29-04

Paul Driver*

Antes

'NOW, what I want is, Facts. Teach these boys and girls nothing but Facts. Facts alone are wanted in life. Plant nothing else” (...)

 

Estas palavras, pronunciadas pelo mestre-escola Thomas Gradgrind, são extraídas do romance de Charles Dickens, Hard Times, uma história que tem como cenário um distópico norte da Inglaterra industrial de meados do século XIX, contemporâneo da sua escrita em 1854. Esta foi uma época de radical transformação social alimentada por inovações tecnológicas e organizacionais, tensões sociais mal resolvidas e desigualdades no acesso à riqueza e ao poder. Era ainda uma época em que os princípios iluministas do pensamento racional e sistemático e da investigação científica encontravam aplicação prática na mecanização da indústria e na rápida expansão das comunicações ferroviárias e electrónicas.

 

 

Nesse tempo, a educação traduzia-se sobretudo na transmissão de informações factuais. Era direccionada para os conteúdos e centrada no professor. O professor, na posse de todo o conhecimento e sabedoria, procurava depositar informação preciosa nas cabeças vazias e preferencialmente silenciosas, passivas e receptivas dos alunos. Esta informação não era debatida, questionada ou negociada em qualquer circunstância e a própria sala de aula assumia uma organização que reforçava essa rigidez. As salas de aula vitorianas estavam longe de se parecerem com os espaços bem iluminados, coloridos e personalizados favorecidos nas escolas modernas. Eram antes locais despojados e utilitários, ecoando o tamanho, o formato e a “decoração” das fábricas em que os alunos iriam brevemente trabalhar. No entanto, muitas das características que definiam esses espaços sobreviveram a décadas de intervenção, acabando por se tornar tão familiares, que nos passam despercebidas e nem consideramos questioná-las. De facto, se executarmos uma pesquisa de imagens no Google para "sala de aula" e, em seguida, a repetirmos para “sala de aula 1850", verificamos que pouco de essencial parece ter mudado. Na grande maioria dos casos, os estudantes permanecem sentados em filas, posição dissuasora de qualquer interacção comunicativa, enquanto o professor se mantém à frente, como único foco de atenção e fonte de todo o conhecimento. Esta organização espacial assemelha-se à de um teatro ou cinema, no qual o público deve permanecer igualmente passivo.

 

Não é raro o argumento de que a educação mudou pouco nos últimos 150 anos e de que o ensino continua a privilegiar demasiado os conteúdos, permanecendo padronizado e focalizado nos exames, sendo que talvez haja alguma verdade nestas afirmações. No entanto, muitos educadores acreditaram que a revolução informática traria consigo mudanças radicais na maneira como nos relacionamos com a informação, a educação e a aprendizagem. O advento do CD-ROM e, posteriormente, da comercialização e da democratização da internet nos anos 90 reforçou estas previsões e tornou-as mais credíveis. As escolas e as salas de aula das universidades começaram a encher-se de computadores caros, enquanto, simultaneamente, cresciam as esperanças de transformação. O problema dessas tecnologias, porém, residia no facto de a informação e o conhecimento continuarem a fluir numa única direcção, desenvolvendo-se na sua essência, mas não rompendo ainda com o modelo de instrução do século XIX. Se são inegáveis os benefícios trazidos por tecnologias como multimédia, processamento de texto e e-mail, os processos de ensino e de aprendizagem, em última instância, pouco mudaram.

 

Agora

 

Só após o advento da read/write web, ou do que hoje comummente designamos por web 2.0, foi possível reconhecer o verdadeiro potencial educativo das novas ferramentas tecnológicas, que começaria, então, a redefinir as nossos conceitos de conhecimento e de aprendizagem. Os poucos de nós que não estão familiarizados com a terminologia precisam apenas de se reportar à década de 90, quando nos deparávamos com uma internet muito diferente da que temos hoje. Não havia blogs, wikis, podcasts e redes sociais. Não havia YouTube, Twitter, Skype, Google Earth, Second Life, widgets, ou folksonomias. A web era muito limitada em termos de interactividade e a experiência de utilização resumia-se essencialmente à visualização passiva de páginas estáticas. A web 2.0 trouxe uma interactividade potencializada e a possibilidade de os utilizadores facilmente alterarem e manipularem os conteúdos disponíveis, bem como de criarem e partilharem os seus próprios conteúdos.

 

Actualmente existem milhares de aplicações de que os educadores podem usufruir numa grande diversidade de plataformas para envolver e motivar os seus alunos a pensar, criar, relacionar-se, comunicar, colaborar e jogar. Muitas delas são disponibilizadas gratuitamente, de fácil utilização e começam já a produzir algum impacto sobre o ensino e a aprendizagem. Embora não seja recente o uso da tecnologia para apoiar o processo de ensino/aprendizagem tanto em sala de aula, como no ensino à distância, esse apoio verificava-se, na melhor das hipóteses, sob a forma de cursos rigidamente estruturados que imitavam os manuais de curso, e que proporcionavam uma liberdade reduzida quer ao professor, quer ao estudante para adaptarem os materiais às suas próprias necessidades ou aos seus interesses, e, na pior das hipóteses, esse apoio concretizava-se apenas no equivalente electrónico de uma ficha de trabalho, eventualmente com um questionário de escolha múltipla.

 

Contrariamente, a omnipresença das ferramentas da web 2.0 oferece aos educadores a capacidade de seleccionarem e combinarem aquelas que melhor servem as suas necessidades. Estes mecanismos podem ser facilmente montados para se complementarem mutuamente e assim formarem uma rede ad-hoc de ferramentas, que podem apoiar a aprendizagem numa comunidade rica e envolvente, a qual pode ultrapassar os limites das paredes da sala de aula, colmatando o fosso entre as aulas e o estudo em casa, ao mesmo tempo que promove a independência e a autonomia dos estudantes.

* Licenciado em Design pela Universidade de Cardiff e mestre pela Universidade de Bournemouth em Creative Media Practice in Education, dedicando-se à investigação e à integração das novas tecnologias ao serviço da educação, desde que, há uma quinzena de anos, abraçou a carreira de Leitor de Inglês. Desempenha também funções de consultor linguístico e ilustrador para várias instituições, do sector editorial a câmaras municipais, da comunicação interna de empresas a jornais e ministérios.

 



publicado por Correio da Educação às 01:29
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1 comentário:
De assignment help a 15 de Julho de 2016 às 13:35
I've never heard about it either and could really find any info about it. I'd appreciate more details too. Just checking in whether there's a translation.


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