15-04

1. O Portugal de 1910 – Algumas realidades para nos darem uma imagem do tempo: Cinco milhões de habitantes, seis em cada dez eram agricultores, com cerca de 80% de analfabetos. Era o tempo de uma sardinha para quatro, à refeição familiar.

Publicavam-se cerca de 500 jornais: se era a média dos países europeus, a sua tiragem era muito inferior. O comboio, Lisboa/Porto, levava 12 horas, a cavalo eram necessários três dias, e, de carro, ia-se a uma velocidade de 20/30 Km/h.

Havia 30 telefones no país, e um cinema em Lisboa; as casas, mesmo nas cidades, não tinham saneamento nem água. O descanso semanal havia chegado em 1907.

2. Três ideias mobilizadores – estas são devedoras da conferência do Prof. Doutor Amadeu Carvalho Homem (FLUC), no dia 30 de Janeiro pp., no Ateneu Comercial do Porto, no início das Comemorações do Centenário da República.

a) Democracia universal – Na monarquia constitucional não havia voto universal. Ela tinha um voto censitário, isto é, baseado no imposto chamado censo, que se pagava ao Estado. Era em função do censo que se dava o direito de votar e de ser eleito àqueles que atingissem certos montantes.

Os cidadãos, com os correspondentes direitos cívicos, dividiam-se, assim, em duas categorias: os activos e os passivos. O direito de voto alcançava-se atingido o censo: era, assim, uma questão de propriedade. Deste modo, os condutores do país formavam uma oligarquia de terratenentes.

Ora a República sempre reivindicou o sufrágio universal, com limitações, é verdade, pois era masculino. Todavia, tenha-se presente que tal limitação estendia-se a toda a Europa. A conquista dos direitos pelas mulheres é lenta e estende-se a todo o Ocidente.

b) Laicismo – Até à República, as votações eram feitas no interior das igrejas e aos domingos. A montagem da máquina eleitoral, alicerçada num conjunto de notáveis ou caciques, está bem documentada em escritores como Eça e Camilo, segundo os quais, esses senhores levavam os rurais “pela arreata”. As eleições na monarquia estão bem caricaturadas por Bordalo Pinheiro, no prato “carneiro com batatas do Senhor Fontes Pereira de Melo”.

Havia uma religião oficial, a Católica, Apostólica, Romana. Ora o republicanismo não tomava posição perante as crenças, mas reivindicava a neutralidade do Estado. É que este tem de representar a totalidade dos cidadãos. Por isso, as escolas confessionais devem existir, mas não têm de ser subsidiadas.

c) Cultura popular e educação – Na Monarquia, a alfabetização era fraquíssima e depositada, patrocinada, sobretudo, por sacerdotes, com destaque para os jesuítas, de entre as outras ordens.

A República pretendia alterar essa situação, a qual, até pela sua ineficácia e insucesso, era um escândalo. Na verdade, a Monarquia constitucional, entre 1836 e 1910, mantém o analfabetismo em mais de 80% da população, no que chama Instrução Pública. Tenha-se presente que a França havia eliminado, praticamente, o analfabetismo em 1882, com Jules Ferre. Conhece-se quanto o republicanismo apostou no ensino popular.

 

3. Como perspectivar a República futura?

i) O sufrágio que seja universal, que seja uma manifestação de confiança entre eleitores e eleitos; que seja um voto livre e informado; que se caminhe para o voto uninominal.

ii) A liberdade religiosa que prepondere, mas num estado neutral.

iii) No problema da alfabetização, que a preparação dos alunos aumente. Há que exigir responsabilidade às famílias; que o aprofundamento cívico seja proporcional ao cultural, tanto nas escolas com nos media.

iv) Temos o direito de exigir uma elevadíssima acção de serviço público aos agentes da governação do Estado. Devem estar ao serviço dos portugueses. Está nas nossas mãos exigir a qualidade das políticas: há que intervir.

J. Esteves Rei - Professor Catedrático de Didáctica das Línguas e de Comunicação, na UTAD, Vila Real



publicado por Correio da Educação às 23:23
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7 comentários:
De Jorge Moniz Ribeiro a 22 de Abril de 2010 às 22:58
Comemorar a "República" porquê? Ideais de quem?
Foi a esta república que nos trouxe o que não havia em 1910 ou foram os anos inevitavelmente?
O que nos trouxe efectivamente este infame e infeliz regime implantado (de que forma e com que custos) a 5 de Outubro de 1910? Quase tanto como o Tribunal do Santo Ofício! O 25 de Abril aconteceria em qualquer regime e o progresso também.
A 5 de Outubro deveríamos comemorar, isso sim, o aniversário do reconhecimento da soberania de Portugal a 5 de Outubro de 1143.
República com um presidente que só aprende, em regra, a ser Chefe de Estado quando está quase a terminar o seu segundo mandato? Um presidente eleito sim, mas imposto na prática pelos partidos políticos (que já deveriam ter vergonha da figura que têm feito nos últimos anos).
Do nosso Rei, e de tudo o que ele representa, é que nós precisamos. E gastaríamos muito menos dinheiro a curto e longo prazo. E seríamos de novo um Povo com consciência de nação, das mais antigas do Mundo e a mais antiga da Europa.
De que é que têm medo? Porque não um referendo ao Povo Português?
Dos cerca de dez milhões quantos sabem ou sentem o que deveria ser republicano?
Foi esta recente república que fez com que o Estado deixasse de ser "pessoa de bem".
Já chega de brincadeira e já chega o meu texto, embora pudesse continuar a escrever, dias a fio, sobre este assunto.


De Luzia Mota a 24 de Abril de 2010 às 23:22
Gostaria de aqui deixar a minha total concordância consigo. Penso que, ao comemorarmos o centenário da República, deveríamos reflectir sobre se os fins (a República) justificaram os meios (o vergonhoso regicídio de 1908). Os portugueses devem repensar, muito bem, se o nosso actual regime político é sustentável???Podemos nós continuar a manter toda uma máquina política corrupta, viciada e obsoleta ????
A classe média em Portugal está a ser esmagada, enquanto a classe pobre e rica continuam cada vez mais distantes. E é isto que os portugueses querem continuar a ter???
Não estará no momento exacto de fazermos outra vez história em Portugal? Ao fim de um século de Implantação de República mais valia acabar com ela !!!
Faço aqui um apelo: para que aqueles que pensam e concordam com estas ideias não se calem, por favor!
Inteligentes foram aqueles países que, tal como os "nossos irmãos" espanhóis não derrubaram as suas famílias reais.
Saudações monárquicas e viva o nosso Rei!


De Jorge Henrique Moniz Ribeiro a 25 de Abril de 2010 às 00:00
Obrigado pelo seu comentário.
Saudações monárquicas.
Viva o nosso Rei (que AINDA não é Chefe do Estado...)


De Jorge Moniz Ribeiro a 22 de Abril de 2010 às 23:07
Saudações monárquicas e VIVA o nosso Rei que AINDA não é Chefe de Estado!!!


De Jorge Henrique Moniz Ribeiro a 25 de Abril de 2010 às 00:10
Porque é que o autor do artigo não se pronuncia acerca dos comentários?
É antimonárquico (nova ortografia)? Porque não diz porquê?
Sinceramente gostaria de o ler sobre uma Monarquia para Portugal.
Cumprimentos democráticos

«está de novo lançado um repto aos monárquicos, todos aqueles que militam nos partidos e aos que, fora deles, têm capacidade de fazer pressão sobre os partidos e deputados e fazer ouvir a sua voz por qualquer meio. A alteração da alínea b) do artigo 288º, que estabelece os limites materiais da revisão – obrigando à “forma republicana de governo” – será mais uma vez uma batalha a travar. Porque o que todos os verdadeiros democratas desejam é que possa ser alterada para “forma democrática de governo” e que seja deixada ao povo soberano a possibilidade de decidir.» (João Mattos e Silva
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Porque é que o autor do artigo não se pronuncia acerca dos comentários? <BR>É antimonárquico (nova ortografia)? Porque não diz porquê? <BR>Sinceramente gostaria de o ler sobre uma Monarquia para Portugal. <BR>Cumprimentos democráticos <BR><BR>«está de novo lançado um repto aos monárquicos, todos aqueles que militam nos partidos e aos que, fora deles, têm capacidade de fazer pressão sobre os partidos e deputados e fazer ouvir a sua voz por qualquer meio. A alteração da alínea b) do artigo 288º, que estabelece os limites materiais da revisão – obrigando à “forma republicana de governo” – será mais uma vez uma batalha a travar. Porque o que todos os verdadeiros democratas desejam é que possa ser alterada para “forma democrática de governo” e que seja deixada ao povo soberano a possibilidade de decidir.» (João Mattos e Silva <BR class=incorrect name="incorrect" <a>in</A> Diário Digital)


De Jorge Henrique Moniz Ribeiro a 25 de Abril de 2010 às 00:12
O texto que citei no "post" anterior é de
João Mattos e Silva
in Diário Digital


De replica handbags uk a 30 de Outubro de 2015 às 14:24
De isabel fernandes a 4 de Novembro de 2012 às 06:14. Bom dia


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