01-06

 

"E foi então que apareceu a raposa:

- Boa dia, disse a raposa.

- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.

- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...

- Quem és tu? Perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...

- Sou uma raposa, disse a raposa.

- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...

- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa, não me cativaram ainda.

- Ah! Desculpa, disse o principezinho.

 

Após uma reflexão, acrescentou:

- Que quer dizer "cativar"?

- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?

- Procuro os homens, disse o principezinho. Que quer dizer "cativar"?

- Os homens, disse a raposa, tem fuzis e caçam. E bem incomodo! Criam galinhas também. E a única coisa interessante que fazem. Tu procuras galinhas?

- Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?

- E uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."

- Criar laços?

- Exactamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nos teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...

- Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...

- E possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra...

- Oh! Não foi na Terra, disse o principezinho.

 

A raposa pareceu intrigada:

- Num outro planeta?

- Sim.

- Há caçadores nesse planeta?

- Não.

- Que bom! E galinhas?

- Também não.

- Nada e perfeito, suspirou a raposa.

 

Mas a raposa voltou a sua ideia.

- Minha vida e monótona. Eu caço as galinhas e os homens caçam-me. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra.

Os teus me chamarão para fora da toca, como se fossem musica. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim e inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso e triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que e dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...

 

A raposa calou-se e considerou por muito tempo o principe:

- Por favor... Cativa-me! Disse ela.

- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.

- Nos só conhecemos bem as coisas que cativamos, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não tem amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!

- Que e preciso fazer? Perguntou o principezinho.

- E preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem e uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia te sentarás mais perto...

 

No dia seguinte o principezinho voltou.

- Teria sido melhor voltares a mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, as quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. As quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso rituais.

- Que e um ritual? Perguntou o principezinho.

- E uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. E o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas.

 

Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:

- Ah! Eu vou chorar.

- A culpa e tua, disse o principezinho, eu não te queria fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...

- Quis, disse a raposa.

- Mas tu vais chorar! Disse o principezinho.

- Vou, disse a raposa.

- Então, não ganhaste nada!

- Eu ganho, disse a raposa, por causa da cor do trigo.

 

(...)

- Adeus, disse ele...

- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. E muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.

- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.

- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.

- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.

- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu tornas-te eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...

- Eu sou responsável pela minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar."


in "O Principezinho" Antoine de Saint-Exupéry

 



publicado por Correio da Educação às 09:06
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