16-04

Maia, 31/05/1885 – Porto, 04/03/1932

 

No dia 23 de Junho de 1910, aos 25 anos de idade, tendo no júri Adolfo Coelho, conclui o Curso de Habilitação para o Magistério Secundário em Matemáticas, Ciências Físico-Químicas e Histórico-Naturais e Desenho. O ensino será a actividade que, nas suas palavras, "desempenhará com maior paixão". Inicia a actividade docente no ano lectivo de 1910-1911 no Liceu Rodrigues de Feitas (Porto). Em 1913-1914 será professor efectivo do 8.º Grupo no Liceu Camilo Castelo Branco (Vila Real). Em 1915-1916 será transferido para o Liceu Feminino do Porto, onde exerceu funções de bibliotecário (1915 a 1918), reitor interino (1916 a 1918) e reitor efectivo de (1918 a 1926). Em Outubro de 1926 regressa ao Liceu Rodrigues de Freitas.

Entretanto, em 1919, havia entrado para o corpo docente do Instituto Superior do Comércio do Porto como professor ordinário, ministrando, em regime de acumulação, a cadeira de Elementos de Álgebra Superior e Geometria Analítica; em 1927, será nomeado professor catedrático da cadeira Matemáticas Superiores, Álgebra, Princípios de Análise Infinitesimal e Geometria Analítica.

O carácter interventivo da sua natureza levara-o, muito cedo, a integrar o grupo denominado Amigos do ABC, formado por volta de 1908, no Porto, e que se propunha contribuir para a melhoria do estado educacional do país. Mais tarde será um dos fundadores da Renascença Portuguesa (organismo que criará as Universidades Populares), dirigindo durante alguns anos A Águia. Desenvolveu ainda actividade no âmbito editorial tendo organizado a Empresa Industrial Gráfica do Porto e criado as Edições Marânus. Com Pedro Vitorino e Cláudio Basto funda a revista Portucale, a que se encontra ligado até ao fim da vida. Augusto Martins tem uma passagem fugaz pela política como vereador municipal da Câmara do Porto entre os anos de 1923 e 1925. Durante esse período desenvolverá um trabalho digno de registo mormente nos campos da assistência e da educação: reformou o Conservatório de Música; criou a secção feminina do Internato Municipal; concluiu o edifício da secção masculina do mesmo Internato; aumentou a capacidade da Colónia Sanatorial Marítima da Foz do Douro; instalou o Museu Histórico da Cidade e a Biblioteca Pedagógica para professores primários.

Para além de inúmeros manuais escolares, a obra pedagógica de Augusto Martins é composta por um conjunto de escritos que se encontra espalhado pelas publicações periódicas em que colaborou regularmente (p.ex., A Águia, A Vida Portuguesa, Revista dos Liceus, A Tribuna, Portucale). Aborda diversos temas educativos, relacionados em particular com o ensino da Matemática. Reconhece a esta disciplina virtudes especiais, considerando que se deveria reforçar a sua presença nos liceus, em detrimento de outras matérias que poderiam ser de frequência voluntária, como o Canto Coral e a Ginástica, ou abolidas, como os Trabalhos Manuais (1927, pp. 75-79). Desejava que o ensino da Matemática se desenvolvesse, cumprindo fins educativos, aproximando-se dos interesses do aluno e, se necessário fosse, recorrendo a uma linguagem menos hermética:

"Um problema bem posto, quer dizer, um problema cuja necessidade seja atingida pelo aluno, é problema resolvido sem dificuldade e com a certeza de se ter conseguido completamente o fim educativo que se pretende. Eis porque se tem de recorrer mais à terminologia comum do que à própria da Matemática que se pretende ensinar" (1923, p. 16).

Por isso, propunha que se abandonasse um ensino de "cariz abstractizante", insistindo nos exemplos práticos, mas também na importância histórica das descobertas científicas:

"Assim, por exemplo, o problema da numeração que foi, ao mesmo tempo que o da intercomunicação dos homens, dos primeiros que teve de ser resolvido, é dum grande alcance educativo desde que seja acompanhado pela história. Verificar como povos houve que não deram resolução satisfatória do problema, apesar da sua civilização, como o povo romano; verificar como diferentes bases de numeração houve nos diferentes povos, deixando disso vestígios ainda nas línguas actuais, como no francês que ainda se diz quatro vintes em vez de oitenta" (1923, p. 14).

Augusto Martins não tem da Escola apenas a ideia de um espaço de transmissão de saber, mas também de socialização. Isso mesmo afirma quando se refere às muitas festas que promoveu enquanto reitor do Liceu Feminino, dizendo que são uma forma de pôr em contacto professores e alunas, de criar uma familiaridade e uma comunicação mais íntima. A imagem liberal e progressista de Augusto Martins é reforçada se atentarmos na opinião que emite relativamente à co-educação:

"Não há razão séria que justifique os liceus femininos como não há razão séria que não consinta a mulher no ensino secundário, tanto como aluna como no lugar, que legalmente conquistou, de professora" (1927, pp. 102-103).

O matemático e o professor são, pois, as tónicas dominantes da vida de Augusto Martins, que contribuiu, através do seu trabalho e dos seus escritos, para a consolidação do ensino desta disciplina nos liceus portugueses. No momento da sua morte foi-lhe prestada uma sentida homenagem, por populares e por personalidades da vida pública portuguesa, valendo a pena transcrever testemunhos de Alfredo Coelho de Magalhães e de Leonardo Coimbra, respectivamente, que realçam o seu trabalho pedagógico:

"Porque ele era, antes de tudo, um altíssimo carácter, entendia que um dos primeiros deveres do professor é cuidar da formação moral dos seus alunos, despertando-lhes sentimentos de responsabilidade e dignidade; não os colocando nunca numa situação de subserviência, com que ele, estou absolutamente certo disso, jamais transigiria"; "Sem palavras, sim, pois eras um grande intuitivo, vivendo o pensamento antes do discurso, marcando entre os dois a distância enorme da compreensão e da expressão, bem característica da tua personalidade" (cf. Moreira, s/d, pp. 11-13);.

 

Bibliografia

"Ensino Secundário da Matemática", A Águia, vol. I, 1912, pp. 194-197. "Ensino Secundário da Matemática", A Águia, vol. I, 1912, pp. 63-64. "O Ensino Prático e o Ensino Teórico", A Vida Portuguesa, série de artigos publicados em 1912. "Livros de Ensino Matemático", A Vida Portuguesa, vol. I, 1913, pp. 50-51. "Educação e Ensino", A Tribuna, série de artigos entre o n.º 7 e o n.º 48, 1920. "Os Edifícios dos Liceus do Porto", A Tribuna, n.º 148, 10/10/1920. "Os Actuais Programas da Matemática no Ensino Secundário", A Águia, vol. XX, 1921, pp. 19-23. "Educação e Ensino", A Tribuna, série de artigos entre o n.º 219 e o n.º 273, 1921. "Admissão às Escolas Primárias Superiores", A Tribuna, n.º 415, 27-08-1921. "O Ensino Religioso, A Águia, vol. I, 1922, pp. 207-209. "A Liberdade de Ensino", A Tribuna, n.º 546, 02/03/1922. A Matemática, Porto, 1923. Tábuas de Logaritmos, Porto, 1923. Elementos de Aritmética, Porto, 1926. Elementos de Álgebra, Porto, 1926. Liceu Feminino do Porto, Porto, 1926. "Congressos Pedagógicos da Instrução Secundária", Portucale, vol. I, 1928, pp. 159-160. "A Matemática no Actual Ensino Secundário", Portucale, vol. II, 1929, pp. 262-264. A Matemática - Exercícios, Porto, 1931. "Pontos exemplo de Matemática para 1932", Portucale, vol. V, 1932, pp. 34-36.  A Águia. Revista dos Liceus. A Tribuna. A Vida Portuguesa.

Trabalhos sobre o(a) autor(a)

Joaquim Moreira (org.), Personalidade, vida e obra de Augusto Martins, s/l, s/d. Luís Grosso Correia, "Liceu Carolina Michaëlis – Porto", in "Liceus de Portugal", Porto, 2003.

 

« MARTINS, Augusto », Luís Viana, in António Nóvoa (dir.), Dicionário de Educadores Portugueses, Porto, Edições Asa, 2003: 875-877, com adaptações.



publicado por Correio da Educação às 03:01
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