30-05

 

* Rosa Duarte

 

Desde os tempos imemoriais dos nossos antepassados que ouvimos e sabemos que aprender é até morrer. Está visto que é essa a missão de todos nós. Aprender a aprender a todo o custo, em especial no caso dos educadores, que precisam de conhecer o ser humano, a sua matéria-prima, por excelência. Mesmo os mais instruídos em Psicologia, ou especialmente estes... Até mesmo os educadores muito experientes. E em particular os mais vocacionados e dedicados, naturalmente.
Ontem, um grupo de professores ouviu falar duas jovens psicólogas sobre alguns sintomas de alerta em cenários clínicos recorrentes nas escolas, frequentemente associados a perturbações mentais detetáveis em fases de crescimento, com particular expressão na conturbada adolescência.

 

Ouviram-se e contaram-se episódios reais, bem presentes: crianças com síndroma de Asperger, com síndroma de borderline, com sinais de automutilação, alguns tipos de depressão, depressão reativa, depressão nervosa, esta muitas vezes derivada do bullying, da falta de afeto ou mesmo da má alimentação (em quantidade e qualidade)…

No final da sessão, prenhes de vivências e lembranças, partilharam-se em privado outros, talvez plasmados por infâncias contidas. Foi então que me deram a ler esta composição singela, tocante, assinada por um bom aluno do décimo ano. O tema era a educação:

Era uma vez um Menino que gostava muito de falar e sorrir para as pessoas. Os pais muitas vezes advertiam-no para não sorrir para estranhos e não falar para não incomodar as pessoas. Como era obediente e queria muito agradar aos pais, o Menino deixou de sorrir à vontade e só o fazia em privado. Aí, de vez em quando, despejava a alegria em gargalhadas incontidas.

 - Muito riso pouco siso, rapazinho. - Não se livrava mesmo assim dos ralhetes. Aquela seriedade toda era-lhe penosa e ficava apreensivo quando via outras crianças, ou mesmo adultos, a sorrirem-lhe ou a sorrir para outros, na sala do consultório, no supermercado ou na escola. - Que parvos!, pensava. Fazia questão de ser um menino lindo, como lhe pedia a mãe, não obstante sentir-se como um cachorrinho afagado no cocuruto. Quando a mãe o elogiava em público, encolhia-se todo. Não gostava mesmo nada. Mas fazia-o pelo amor que lhe tinha. Tornou-se, assim, um menino calado e observador. Falar, falava pouco; nas aulas, quase nada. - Só, obviamente, quando o professor lhe pergunta alguma coisa. Ele lê muito, gosta muito de aprender e, por isso, costuma saber as respostas.

- Mas que joia de menino! Nem se dá por ele! - Comentavam as vizinhas mais chegadas.

Nem sempre o Menino se sentia reconhecido por aquele esforço maior do que ele. Pois mal davam por ele, tão bem se comportava. Quando algum amigo lhe pedia para brincar, o seu coração enternecia-se, mas recusava. Devia portar-se bem, tipo adulto. Olhar pela sua conduta de menino com educação.

- Vai brincar - diziam-lhe as empregadas, mas ele sabia que as brincadeiras faziam sempre muito barulho. Quando ia, depois vinham as empregadas repreendê-los.

Em casa, até alguns dos adultos eram repreendidos pela mãe.

- Mas esta gente não teve educação?! - Comentava a mãe, escandalizada com o frenesim gritado pelos seus próprios familiares nas visitas domingueiras. - O que dirá a vizinhança?

A mãe quando conversava com as vizinhas, com aquelas com que tinha alguma intimidade, gabava sempre a educação do seu Menino. Às vezes as conversas delas pareciam as histórias humorísticas do «Gato Fedorento»: O meu filho com cinco anos já tinha ganho o prémio Nobel. Ah, sim, então e o meu?...

Hoje, o Menino sentado na sala de professores à espera da sua aula, sorri para dentro, observa-se, e, calado, admira-se do seu silêncio. Já é tempo de soltar amarras… Mas o ruído elevado, vindo de todos os lados da sala cheia de colegas, desencoraja-o e fá-lo pensar nas infâncias daqueles que tiveram que esperar muitos anos para poderem simplesmente gritar enquanto esperam que a sua voz se oiça. Um dia cansar-se-ão e já não precisarão de levantar a voz. Nem de mandar calar com tanta veemência. Nem de comentar o ar sorridente e generoso do outro. Ou a aparente distração. Entretanto, o Menino professor continua a aprender a não se sentir incomodado com a curiosidade desajeitada dos outros. E os sorrisos, esses, não os reprime mais. E ainda bem.

Foi mais uma valiosa achega.

Com a inevitável ajuda das doutrinas da Psicologia moderna, penso que concluímos que a educação é a grande tarefa e a melhor ferramenta é, sem dúvida, o exemplo.

* Docente do Ensino Secundário



publicado por Correio da Educação às 14:54
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