-se obrigado a encontrar os argumentos certos para apoiar a Ota.

Era um entre sete candidatos, perante dois especialistas da empresa, que era uma consultora internacional, tendo como moderador do debate o jornalista Ricardo Costa da SIC. Relativamente à PT, é referido que, em alguns casos, o próprio presidente entrevista os candidatos.

Tempos houve, porém, em que era a escrita a base de escolha e selecção de funcionários e empregados de escritório. Algumas instituições, como câmaras, elaboravam mesmo “provas” escritas, semelhantes às que passavam os candidatos em ambiente escolar, no final de cada ciclo.

Hoje, apenas na escola a escrita continua a ser a base de classificação dos alunos, nos exames. Veremos até quando assim será. E, nessa altura, quando o vento mudar, alguém lembrará que tal situação será apenas mais um regresso ao passado, anterior aos anos trinta do século XX. Quando os exames eram predominantemente orais… com os inconvenientes, na altura, bem conhecidos.

Perante as novas e intensivas necessidades sociais da comunicação oral, estamos apenas perante o atraso com que a escola segue a sociedade. O futuro certo não terá de ser, necessariamente, um regresso ao passado, antes, deverá ser uma evolução natural.

 

J. Esteves Rei - Professor Catedrático de Didáctica das Línguas e de Comunicação, na UTAD, Vila Real.



publicado por Correio da Educação às 10:24
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