09-02

 

Inês Silva*

  A vida passa sem darmos por ela, mas é nela que traçamos os vários objectivos que pretendemos ver cumpridos. Muitas vezes sem esforço. Muitas vezes sem trabalho. Queremos simplesmente que os objectivos se cumpram para obtermos as classificações que servem de rampa ao mérito, ao escalão acima, ao curso politicamente correcto, ao nível profissional pretendido.

E todos nós sabemos que, salvo o caso dos atletas que têm de dar provas físicas tremendas para conseguir chegar às medalhas, nunca as classificações obtidas por todos os que não o são estiveram tão insufladas como agora. As pautas escolares estão repletas de notas superiores a catorze, número que, há uma ou duas décadas atrás, representava o saber quase máximo manifestado por um aluno dedicado.

 

 

A avaliação depende de muitos factores e, quer queiramos quer não, é sempre pautada por uma boa dose de subjectividade, que deriva dos conhecimentos e interesses do avaliador. Por vezes, quando as classificações altas são solicitadas e exigidas por um grande número de agentes da nossa sociedade, quase não dando margem ao avaliador para contrariar o expectável (se o fizer, é o culpado dos maus ou falsos resultados), quem avalia faz por vezes uso dessa subjectividade para respeitar as metas de quem está do lado da maioria, evitando proceder a uma efectiva avaliação de competências. Esta exige a consciencialização, por parte do avaliado, do que foi o processo de que foi agente, radicada na medição da qualidade das aprendizagens que realizou, mesmo que essa avaliação não surja a posteriori representada num simples registo numérico ou outro. Os resultados hão-de surgir, transformados em saberes, valores e acções. Não é necessário que sejam sempre medíveis matematicamente, para constarem duma qualquer pauta a afixar.

Assim sendo, cada vez mais os sujeitos aprendentes procuram obter classificações que dêem conta do resultado do processo de que se sentem protagonistas, sem o serem. Explicando melhor: habituaram-se à pertinência do resultado obtido, traduzido numa mera classificação alta, de preferência, mesmo que esta não reflicta o que efectivamente se aprendeu/fez durante o processo. Esta realidade tem-se manifestado na substituição clara, ocorrida nos últimos tempos, da pergunta “O que aprendeste/fizeste?” pela interrogação perspicaz e interesseira “Que nota obtiveste?”.

Corre-se, pois, hoje em dia, atrás dos bons resultados e, consequentemente, dos quadros de mérito e do destaque nas pautas. É frequente o aluno perguntar ao professor: este trabalho conta para nota?

- Não, não conta. Serve apenas para que desenvolvas a tua capacidade de escrita.

- E desconta, se não o fizermos?

- Não, não desconta…

- Está bem! (Então não faço! – pensou.)

A preocupação pelas classificações e o descurar do processo de aprendizagem, que inclui o reforço de competências e aquisição de valores, úteis em situações futuras de trabalho efectivo (escolar ou não) e na resolução de problemas de vária ordem, são dois fenómenos enraizados numa sociedade competitiva que não se preocupa com o fazer bem e cada vez melhor para uma sociedade bem construída, mas sim com o fazer para adquirir algo imediato para cada indivíduo.

A contrariar estas avaliações, classificações e medições, que em nada contribuem para a formação intelectual e cívica de um sujeito, que se quer consciente da sua formação e ciente dos mais preciosos valores, surge uma outra realidade, destacada na edição do semanário Sol, de 18 de Dezembro de 2009:

  

 A escola das diferenças

 

O primeiro período escolar está a acabar mas na Escola da Ponte não há classificações. O dia-a-dia num estabelecimento sem turmas, onde alunos dos 6 aos 15 anos aprendem ao seu ritmo, perguntam, pesquisam e entreajudam-se.

 

 

A reportagem em causa destaca a “ponte” existente entre o avaliador e o avaliado. O aluno avaliado é acima de tudo o seu próprio avaliador, uma vez que antes do final de cada dia de aulas cumpre o ritual de fazer a auto-avaliação do seu desempenho, face ao plano de trabalho traçado (objectivos e assuntos que terá de pesquisar). Ao longo do dia, trabalha no seu próprio ritmo mas sempre em equipa. E quando se sente preparado, solicita a avaliação, cuja classificação traduz com certeza a efectiva aprendizagem, uma vez que, antes de pedir para ser avaliado, tem de perceber se efectivamente fez bem o que planeou fazer e se soube estar em equipa. No fundo, toma consciência se, de facto, sabe trabalhar autonomamente na e para a sociedade a que pertence. O indivíduo não trabalha para si nem tem como objectivo máximo ver a sua nota destacada numa pauta afixada porque as boas notas só são conseguidas se ele revelar capacidades para trabalhar em equipa. Aliás, apenas os pais têm acesso às classificações. Assim sendo, a escola das diferenças promove as boas notas como mérito de um trabalho colectivo, nunca somente individual.

Nas outras escolas, as que não fazem a “ponte” entre o avaliador e o avaliado, é muito difícil separar o processo do resultado final e, por isso, o primeiro é esquecido e o segundo sobrevalorizamos, negociado e exigido. Caso idêntico é o de alguém que diz a outro: “Amo-te”. Classificou confortavelmente o seu sentimento com uma boa nota, sem olhar para o processo, que é bem mais difícil e trabalhoso: mostrar todos os dias e a todas as horas que o ama, através de acções, valores e saberes, partindo, se for preciso, de um plano. Manifestar o amor é muito difícil e exige um desenvolvimento intelectual e afectivo imenso, que só as escolas das diferenças são capazes de desenvolver. Sem avaliações, classificações ou medições.

 

*Inês Silva - Doutora em Linguística (Sociolinguística). Tem realizado estudos sobre a escrita dos alunos. É autora de várias publicações de carácter didáctico e de carácter linguístico. Na ficção, publicou o romance: A Casa das Heras. É docente no Externato Cooperativo da Benedita.



publicado por Correio da Educação às 13:07
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