18-02

Inês Silva*


            Fechámos 2009 e abrimos 2010 a falar em solidariedade, o que se opõe a egoísmo ou mesmo a individualismo. O ser humano, na qualidade de solidário, assume-se como um indivíduo que, sem ser individualista, atende às diferenças de outro indivíduo, considera-o diferente e actua no sentido de esbater a diferenciação. É de louvar o indivíduo nesta sua luta de promover a generalização de condições de vida dos outros. É de tomar como exemplo o ser único que promove o colectivo.

          Neste fim de ano, as acções sociais de ajuda ao outro multiplicaram-se e foram vários os testemunhos de entreajuda, que incluíram não só grandes projectos (o Banco Alimentar, por exemplo), como pequenos/grandes gestos de grupos díspares e diferenciados, que distribuíram, depois de recolhidos, bens essenciais e brinquedos por camadas sociais desfavorecidas.

Esta acção solidária é, de certa forma, solitária. Cabe a cada um dos cidadãos fazer uma escolha: a de recolher e a de dar. É uma acção individual que parte de quem não pode integrar-se num conjunto sem deixar de ser o que é, ou seja, parte da pessoa enquanto ser humano “separado” do restante, com características particulares, mas que é o que é em função dos outros e da sociedade que integra. O indivíduo pode ser então definido como “ser humano com características particulares, diferente do grupo ou colectividade a que pertence mas promotor da generalização”.

É este o indivíduo que tem sido descurado pelo Estado de direito democrático em que vivemos. E não nos podemos esquecer que é o Estado que deveria assegurar a igualdade de direitos e deveres de todos os cidadãos, isto é, de todos os indivíduos.

A nossa sociedade é composta por indivíduos e por individualistas. Dos primeiros a sociedade espera o cumprimento dos deveres (como os de solidariedade) e aos segundos atribui-lhes os direitos, incluindo o de dar uma esmolinha, que longe está de ser uma acção de solidariedade.

Ser individualista é o mesmo que ser egoísta. É aquele que põe os problemas secundários da sociedade acima dos primários; é aquele que procura obter vantagens da esmola que dá; é o que se aproveita do próprio Estado; é o que se afasta dos problemas dos outros porque pensa não lhe dizerem respeito…

Os individualistas estão em todo o lado, o seu território está cada vez mais marcado, e o Estado, ao procurar apenas resolver questões que dizem respeito a todos, acaba por não ter em conta a sua acção individualista, não percebendo onde estão, o que fazem nem por onde vão. O Estado limita-se a programar uma acção governativa que abranja todos e não cada indivíduo na sua vida própria. Olhar para todos, como se de uma massa humana se tratasse, significa não olhar para ninguém, porque desta forma não se procura uma acção que melhore a condição de vida dos indivíduos como seres humanos particulares. E enquanto o Estado se vai entretendo com os grupos, colectividades, famílias como conjunto indefinível e indivisível, acaba por deixar de parte o pai, a mãe, o aluno, o pobre, o desempregado, a criança, o doente, a vítima…

Talvez se possa passar a um exemplo: quando se fala em estado civil, fala-se em quatro estados civis: solteiro, casado, divorciado e viúvo. Tem-se, pois, vivido numa época em que a discussão sobre o casamento entre homossexuais assume contornos muito particulares porque se circunscreve ao estado civil do casado, como no ano passado assumiu em relação ao do divorciado. No próximo ano poderá ser o do viúvo, quem sabe. Todo o debate social, em torno da condição que atesta a existência ou não da condição matrimonial, é pertinente e fundamental. Mas deveria ser acompanhado de um outro, quanto a mim mais central: o das condições de vida a cada um dos solteiros (repare-se na expressão “cada um dos”); o apoio social dado ao viúvo e à viúva; a responsabilização atribuída a cada um dos cônjuges de um casal e a exigência cívica que lhe é (ou não) feita, etc.

Estou a falar da criança, de cada criança, e do adulto, de cada adulto, independentemente do seu estado civil. Cada indivíduo merece que o Estado o respeite e entenda como único, e que atenda aos seus direitos. E um indivíduo que sinta estes salvaguardados é um cidadão que procurará acima de tudo cumprir os seus deveres.

As pessoas devem ter liberdade para decidir o seu estado civil, mas depois de verem salvaguardados os direitos de que são merecedores e depois de cumprirem com os seus deveres. Contudo, sabe-se que tal é muito difícil e não se pode pedir tanto ao Estado, numa sociedade dita “facilitista”, em que é mais fácil ignorar os indivíduos e mascarar os individualistas.

 

*Inês Silva - Doutora em Linguística (Sociolinguística). Tem realizado estudos sobre a escrita dos alunos. É autora de várias publicações de carácter didáctico e de carácter linguístico. Na ficção, publicou o romance: A Casa das Heras. É docente no Externato Cooperativo da Benedita.

 


 



publicado por Correio da Educação às 12:09
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