17-05

Inês Silva*

 

O fim do Inverno foi abalado tragicamente por duas mortes nas escolas portuguesas: a de um professor e a de um aluno. Por bullying, diz-se. Portugal comoveu-se, revoltou-se e angustiou-se. Acompanhou com atenção as notícias na TV e nos jornais, ouviu psicólogos, pedopsiquiatras, professores, mães, pais, toda a gente e gente nenhuma. – De quem é a culpa? – Perguntava-se. – A culpa é da sociedade… – respondia-se. Lançaram-se flores ao rio. E a estação do Inverno fechou com a frase da senhora ministra da educação, a propósito das consequências que os alunos do professor que se suicidou ou dos meninos que perseguiam Leandro poderiam vir a sofrer: “A vida das crianças deve estar acima dos debates”.

Chegou a Primavera. Maravilhosa Primavera, a incluir luz, flores e o chilrear dos pássaros, mas com as crianças fora dos debates. Nem acima, nem no meio… completamente fora, como se a criança não fizesse parte da nação, e, por isso, não tivesse de ser instruída, corrigida, auxiliada, conduzida, ou seja, educada.

Há uns anos atrás, a maldade dos meninos manifestava-se de outras formas, pois não chegavam a tanto. Ou eram impedidos de chegar a tanto pois a educação estava no lugar certo e na hora certa. Consistia, pois, a sua traquinice em partir os vidros de uma ou outra casa abandonada com umas pedrinhas que encontravam no percurso que faziam para a escola, ir aos ninhos e fazer cair propositadamente para o chão um ou dois ovos, pregar um susto a um idoso ou numa vizinha, que os afugentava com um pau de vassoura no ar. E as consequências destas acções menos dignas, infantis e irresponsáveis, eram uns açoites dados pelos pais, caso alguém lhes viesse fazer queixas dos filhos, ou um castigo como limpar o automóvel lá de casa ou ficar sem brincar duas ou três tardes, o que significava ir trabalhar com os pais ou tomar conta dos irmãos mais novos, em vez de ir para a rua correr e saltar. E ai daquele que dissesse em casa, a chorar, “A D. Maria correu atrás de mim com a vassoura, caí, e feri o joelho”, pois logo a mãe respondia ironicamente – “Muito bem feito! Não devias ter ido para o seu quintal! Queira Deus que te acerte para a próxima!”

Por que razão nunca concordavam os pais com os filhos em questões de malvadez e agressividade, nunca achavam graça às suas patifarias, nem nunca lhes davam razão, tendo, ainda por cima, a mão pesada ou o castigo sempre preparado? Por que se esforçavam por saber que locais frequentavam, o que faziam, com quem andavam? A resposta é simples: para que as crianças e jovens não chegassem “a tanto”.

Não creio que as anteriores gerações de crianças e jovens sejam hoje adultos traumatizados, medrosos ou com falta de auto-estima, só porque um qualquer adulto lhes disse “Isso não se faz!” ou “Não voltes a fazer isso”. Não se está aqui a falar de casos de violência ou de punições cruéis e injustificadas por parte do adulto em relação ao menor, o que é considerado crime. Está-se, sim, a falar de educação no verdadeiro sentido da palavra: ensino, orientação e responsabilização.

As crianças devem estar no centro da atenção dos pais, no centro da acção da escola e no centro do debate nacional. Nunca de parte, como se de bonecos de cristal se tratassem. São de carne e osso, têm carácter e personalidade, gostos e receios, percursos de vida bons e maus e estão a aprender a conhecer-se a si e aos outros. E aqui reside a acção do adulto: orientá-los para o bem pessoal e social. As crianças não podem bater umas nas outras. Se o fazem uma vez, o adulto impede-as de o fazerem uma segunda vez, educando-as determinantemente, até conseguir. As crianças não chamam “cão” ao professor, ao pai ou ao avô. Se o fazem uma vez, o adulto impede-as de o fazerem uma segunda vez, educando-as determinantemente, até conseguir. As crianças não podem estar a brincar nas aulas, prejudicando o ambiente de trabalho e de aprendizagem. Se o fazem uma vez, o adulto impede-as de o fazerem uma segunda vez, educando-as determinantemente até conseguir. E assim sucessivamente. A esta acção do adulto chamo persistência. E quando um adulto não é capaz de o fazer – chama outro e outro e outro. E então temos, perante uma questão de bullying ou indisciplina – o pai, a mãe, o professor, o director da escola e a ministra da educação. Quem tem mais força? A criança ou cinco adultos unidos, responsáveis e determinados em não facilitar?

Tem resposta a pergunta que todos nós fizemos no fim do Inverno: de quem é a culpa? A culpa é da criança que fez/faz mal e do adulto que deixou/deixa fazer mal. E há que responsabilizar e educar o culpado, seja maior ou menor. Não fazer nada é a demissão total de uma sociedade que quer fazer de conta que está tudo bem, quando está tudo mal. Não há coitadinhos: há educadores e educandos. E estes papéis têm de ser desempenhados com mestria. Ou não há educação em Portugal.

Mas antes de procurarmos culpados, recoloquemos a criança no centro do debate, onde já esteve. Se todos os focos estiverem para si virados, ela não terá oportunidade de ser indisciplinada ou agressiva duas vezes.

Dá mais trabalho educar a sério, mas é menos perigoso e menos mortal.

* Inês Silva – Doutora em Linguística (Sociolinguística). Tem realizado estudos sobre a escrita dos alunos. É autora de várias publicações de carácter didáctico e de carácter linguístico. Na ficção, publicou o romance: A Casa das Heras. É docente no Externato Cooperativo da Benedita.



publicado por Correio da Educação às 12:37
link do post | comentar | adicionar aos favoritos

11 comentários:
De Cristina Ribas a 27 de Maio de 2010 às 16:15
Excelente texto, Inês.
Parabéns.
Seria bom que esta lucidez fosse contagiosa...


De bluboo x2 a 9 de Junho de 2014 às 11:52
So informative things are provided here,I really happy to read this post,I was just imagine about it and you provided me the correct information I really bookmark it,for further reading


De apple screens a 25 de Agosto de 2015 às 10:27
nice work, I can see your point, I can't agree with you more! By the way my iPhone screen need repair,I found replacement part on net, do you know other better store?


De Ana Almeida a 27 de Maio de 2010 às 18:25
Excelente artigo! Hoje em dia as crianças, na sua maioria, são desresponsabilizadas até idade tardia, não aprendendo desde pequenas valores como o respeito e e o respeito pelos mais velhos, semelhantes e pelas hierarquias. Agora educar traumatiza, ser-se uma criança educada é ser-se traumatizado.


De Inês Coelho a 27 de Maio de 2010 às 21:32
Parabéns pelo artigo. Deveria haver mais pessoas, com a mesma frontalidade, para abordar estes assuntos.
Como educadora, a situação destes jovens, futuros homens e mulheres deste país, preocupa-me verdadeiramente.


De Maria Luísa a 28 de Maio de 2010 às 18:10
Só é pena que mais adultos não pensem desta maneira.
Que muitas pessoas leiam o seu artigo; por mim , vou enviá-lo às pessoas minhas amigas.
Parabéns.


De Júlia Marques a 29 de Maio de 2010 às 15:09
É isso mesmo, Inês. O que falta é uma conjugação de esforços no mesmo sentido. Há alguns anos, o professor tinha quase sempre razão, segundo os pais... E estes incutiam nos filhos o dever de respeitar os mais velhos, fossem professores, pais, avós, vizinhos. Agora, o menino tem sempre razão... O professor deu negativa ao menino por embirração, passa trabalhos de casa e o menino não tem tempo, primeiro está o futebol, a natação, as danças, o computador... e só depois os deveres da escola... Não sabe nada, escreve com erros - que importa? Não faltam exemplos de ignorantes bem sucedidos e que até são grandes ídolos! Como é que nós, humildes professores, vamos convencer os alunos de que o conhecimento é importante, se o que ele vê à sua volta prova o contrário?


De Idalina Camacho a 29 de Maio de 2010 às 23:14
Muito bem. Um bem-haja a todos os que têm a coragem de dizer o que precisa ser dito.


De best electronic cigarette a 4 de Fevereiro de 2013 às 01:14
best electronic cigarette change everything for smokers. One day you're a societal menace, a pariah forced out onto the street to get your fix—the ...


De best tablet pc a 21 de Maio de 2013 às 07:58
How do you feel the trading of electronic products in 1949, you will be a rich very very good content of this site?


De Women Asics Shoes a 28 de Julho de 2014 às 03:30
Discount Asics Running Shoes Outlet,Cheap Asics Shoes For Sale. Asics Gel Shoes,free ship to worldwide


Comentar post

CONTACTOS

ce@asa.leya.com
pesquisa
 
Correio Disciplinar
Ciências Sociais e Humanas
Línguas e Literaturas
Ciências Exatas e Experimentais
Expressões
Escola em destaque
Escola Secundária Alcaides de Faria
Agenda


arquivo
Ligações
Parceiros
subscrever feeds