16-11

Coimbra, 05/02/1904 - 07/01/1993

 

 

 

Um formador de professores dos anos 30 AOS ANOS 60

 

 

 

 

 

 

 

Psicólogo, filósofo, ensaísta e professor universitário, nasce em Coimbra, filho de João Vieira Lima e de Guilhermina Mendes de Lima. Frequenta nesta cidade o ensino primário, liceal e universitário. No Colégio de S. Pedro tem como mestres Mendes dos Remédios, Eugénio de Castro, João Duarte de Oliveira, Bissaia Barreto e Virgílio Correia, entre outros. Frequenta durante um ano a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e, mais tarde, é aluno da Faculdade de Letras da mesma Universidade onde conhece Gonçalves Cerejeira e Joaquim de Carvalho.

Licencia-se em Letras com uma tese sobre Guyau (Ensaio sobre ética de Guyau nas suas relações com a crise moral contemporânea, 1927), iniciando a actividade docente universitária. Cumprindo a tradição de um dos seus mestres, Alves dos Santos, dedica-se desde cedo às questões da Psicologia Experimental. Entre 1927 a 1928 estagia em França. Sob a orientação de Pierre Bovet, Édouard Claparède e Hélène Antipoff elabora a dissertação de doutoramento intitulada O problema da recognição - Estudo psicológico teórico-experimental (1928). Este trabalho tem sido considerado a primeira tese de doutoramento realizada por um português na área da Psicologia, em especial da Psicologia da Cognição. A partir de 1929, inicia a regência na Faculdade de Letras das disciplinas de Psicologia, Filosofia e História.

Em 1930, com a criação da Secção de Ciências Pedagógicas, Sílvio Lima inicia uma actividade docente de grande relevância, leccionando ao longo dos anos todas as disciplinas desta secção: Psicologia Geral, depois Introdução à Psicologia (de 1944 a 1964); Psicologia Experimental, depois Psicologia Experimental Aplicada (de 1930 a 1935); Psicologia Escolar e Medidas Mentais (de 1930 a 1935); Pedagogia e Didáctica (1955-1956); História da Educação (de 1958 a 1962); Seminário de Psicologia (de 1961 a 1964). O seu nome fica ligado a esta fase da formação de professores em Portugal, bem como ao desenvolvimento dos estudos no campo da Psicologia.

A sua ligação à Universidade é interrompida em 1935, altura em que é atingido pela célebre Lei n.º 25 317, que afastou vários intelectuais da função pública. No tempo em que permanece afastado do ensino, colabora com diversos jornais, nomeadamente no Diário de Lisboa e no Primeiro de Janeiro, e publica ensaios sobre desporto. Em 1942, por decisão do ministro da Educação, Mário de Figueiredo, é reintegrado na universidade, ainda que a sua carreira tenha sido afectada por este afastamento.

A publicação das Notas críticas ao livro do Sr. Cardeal Cerejeira - "A Igreja e o pensamento contemporâneo", em 1930, foi motivo de acesa polémica no meio intelectual da época e "fundamentou" a perseguição ideológica que lhe foi movida pelo regime. Em 1935 fez imprimir aquela que seria a sua dissertação para professor extraordinário efectivo, O amor místico - Noção e valor da experiência religiosa. Trata-se de um trabalho de interpretação do "simbolismo místico" e da "ontogenia do instinto sexual".

Na base da crítica sistemática, Sílvio Lima revela o interesse teórico pela Psicanálise, fazendo assim recair sobre si a responsabilidade de ter, na altura, trazido para o debate universitário uma das correntes mais importantes da Psicologia. Os aspectos relacionados com a teoria erotogénea do misticismo defendida por Kraft-Ebing, Max Nordeau, Guyau e James-Leuba são aprofundados neste seu trabalho que não chegou a ser publicamente defendido. Como afirma Barahona Fernandes, em 1979, nesse estudo "levantou com galhardia o problema do inconsciente e da teoria dos instintos criticando-a e aflorando alguns dados da fenomenologia, da psicologia compreensiva e da psicologia genética".

Marcada pela coerência, a obra de Sílvio Lima concede uma grande atenção à definição do estatuto epistemológico da Psicologia. Esta preocupação, conjugada com o esforço afirmativo da transformação da Psicologia em ciência experimental, já antes presente na sua tese doutoral, está patente nos trabalhos Normal, anormal e patológico (1946), A Psicologia em Portugal (1949), Cérebros electrónicos e cérebros humanos (1952), Comte, o Positivismo e a Psicologia (1957).

A pedido de George Kisher redige um artigo para o World Psychology (1948) sobre a Psicologia em Portugal. Publicado mais tarde na Biblos, este artigo apresenta-nos a síntese das influências e dos protagonistas da Psicologia nacional, estabelecendo uma relação entre o desenvolvimento desta disciplina e o seu reflexo prático, nomeadamente na área da educação especial e da saúde mental.

O papel de Sílvio Lima, como crítico e ensaísta, bem como as suas qualidades pedagógicas, concedem-lhe um papel de destaque no desenvolvimento das disciplinas de Psicologia e de Pedagogia na universidade portuguesa. Alguns dos seus discípulos testemunham que "as suas aulas eram ouvidas com religioso silêncio e com verdadeiro encantamento intelectual", contribuindo para sublinhar a acção que desempenhou, durante mais de três décadas na formação dos professores do ensino liceal. Aposentou-se aos 61 anos de idade, tendo sido homenageado após 1974.

 

Bibliografia

O problema da recognição (Estudo psicológico teórico-experimental), Coimbra, 1928. Notas Críticas ao livro do Sr. Cardeal Cerejeira "A Igreja e o pensamento contemporâneo", Coimbra, 1930. O caso clínico dum teólogo, Coimbra, 1931. O amor místico (Noção e valor da experiência religiosa), Coimbra, 1935. Ensaios sobre o desporto, Lisboa, 1937. Desporto - Jogo e Arte, Porto, 1938. Serão luxos a ciência e a arte?, Coimbra, 1940. Desportismo profissional (Desporto, trabalho e profissão), Lisboa, 1944. Ensaio sobre a essência do ensaio, Coimbra, 1944. "Normal, anormal e patológico", Biblos, vol. XXII, t. I, 1946, pp. 113-161. "Psicologia em Portugal", Biblos, vol. XXIV, t.I, 1949, pp.277-285. "Cérebros electrónicos e cérebros humanos (Psíquico, psicológico e cibernético)", Revista de Filosofia, 2, 1952, pp. 5-17. "Reflexões sobre a consciência saudosa", Revista de Filosofia, 5, 1955, pp. 188-196. "Comte, o Positivismo e a Psicologia", Revista de Filosofia, 7, 1957, pp. 246-252. Biblos. Revista Portuguesa de Pedagogia. Seara Nova.

 

 

 

João Pedro Fróis, « LIMA, SÍLVIO Vieira Mendes de», in António Nóvoa (dir.), Dicionário de Educadores Portugueses, Porto, Edições Asa, 2003, pp. 765-766, com adaptações.

 

 



publicado por Correio da Educação às 16:55
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1 comentário:
De mobdroapk.org a 2 de Abril de 2016 às 20:46
Great job.


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