17-11

Roga o meu querido Amigo que lhe continue a debuxar o perfil do verdadeiro idealista. Pois seja; anuo, de boa vontade, ao seu pedido. Julgo ter-lhe mostrado que o idealista, longe de ser um quimerista imerso no vago dos sonhos, é pelo contrário o único, o autêntico realista. O idealista possui um forte «sentido das realidades»; sabe lucidamente que o ideal, ao encarnar no facto, esbarra ou está sujeito a certos condicionalismos histórico-sociológicos. Quero dizer, o verdadeiro idealista conta sempre com os factos, como o general estrategista conta sempre com as forças do inimigo e o piloto com as correntes da maré.

Neste artigo busco agora frisar-lhe que não só o idealista conta sempre com os factos brutos do real, como também - por isso que é realista - não espera dentro da sua campanha pelos valores ou ideais auxílio, protecção ou estímulo algum dos factos. A chama de amor, que devora o coração do idealista e lhe faz erguer os braços no gesto sagrado do semeador, não se alimenta dos factos do real, não brota da seiva do mundo externo; vem do alto e de dentro, e não de baixo e de fora. Se o amor do idealista se nutrisse dos factos do real, já há milhares de séculos que a flor rubra do idealismo tinha murchado sobre a face da terra. Mas o idealista é autónomo em relação ao mundo; coloca a bola do universo debaixo dos pés. O verdadeiro idealista "prega no deserto", que lhe importam os tufões abrasadores, as rajadas penetrantes de areia fina, a mudez e a surdez das fragas, as longas noites nevadas? Não é do mundo, dos homens e das coisas que o idealista fia; não é ao mundo que o idealista pede a coragem moral para lutar e sofrer de alma em carne viva.

Não!

Ele é em demasia realista para, como louco, se obnubilar de ilusões, e como quimerista se embebedar de quimeras. A coragem heróica do idealista nasce-lhe de dentro, do cerne das próprias crenças ou ideais; como jacto de linfa que salta, múrmuro, da rocha dura. O realista, esse, vive na dependência escravizante dos factos; varia com a paisagem; a sua alma proteíca reflecte, como espelho fidelíssimo, a movediça fisionomia das águas e dos céus. É do mundo exterior, é de fora que lhe vem a lei moral; os factos, conforme se vão encadeando na linha do tempo, ditam-lhe os sucessivos modos de pensar, sentir e agir. O verdadeiro idealista crê sempre nas ideias, mas duvida dos homens e do mundo. Duvida, note-se bem. Ora duvidar não é descrer. A dúvida é uma coisa, e o cepticismo é outra. A dúvida é interrogativa, o cepticismo é negativo. O idealista é um crente lúcido, o único verdadeiro realista, como já lhe disse. Prega os valores, arrisca e sacrifica a vida em defesa do que ele julga ser a Verdade e a Justiça; nessa defesa o idealista duvida de todos e até de si mesmo. É que o idealista, realista como é, conhece até à medula o mundo e os homens; sabe o que significa e quanto vale a frágil natureza humana. A sua dúvida não abraça o reino dos valores ou ideais. É do mundo dos factos que ele duvida, mas não - isso nunca! - da sua fé robusta e inabalável. Por isso, quando o verdadeiro idealista descobre, na curva da estrada, um misérrimo vencido da vida, um lutador que pensa trocar os tufões e as chamas e as feras do deserto pelo azeite de Vale de Lobos, suspende a marcha e brada:

 

- «Ó homem de muita fé, mas pouca dúvida! Pois que idealismo era esse, o teu, tão falho de realismo que só porque o mundo se mostra surdo e cego e mudo e paralítico perante os teus anseias, te submerges na desesperação e na morte? Que esperavas do mundo? Que mais pode e deve desejar o idealista do que "a posse duma consciência superior a quanto não seja a verdade, a justiça e a formosura" (Antero)? Eras tu afinal um idealista, ou um quimerista? Recorda as nobres e imperituras palavras do missionário de Tarso: "Quem nos separará do amor de Cristo (como quem diz do amor do idealismo puro)? Será a tribulação? Ou a angústia? Ou a fome? Ou a desnudez? Ou a perseguição? Ou a espada?... Porque eu estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as virtudes, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem a violência, nem a altura, nem a profundidade, nem outra criatura alguma nos poderá apartar do amor de Deus" (Como quem diz do amor dos fins espirituais). Não! Se ainda crês no espírito, e nele deves crer sempre porque só o espírito liberta e salva o homem, pega no teu bordão caído no pó e regressa comigo ao ermo adusto onde afrontavas os vendavais e as injúrias…”

 

Diário de Lisboa, 4747, de 05-02-1936; também, in Sílvio Lima, Obras Completas II Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Serviço de Educação e Bolsas, 2002: 1626-1627.

 



publicado por Correio da Educação às 15:37
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