16-04

Carla Marques*


Estou cansado, é claro,

Porque, a certa altura,

a gente tem que estar cansado.

De que estou cansado, não sei:

De nada me serviria sabê-lo,

Pois o cansaço fica na mesma.

A ferida dói como dói

E não em função da causa que a produziu.

Sim, estou cansado,

E um pouco sorridente

De o cansaço ser só isto

— Uma vontade de sono no corpo,

Um desejo de não pensar na alma,

E por cima de tudo uma transparência lúcida

Do entendimento retrospectivo...

E a luxúria única de não ter já esperanças?

Sou inteligente; eis tudo.

Tenho visto muito e entendido muito

o que tenho visto,

E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,

Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

Álvaro de Campos, in "Poemas"

 

 

Se por esta altura entrarmos numa sala de professores de qualquer escola do país, este será o ambiente que paira no ar… Cansaço.

Num passado ainda demasiado recente, os professores uniram-se, transformaram-se diversidade, diferenças, incompatibilidades numa manta de retalhos que se uniu e que lhes deu a agradável sensação de união e força. E assim foram, gritaram o seu direito de ser professores nas ruas e nos caminhos virtuais. Moviam-nos as vozes que teimavam em anular uma classe, as intermináveis reuniões improváveis, a degradação do ambiente da escola, a luta pela qualidade de um ensino que viam decair a cada portaria, a cada decreto. Uniram-se porque pressentiram o fumo da injustiça moldado por uma avaliaçã o do desempenho que sabiam não poder ser justa, rigorosa ou verdadeira.

Os professores uniram-se fora da escola e procuraram dar as mãos dentro da escola, mas o inesperado que trouxe a união veio a par com sentimentos esparsos que espartilharam o ambiente do local de trabalho. Alguns viram que a união era débil. Alguns estavam lá porque não queriam ser avaliados por nenhum modelo. Outros estavam lá porque era politicamente correcto. Outros porque sim. Outros porque acreditavam plenamente. Outros porque reviviam outras revoluções passadas. Ao mesmo tempo, sentiram-se as pressões do poder, nacional e local, pressentiram-se os aproveitamentos que a situação favorecia. Alguns ergueram-se em bicos de pés no cimo da sua “titularidade”, outros aproveitaram para brilhar, mostrando pela primeira vez a sua “excelência”, outros ainda recusaram-se a jogar o jogo… e nuvens de mal-estar foram surgindo, incompatibilidades nascendo, amarguras implodindo…

Hoje, depois de muito ver e de muito entender, os professores sentem-se sobretudo cansados. O pico da emoção esgo tou-os, o desviar da atenção para fora da missão de ensinar agastou-os, a imposição da burocracia desmobilizou-os. Cansados, tão cansados.

Agora que o turbilhão passou, o que ficou? Muitas das coisas contra as quais lutaram parece que ficam, outras talvez não, novas adversidades avizinham-se… mas e o ambiente da escola? Esse não se muda por leis nem por decretos. Esse vai ter de ser reconstruído todos os dias. O trabalho em conjunto, a partilha, a crença no projecto colectivo que é ensinar poderão vingar num sistema que estimula o individual? Teremos direito a trabalhar num local onde gostamos de estar, onde nos sentimos bem? Poderemos ter colegas de trabalho ou teremos de ter concorrentes ao nosso posto? A competição em surdina vingará? Ou a vontade de não ser esmagado será mais forte? Humanismo ou pragmatismo?

Está feliz? Não, estou cansado, muito… tão cansado. Farto!

E a qualidade de ensino fica onde? Alguém se lembra dela? Será possível conseguir esquecer que as escolas são locais onde se ensina, que os professores querem ensinar e que os alunos devem querer aprender? Parece simples, não é?

*Carla Marques - Mestre em Linguística e doutoranda na mesma área; autora de várias publicações de carácter didáctico e de carácter linguístico: docente na Escola Secundária/3 de Carregal do Sal.



publicado por Correio da Educação às 00:34
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