16-12

Nome: Vânia Cecília Almeida Rego

Profissão: Leitora de Português - Universidade de Poitiers - França;

Habilitações: Mestre em Literatura Portuguesa


- Qual a sua actividade profissional mais gratificante já realizada?

O leitorado na Universidade de Poitiers em França, pelo contacto com alunos que iniciam a Língua Portuguesa no nível 0 e pela possibilidade de dirigir e organizar as actividades culturais em Língua Portuguesa.

 

- Que mensagem deixaria aos professores deste país?

Os professores são uma peça fundamental da educação das diversas gerações que acompanham. Ser professor é uma questão de vocação e de vontade, por isso a minha mensagem é muito simples: para todos os colegas, assim como para mim, é a vontade e a iniciativa que nos caracterizam que permitem às gerações futuras avançarem pelo mundo e conquistarem o conhecimento e a realização pessoal. Ajudemo-los o mais que pudermos e sempre com um sorriso no rosto, porque a maior busca do ser humano sempre foi a felicidade. A sociedade acabará por perceber, olhando as nossas iniciativas pedagógicas, o valor de cada um de nós e a importância que anos de má gestão educativa têm acumulado.

 

- Para si, qual a chave para mudar a educação em Portugal?

É difícil pensar numa chave que possa mudar um processo tão longo e complexo como a educação. No entanto, há uma série de pequenos passos que podem, seguramente, ajudar a que esse processo se torne num investimento colectivo e socialmente bem sucedido. Portugal tem vivido, nos últimos anos, na preocupação de encontrar o modelo educativo ideal; a procura em si é positiva, mas tem sido baseada em cópias de modelos estrangeiros que funcionam bem nos ditos países, mas que não têm em conta as particularidades históricas e sociais do nosso país.

A educação deve englobar não só o conhecimento adquirido nas aulas de diversas disciplinas, mas também a sensibilização para a cultura, para os deveres cívicos e para o respeito pelo mundo em geral.

Diz-se que os nossos alunos sabem cada vez menos coisas, no entanto, eles são capazes de conversar, enviar um sms e desenhar ou desempenhar outra tarefa ao mesmo tempo. Diz-se que não sabem escrever e que dão cada vez mais erros ortográficos, o que é verdade, mas o facto é que eles percebem a “nossa” linguagem, mas nós temos uma certa dificuldade em perceber a deles.

O que falta em Portugal é um trabalho conjunto entre diversos tipos de instituições na construção da educação, por exemplo, uma maior abertura cultural (nomeadamente nos preços dos espectáculos) para que os jovens possam ir ao teatro, à ópera ou a um concerto. A sensibilidade cultural proporciona aos jovens uma maior abertura de espírito. Por outro lado, os jovens e a escola estão afastados do quotidiano. Por que não pensar em proporcionar aos alunos mini-estágios (de três ou quatro semanas anuais) em diversos tipos de empregos? Integrar os jovens na sociedade engloba também conhecer melhor o mundo de hoje e o próprio quotidiano dos jovens. Aprender a conhecer o público que frequenta as escolas é a melhor forma para se desenvolverem projectos educativos de sucesso e, sobretudo, que resultem no bem-estar e na realização de todos, sem preocupações estatísticas...

 

- Qual o papel reservado aos professores nessa mudança?

Para não tornar estes objectivos demasiado utópicos, todos temos um papel imprescindível. Ao assumirmos o desejo de educar não podemos esquecer que o saber disciplinar representa apenas uma pequena parte do conhecimento humano. É por isso que os professores devem ir ao encontro dos alunos e estabelecer na aula momentos de transmissão de conhecimentos e momentos de partilha de informação, porque os alunos também têm uma palavra a dizer sobre o mundo em que vivemos e sobre a sua própria educação.

Como professores estamos conscientes desta necessidade, mas os programas e as normas ministeriais programáticas impedem frequentemente este percurso escolar construído e responsável, prescrevendo percursos pré-definidos e pouco adaptados à escola de hoje.

Continuo, no entanto, bastante optimista quanto à força de vontade dos professores e dos alunos em construírem juntos o percurso escolar que mais se adapta às necessidades locais, integrando os programas e dinamizando actividades paralelas que possam enriquecer a aprendizagem.

 

- O que guarda como melhor para a vida ou mais gratificante na lembrança do seu percurso escolar?

Os professores que conheci e os ensinamentos que me transmitiram, assim como as amizades que estabeleci ao longo do percurso. Permito-me destacar a minha professora primária que sempre admirei e que foi muito importante no meu percurso e na minha escolha profissional e o professor de História e grande amigo, professor Vasconcelos, que doseava na perfeição a pedagogia e a construção do conhecimento e que nos incutiu o sentido de camaradagem e solidariedade.

 

- Como compara a Escola de hoje com a do seu tempo?

Eu diria que a Escola de hoje é ainda a Escola do meu tempo, saí do circuito escolar há poucos anos e considero que não é melhor nem pior do que a Escola dos meus pais ou de outras pessoas que fui conhecendo. A maior diferença é que a Escola até aos anos 80/90 se ocupava dos conteúdos e a Escola do século XXI tem, para além dos conteúdos, de se ocupar da gestão de novas tecnologias e de aprender a integrar esses novos instrumentos que mudam e se aperfeiçoam a cada dois, três meses e aos quais os alunos estão mais habituados do que os próprios professores.

Actualmente há, também, uma maior facilidade no acesso ao conhecimento proporcionada pela internet, pelo maior número de editores e de programas culturais.

No entanto, a Escola de hoje não tem conseguido acompanhar o ritmo e a evolução na transmissão dos conhecimentos o que faz com que a internet, o MP4 ou até o Iphone não vejam reconhecido o seu devido valor e sejam considerados como obstáculos ou pior como os culpados do insucesso escolar!

 

- Que conselho daria aos alunos de hoje? E aos professores?

O conselho que dou aos meus alunos frequentemente é o de encararem a escola de forma responsável e construtiva, porque eles podem mudá-la. Ser dedicado, perseverante e participativo é uma forma de estar integrado na Escola e de participar lado a lado com os professores na construção de percursos educativos mais interessantes e dinâmicos.

Em relação aos colegas, o conselho que me parece mais pertinente vem ao encontro do que dou aos alunos. Construir percursos educativos alternativos tendo em conta a necessidade do público e procurando integrar a sociedade actual nesse percurso, responsabilizando os alunos pela construção da educação é uma tarefa de todos os que desejam participar activamente deste processo.

 

- Qual a disciplina de que gostou mais?

Tenho alguma dificuldade em eleger apenas uma disciplina. Sempre gostei muito de Português, de História e do estudo de línguas estrangeiras.

 

- Quando passou pela Escola, era um(a) bom (boa) aluno (a)?

Sim, era uma excelente aluna, dedicada, motivada e participativa.

 

- O que será hoje um bom aluno?

Um bom aluno é sempre aquele que se dedica a enriquecer o seu percurso escolar não só com os conhecimentos dos livros, mas também intervindo no meio em que o rodeia, participando e propondo projectos e ajudando os colegas a serem também bem sucedidos.


 


 

 



publicado por Correio da Educação às 13:27
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

5 comentários:
De Branco a 17 de Dezembro de 2009 às 18:04
Lamento constatar o seguinte:
- ao proferir a afirmação "a Escola de hoje não tem conseguido acompanhar o ritmo e a evolução na transmissão dos conhecimentos o que faz com que a internet, o MP4 ou até o Iphone não vejam reconhecido o seu devido valor e sejam considerados como obstáculos ou pior como os culpados do insucesso escolar!", a Vânia Cecília Almeida Rego parece estar completamente alheada da realidade das escolas portuguesas. Estes "objectos" de que fala podem não ser os culpados do insucesso escolar mas são, certamente, um dos seus grandes obstáculos.
- ao ler a afirmação, "Construir percursos educativos alternativos tendo em conta a necessidade do público e procurando integrar a sociedade actual nesse percurso, responsabilizando os alunos pela construção da educação é uma tarefa de todos os que desejam participar activamente deste processo." Pergunto se a professora saberá qual é exactamente. Enfim... Parece que a senhora não sabe muito bem do que fala.


De Nuno a 10 de Janeiro de 2010 às 17:35
Em primeiro lugar quero felicitar a Vânia por ser mais um português com sucesso e a dar cartas fora do país!
De resto, gostei de ler as suas ideias inovadoras e que revelam alguma inconformidade com o que se passa ao nível da educação/política deste país!

Passo a comentar os seguintes pontos:
> "(...) mas tem sido baseada em cópias de modelos estrangeiros que funcionam bem nos ditos países, mas que não têm em conta as particularidades históricas e sociais do nosso país." -- Concordo 100% com esta afirmação. Senti bem de perto a mudança que se instalou em certos pontos da educação em Portugal com a entrada em vigor do processo de Bolonha. Falo por exemplo da facilidade com que agora se consegue obter o grau de mestre. É impressionante! A célebre expressão popular "Nem todos podem ser doutores" acho que começa a perder a sua força ou pelo menos o seu sentido!

> Já em relação ao comentário sobre a maneira como as crianças e jovens escrevem, não concordo tanto! Acho que havendo uma linguagem mãe há que a respeitar! E por certo a Vânia concordará comigo, não fosse ela uma professora em Português! Neste caso não basta que os jovens conheçam a linguagem, mas sim que a usem também, já que é a peça fundamental para se estabelecer comunicação com qualquer pessoa nova ou velha!

> Incutir nos jovens uma mente orientada à cultura seria uma mais valia. Estou certo que é algo que agrada a todos, e o governo tem proporcionado isso em certo modo. No entanto, os preços das entradas para cinemas, teatros, óperas e outros eventos, não está de acordo com a necessidade/possibilidade dos estudantes!

> Em relação ao comentário anterior, o utilizador "Branco", pode até ter razão em dizer que aqueles objectos são grande motivo de distracção por parte dos alunos e que não ajudam no sucesso escolar!
Mas eu vejo isto sobre outro prisma: acho que o insucesso escolar, cuja culpa é atribuída a estes instrumentos, acontece pelo facto de o ensino estar ainda tão retrogrado que não tem capacidade de acompanhar as evoluções da tecnologia.
Se são esses os meios que cativam a atenção dos alunos, então tem que se mudar o ensino para puderem ser usados na educação.
Já se têm dado alguns passos nesse sentido com plataformas e-learning ou iniciativas como e-escolas, mas ainda não é o suficiente!
Em suma, há que tirar partido daquilo que as pessoas gostam para as cativar a fazer aquilo que não gostam.
Portanto, não me parece que a Vânia esteja errada em fazer tal comentário. A meu ver, a educação é que se deveria adaptar... nada deve manter-se fixo neste mundo!

Ao contrário do comentário anterior, parece-me que a visão da Professora Vânia, é global, actual e bem encaminhada para o futuro!


De cheap phones a 21 de Fevereiro de 2013 às 00:46
I live and work in Shenzhen, when it came to buying a cheap phones my friend told me they are much cheaper in Hong Kong... is this ...


De rolex replica a 29 de Outubro de 2016 às 04:27
You make it entertaining and you still manage to keep it smart.


De breitling replica a 29 de Outubro de 2016 às 04:28
I cant wait to read more from you. This is really a great blog.


Comentar post

CONTACTOS

ce@asa.leya.com
pesquisa
 
Correio Disciplinar
Ciências Sociais e Humanas
Línguas e Literaturas
Ciências Exatas e Experimentais
Expressões
Escola em destaque
Escola Secundária Alcaides de Faria
Agenda


arquivo
Ligações
Parceiros
subscrever feeds