17-05

A herança que não tivemos

 

1. Ouve-se na argumentação política, frequentemente, que os nossos filhos verão o seu futuro hipotecado, atendendo ao elevado montante de dívidas com que o presente os está a sobrecarregar. Seriam as auto-estradas, os hospitais, o parque escolar, as barragens, e, porventura, os futuros TGV ou aeroporto.

E o cidadão comum fica perplexo, por vários partidos terem ocupado a cadeira do poder, nas últimas décadas, e por não entender quer o pensamento que terá estado por detrás da obra feita quer a origem dos dinheiros nela investidos.

No momento de pensar o futuro, alguns responsáveis políticos e culturais, recorrem às cores sombrias do presente para constituírem a síntese (des)motivante e (ir)realista da sua argumentação pontual. Além de miopia e injustiça sociais, tal “visão”, obscurece o presente, desvaloriza o passado e prejudica o futuro, deles, nosso e dos nossos filhos.

 

 

2. Há tempos, Filomena Mónica observava que ia deixar aos seus filhos uma casa, o que não havia acontecido consigo. É um bom exemplo do princípio económico em que se baseia o usufruto de grande parte dos bens, individuais e colectivos, que hoje temos à nossa disposição. Adquire-se, usufrui-se, vai-se pagando, e um dia poderá ter-se a propriedade para legar aos descendentes.

Ao lado da habitação, em quantidade e qualidade, como património edificado individual, muitos outros bens do património edificado colectivo se poderiam mencionar: estradas e auto-estradas; saneamento, arruamentos, praças, parques e jardins públicos; edifícios camarários como paços do concelho, bibliotecas, teatros e até estádios; e bens estatais como hospitais ou infra-estruturas de indispensáveis ao desenvolvimento como barragens, universidades, laboratórios e institutos públicos.

Todavia, mais relevantes do que esses bens físicos, outros, de natureza intelectual ou moral, surgem no legado a deixar aos nossos filhos: a auto-estima, no seu relacionamento entre si e os estrangeiros; as liberdades, individual e política, construídas numa consciência moral isenta de pressões obscurantistas, vindas de caciques sociais, religiosos e políticos.

E que dizer da instrução, nos seus diversos níveis, e da saúde, da segurança e assistência sociais, do apoio à infância e à terceira idade, do desporto, do ambiente e da ocupação dos tempos livres? Alguém, por humor, diria termos retirado aos nossos filhos a oportunidade de investirem a sua criatividade na (re)construção do país, tal foi a acção nele investida, ultimamente.

Não. Não é disso que se trata. Pois há sempre que ir mais além. Creio, porém, que há hoje um (outro) país disponível para uma juventude, que nele invista a sua energia e aproveita o que de bom recebeu e antes não existia.

 

3. Mário Soares, esse velho patriarca da democracia e da luta pela sobrevivência política e económica, deu uma grande entrevista que vale a pena (re)ler (Público, 5/3/2010). Nela revela toda a sua força política para motivar e lutar. Este é um grande papel social, que a República centenária lhe reserva. Preferível, porventura, ao de Presidente ao qual se candidatou. Nesse texto, marca o ponto de partida para as novas gerações:

“Devemos ser realistas e olhar para o futuro, compreendendo que Portugal tem futuro. Devemos partir desse pressuposto que, para mim, é óbvio. […] fizemos bastantes progressos, nos últimos trinta e cinco anos, que não têm paralelo no século XX. Rompemos o bloqueio em que vivíamos, abriram-se horizontes novos para a juventude e para as nossas elites em todos os domínios. […] Somos um país mais culto, o nível de vida é maior em todos os aspectos. Passámos a ser um país do primeiro mundo e que recebe imigrantes.” (Mário Soares, Público, 5/3/2010)

Quanto à ideia capaz de nos mobilizar, não tem dúvidas:

“É simples: ter confiança no povo português e acreditar em Portugal. Há boas razões para isso. Depois, é preciso ir buscar os melhores. Eu creio que temos, talvez pela primeira vez em séculos, elites de físicos, de químicos, de astrónomos, de biólogos, de oceanógrafos, de cientistas, de técnicos, abertos às mais modernas tecnologias, de artistas, de escritores, de desportistas...” (Mário Soares, Público, 5/3/2010)

J. Esteves Rei - Professor Catedrático de Didáctica das Línguas e de Comunicação, na UTAD, Vila Real

 




publicado por Correio da Educação às 11:44
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2 comentários:
De Cristina Ribas a 27 de Maio de 2010 às 16:00
Discordo absolutamente da abordagem deste texto. A melhor herança que podíamos deixar aos nossos filhos seria a de uma sociedade mais justa e mais fraterna, seria a vivência dos valores realmente importantes na vida de uma sociedade, no relacionamento entre as pessoas e isso a democracia não nos trouxe. Culpa da democracia? Claro que não, ela é fundamental à vida em sociedade. Culpa das pessoas que a usaram mal para fazer prevalecer o que é contra as pessoas. Estamos muito longe de sermos um país livre, um país fraterno, um país justo, um país solidário. E a gravidade de deixarmos as dívidas que deixamos, com progresso apenas aparente, foi a opção por interesses que não os do ser humano e a falta de relevância dada aos valores no qual incluo a exigência pessoal que tão pouco abunda no nosso país. Tenho orgulho em ser portuguesa mas neste momento não me orgulho do meu Portugal!


De Cristina Ribas a 27 de Maio de 2010 às 16:08
E não, não somos um país mais culto. Somos um país onde a educação chega a mais pessoas mas a qualidade dessa mesma educação é muitíssimo menor. Somos um país que está a educar (?) crianças e jovens desestrurados afectiva e emocionalmente que, apesar de tudo, buscam muito mais e têm uma medida que querem encher embora muitas vezes não encontrem quem lhes dê as respostas que precisam para encherem essa medida. O nosso país está à beira do caos e não aceitar ver esta realidade é insistir em esconder a realidade, é insistir num caminho que já mostrou não ter "pernas para andar"..., qual médico que faz o diagnóstico errado da doença do seu paciente!


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