12-01

O mês de Outubro acordou com uma notícia que regozijou todos os portugueses: o Brasil foi escolhido para organizar os Jogos Olímpicos de 2016. Foi um sonho antigo tornado realidade, para este país, para a América do Sul e, creio eu, para os portugueses.

 

Lembro-me de, em criança, torcer pela selecção brasileira nos mundiais de futebol, que merecia o meu apreço e simpatia pela agilidade com que os seus jogadores lançavam a bola para o fundo das redes adversárias. As camisolas amarelas sugeriam o sol numa Primavera verde, o campo, tão verde que ofuscava. Lembro-me de torcer por Airton Sena na Fórmula 1, cujas vitórias alegravam os meus Domingos à tarde e os da minha família, mesmo em tempo de Inverno. Todos acompanhávamos as provas com entusiasmo e simpatia e, dada a falta de piloto português, a crença residia no brasileiro. Parece que estou a recordar apenas momentos que se opõem tanto no tempo como no espaço, que evocam ora o calor morno mas goleador da Primavera, ora o frio imponente das corridas do Inverno. Mas, vamos ao Outono.

No passado dia cinco deste mês de Outubro, três dias depois de se anunciar o país escolhido para os Jogos Olímpicos de 2016, encontrávamo-nos nós, portugueses, angustiados pela forma como a Implantação da República estava ou não estava a ser festejada pelos nossos governantes, quando foi hasteada a bandeira olímpica, reconhecida por todos pelos seus cinco aros, no Rio de Janeiro. A alegria foi imensa entre os brasileiros, num país onde se procura o desenvolvimento e o progresso e onde os níveis de iliteracia e de pobreza são preocupantes. Mas, o levar o mundo a centrar a sua atenção na América do Sul, no Brasil e no Rio de Janeiro constituiu um forte impulso para esse desenvolvimento e progresso tão ansiados. E o português voltou a torcer pelo seu irmão, distante no espaço mas tão próximo na vida e na História.

Todos os dias o português da Europa se cruza com o português do Brasil: nos supermercados, quando necessita de alguma informação e a pede; nas bombas de gasolina, ao dirigir-se à caixa de pagamento; nos hotéis, quando lhe ouve a voz que anima as tardes solarengas dos banhistas das piscinas; nos balcões das lojas, quando pretende ser atendido; em centros de estética, ao solicitar cuidados estéticos para as mãos e pés; nas obras, quando o vê de pés firmes no andaime a gritar ao colega; na vida…

O português do Brasil, denominado o brasileiro ou a brasileira, tem hábitos, crenças e experiências tão díspares das do português da Europa que faz com que este enriqueça, quando em contacto com ele/ela. É um confluir de forças, permitido pela presença das duas estruturas físicas e psicológicas, com culturas próprias, sem dúvida. Mas é um confluir de forças em presença, sem o vidro permanente do televisor a reflectir uma realidade ilusória – a de que a força do português do Brasil reside apenas no mundo rosa-choque (ou que choca) das telenovelas.

- Você é muito sagaz! – disse-me uma portuguesinha do Brasil um destes dias, portuguesa de língua e brasileira de nacionalidade, recém-chegada, recém-casada, recém-nascida, com os seus parcos vinte e um anos (recém-recém e o seu coração já bate ao ritmo de cerca de dez horas de trabalho diário!).

O elogio que me fez (e entendi-o logo como elogio porque foi acompanhado por um sorriso de orelha a orelha) teve lugar quando a vi pela primeira vez, logo num primeiro contacto, por acaso num gabinete de estética. Sagaz foi o lexema que utilizou. Sabendo nós que a palavra se escreve da mesma maneira em Portugal e no Brasil, segundo os ditames quer do velho Acordo Ortográfico quer do novo Acordo Ortográfico, a questão é tão somente o significado que adquire em contexto, o que vai muito para além da forma gráfica, do desenho, da ortografia, que regista a palavra no papel e neste a faz permanecer horizontalmente, da esquerda para a direita. Diferente é, pois, o confluir de forças em presença, que requer o poder e a pujança da palavra dita, em primeiríssimo lugar, muito distante da técnica de a grafar.

A rapariga brasileira usou-a porque a considerou a palavra certa para o elogio que pretendeu fazer no momento (refiro-me à intenção de comunicação). Devido ao seu baixo nível de escolaridade, suponho que a tenha adquirido em momentos de interacção verbal (ouvindo-a a outros), o que fez com que se apropriasse do seu sentido.

Eu, a interlocutora que a ouviu, atribui-lhe uma significação que possivelmente adquiri por leituras e reflexões mais sistemáticas em torno da língua, uma vez que ela não faz parte do léxico geral de jovens de vinte anos, ou pelo menos não é um lexema recorrente: por um lado, fui capaz de a reconhecer como adjectivo qualificativo ligado ao nome sagacidade, que associo à capacidade de ser perspicaz ou de ter subtileza de inteligência. Sagaz é pois aquele ou aquela que é dotado de subtileza ou agudeza de espírito, que revela finura ou astúcia, sensatez ou ponderação… (Mas seria esta a significação que a rapariga lhe queria dar? Teria de procurar mais provas…); por outro lado, o contexto permitiu-me a apropriação do sentido, pois deu-me indícios de que se tratava de uma qualificação positiva, que foi acompanhada de um sorriso de honestidade e inocência, de um olhar tímido e de uma postura de gratidão, para quem lhe sorri e aprecia a sua simplicidade.

Quem utilizou a palavra conhece-a porque vem de um meio em que ela é recorrente, neste caso na oralidade, não na escrita.

Para tirar a prova dos nove, disse-lhe que sagaz não era uma palavra muito usada pelos jovens, aqui em Portugal, e acrescentei: “Curioso o modo como a usou…”, ao que me disse quase incrédula:

- Sagaz é uma pessoa legal, né? Todo o mundo utiliza ela lá no Brasil! – me disse com orgulho.

         A interacção verbal é um processo complexo que não se esgota numa ortografia. É a língua que aproxima o português do brasileiro. É a língua que desenvolve em ambos um sentimento de partilha, de pertença e de orgulho - o orgulho que se sente quando se vê o hastear da bandeira olímpica num país que fala uma variedade do Português.

Inês Silva - Doutora em Linguística (Sociolinguística). Tem realizado estudos sobre a escrita dos alunos. É autora de várias publicações de carácter didáctico e de carácter linguístico. Na ficção, publicou o romance: A Casa das Heras. É docente no Externato Cooperativo da Benedita.



publicado por Correio da Educação às 11:21
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