20-01

             Carla Marques*

         Numa altura em que vivemos rodeados pelo pragmatismo e pelo imediatismo questionamo-nos muitas vezes sobre a utilidade de certos conhecimentos, cuja aquisição não produz efeitos imediatos e visíveis. Sempre em busca de um ensino de tipo hedonista, muitos alunos reagem de forma diferente a actividades e conteúdos distintos, evidenciando o seu gosto por zonas de aprendizagem associadas ao consumo rápido, à resposta instantânea e manifestando o seu desprezo pelos conhecimentos sem “aplicação ao mundo real”. De forma mais ou menos consciente, o ensino adapta-se em muitas das suas vertentes a esta realidade que nos envolve, relegando para segundo plano a aprendizagem construída a longo prazo, os conhecimentos entrelaçados que resultam do esforço cognitivo e do trabalho pessoal. As manifestações deste novo enquadramento que se vem apoderando do ensino, mudando matrizes de aprendizagem e interferindo directamente nas práticas quotidianas encontram-se um pouco por todo o lado na escola portuguesa. Gostaríamos de destacar hoje a tecnologia.

As escolas têm vindo a apetrechar-se de centenas de quadros interactivos e de projectores, cuja utilização é, não raro, duvidosa. Funcionam muitas vezes como quadro branco de projecção de imagem, exactamente como acontecia com as “velhinhas” telas de projecção. Noutros casos, enchem-se de imagens que terão como intuito motivar os alunos, mas que, em grande maioria, apenas contribuem para uma atitude cognitivamente apática: são bonecos que explicam os mistérios do corpo humano, equações que se completam sozinhas, textos que se lêem a si próprios, exercícios truncados que se auto-corrigem. Os alunos ali ficam como se estivessem a assistir a um programa de televisão ou em frente do ecrã do seu computador. A postura activa e a autonomia coarctam-se.

            Bem sabemos que esta visão do fenómeno tecnológico poderá invocar as posições dos “velhos do Restelo” do ensino, mas também estamos cientes de que muito frequentemente necessitamos de atingir os extremos, tocar o exagero para reencontrar o equilíbrio necessário. Falta construir a ponte entre a inovação e a tradição. E no contexto do ensino há uma realidade que se tem mantido inquestionável ao longo dos séculos: aprender exige esforço e dedicação. A consolidação do saber e o seu aprofundamento alia-se estreitamente ao factor tempo.

            Urge, no actual contexto do ensino, construir um novo paradigma que apague os excessos do presente e recupere as lições do passado. No ensino, as ferramentas tecnológicas nunca poderão ser um fim em si próprias, serão tão-somente um meio. A alienação e a superficialidade que estas introduzem no mundo escolar terão de ser repensadas e todas as suas potencialidades colocadas ao serviço do verdadeiro objectivo de um sistema de ensino: a formação de adultos competentes, conhecedores, capazes de construir o seu saber e de o gerir em função das suas necessidades.

            Enquanto a Escola viver deslumbrada com as luzes do progresso, será este a subjugá-la e não o contrário, como seria conveniente.

 

 *Carla Marques - Mestre em Linguística e doutoranda na mesma área; autora de várias publicações de carácter didáctico e de carácter linguístico: docente na Escola Secundária/3 de Carregal do Sal.

 



publicado por Correio da Educação às 22:08
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