29-10

«Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio.

Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar,

um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural.

Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música

em estado de gravidez.»

Mia Couto (2009)  Jesusalém. Lisboa, Caminho, pp. 15-16.

 

            Os professores não nasceram para estar calados. A sua vocação não é, aparentemente, o silêncio. Vivem no seio do ruído, são especialistas em desencadear a interacção verbal, a participação… o anti-silêncio. Uma aula muito silenciosa implica sempre um ruído anterior ou um ruído posterior. Os saberes comunicam-se, negoceiam-se, trocam-se, co-constroem-se. Para tudo isto, a língua, no seu modo oral, é instrumento sine qua non.  

            Dizer ruído não significa afirmar barulho. Este é sinónimo de ausência de comunicação, de desconstrução, de alheamento. Contra esse o professor batalha, acabando por ser ele próprio muitas vezes produtor de … barulho.

            Talvez por todas estas contingências, o silêncio é tão essencial para o professor. Silêncio por fora ou silêncio por dentro. Este procura-se nos intervalos de duas aulas, no almoço, ao chegar a casa ao fim do dia, durante o fim-de-semana. Esta procura de silêncios, “Escrevo bem, silêncios, no plural”, muitas vezes mais não é do que uma tentativa de abafar o barulho da sala de aula que fica nos ouvidos, no cérebro, nos olhos fechados, nos sonhos. Um barulho ensurdecedor que luta contra os silêncios ambicionados, que se combate falando alto, ainda mais alto, ouvindo música, ainda mais música, lendo em voz alta para dentro, ainda mais alto.

Durante o mês de férias, o barulho vai desaparecendo, vai dando lugar à sonoridade harmónica, ao ruído no sítio certo, como uma melodia que se controla sem batuta. Porém, à entrada de Setembro, o professor sabe que o ruído escolar virá e com ele o barulho. A sua intensidade depende da escola, depende da turma, depende daquele aluno, depende do professor. Há barulhos que quase não se ouvem, outros há que abafam tudo, mergulhando a sala de aula num espaço onde a escola e a sua função se mitigam.

Temos notícias de outros “mundos” onde escola e silêncio andam a par, onde o professor tem a função de gerir os tempos da aula, as vozes que se escutam e perguntamo-nos de quem será a culpa deste barulho. Da sociedade, dos media, dos princípios veiculados, das normas escolares? Tantas hipóteses, tão poucas respostas, parcas certezas… Mas por que é que nalgumas salas nunca há barulho? Será a personalidade do professor, o seu rigor, a sua boa disposição, o interesse do saber que veicula? Qual a mistura mágica que coloca as coisas no sítio certo?

Do barulho à indisciplina, às vezes, vai um pequeno passo, outras vezes, essa transformação nunca ocorre, outras vezes ainda, este vai desaparecendo até se tornar imperceptível ou, pelo contrário, vai crescendo até se tornar ensurdecedor. Não há regras nem modelos, só suspeitas. O que é bem conhecido são as suas consequências: conteúdos mal assimilados, mal-estar entre os alunos com objectivos distintos, cansaço do professor, atrasos e justificações, …

Chiu! Esta é apenas uma reflexão em início de ano escolar… em breve o ruído levará aquilo que o barulho trouxe!

 

Carla Marques - Mestre em Linguística e doutoranda na mesma área; autora de várias publicações de carácter didáctico e de carácter linguístico: docente na Escola Secundária/3 de Carregal do Sal.



publicado por Correio da Educação às 10:30
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3 comentários:
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