02-06

Ética no ensino e na aprendizagem

 

1. Na imprensa nacional tem-se feito eco de uma tese de doutoramento, apresentada por um docente de uma instituição de ensino superior a uma Universidade, a qual seria cópia de uma outra, feita noutro país, por outro universitário. Nem as modernas tecnologias teriam identificado o caso, denunciado anonimamente. Situações destas aconteceriam com alguma frequência.

O campo do ensino não seria o único a conhecer este género de “roubo” a que legalmente se atribui o termo plágio. Com efeito, a Revista Única de 8 de Maio (2010: 56-60), sob o título, “Roubo, mentira e escândalo na história da Times New Roman”, refere, a problemática autoria desse tipo de letra, sublinhando, em subtítulo, “No meio tipográfico não existe maior insulto do que a acusação de plágio”.

Tem havido mesmo casos em que o candidato, envolvido num exame ou prova, se vê eliminado por o júri descobrir a trapaça, a que recorreu, tentando enganá-lo, recorrendo a apoios que os outros candidatos não possuem e apropriando-se, indevidamente, de dados dos quais não é autor. Quando a acção passa despercebida, tudo fica entre ele e a sua consciência ou a ausência dela.

2. Esta problemática apresenta duas ópticas de leitura, a legal e a ética. A primeira, deixamo-la para os códigos de direito da propriedade, nomeadamente, a intelectual com as punições que acompanham qualquer código. A segunda deve constar de toda a relação pedagógica, professor / aluno, em qualquer nível de ensino. É desta que nos ocupamos aqui.

É estranho que os alunos cheguem às universidades sem conhecerem claramente a dimensão ética da aprendizagem ou a relação entre o aprendente e aprendizado, tal como entre a fonte e a recepção da informação e do conhecimento.

Olhada a situação do lado do docente, também se estranha que, à primeira falta de clareza dessa relação, o professor não alerte o aluno dessa falha ética, apontando-lhe os riscos que corre perante a lei.

Do lado dos princípios, há que considerar os pressupostos e as grandes linhas de acção. Entre os primeiros, tenhamos presente que não há comportamento humano, individual ou colectivo, sem uma dimensão ética a envolvê-lo. Daqui decorre que cada indivíduo deverá identificar os princípios lógicos ou a razão ética, subjacentes às suas decisões, condutas ou comportamentos.

Na constituição desse conjunto de princípios há quem tome como ideia central o dever, ou o uso da razão, que no momento de agir se transforma em dever moral. As dificuldades na aceitação desta perspectiva nascem da impossibilidade de hierarquizar princípios quando surge o conflito entre dois deveres. Exige-se, então, ao indivíduo que saiba ponderar a importância de optar por um ou pelo outro.

Há, porém, quem escolha os princípios em função da utilidade das acções, em ordem a satisfazer o bem-estar dos agentes envolvidos e da sociedade, hoje ou no futuro. Neste caso, as reservas perante um princípio advêm da dificuldade em quantificar os riscos, danos e prejuízos, ao determinar a sua aceitação ou rejeição.

 

3. Como princípios gerais de uma ética aplicável a estudantes e professores, destacam-se os seguintes. A exigência de formação humana, intelectual e profissional deve ser timbre de qualquer escola, confrontando com ela o jovem, de qualquer idade. Por outro lado, não é possível crescer e agir humanamente sem pautar a sua vida por valores, assumidos pelo próprio e reconhecidos pela sociedade.

Num segundo patamar, situa-se a responsabilidade de aprender, pelo aluno e pela escola. Sem ela, não existem, nem esta nem aquele. A escola foi sempre uma zona franca para o espírito, um lugar amigável de encontro e descoberta do saber. Mas para isso exigem-se tolerância, abertura de espírito e respeito perante as dúvidas, as diferentes apreciações, os interesses e os ritmos de aprendizagem do outro, cujos limites se situam no dogmatismo, parcialidade, violência e falso consenso.

Por último, é indispensável a liberdade de opinião, método e pensamento. Tal atitude, a valorizar pedagogicamente, é propiciadora de soluções positivas para a resolução da maior parte dos problemas da sociedade. Todavia, a sua plena actualização tem como verso de medalha a solidariedade perante o outro e as regras aceites e sempre em reavaliação.

J. Esteves Rei - Professor Catedrático de Didáctica das Línguas e de Comunicação, na UTAD, Vila Real




publicado por Correio da Educação às 09:32
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6 comentários:
De Graça Silva a 16 de Junho de 2010 às 19:51
Pois tenho uma situação dessas precisamente no 7º ano de escolaridade, em Área-projecto! um grupo, uma aluna no grupo, pegou no trabalho de um aluno da turma seguinte e pôs o seu nome e dos colegas apresentou publicamente como seu. E teve azar pois alguns colegas da turma denunciaram na hora. Não é que não desconfiasse, mas confirmei os factos, REAL!
É uma aluna com boas classificações em geral, por isso, mesmo com negativa no 3º período, a média do ano dá-lhe direito a positiva... Sai impune! Como se pode ensinar algo a esta aluna e seus colegas se, de facto, vão constatar que não acontece nada?
Os danos já feitos no nosso sistema de ensino são irreparáveis!


De José Coelho a 16 de Junho de 2010 às 22:40
Sou professor há mais de 30 anos! A Graça Silva é professora... há quanto tempo? Não acha que a aluna já foi penalizada? Queria que a aluna reprovasse? Se conhecemos casos de adultos que têm a mesma prática e nada lhes acontece... Alertemos os alunos para os actos desonestos para que não os repitam e, assim, se tornem cidadãos dignos e responsáveis.


De luis a 17 de Junho de 2010 às 02:29
A questão é que "de facto, não aprendem apenas com alertas". Alunos há que, recorrentemente, apresentam trabalhos copiados integralmente, parcialmente, ou levemente modificados. Talvez na esperança de que alguma vez o professor não esteja com paciência de andar à pesca no Google.
Claro que são penalizados, mas a penalização é leve. Os testes, os trabalhos de grupo, etc., vão permitindo que nos trabalhos individuais possam arriscar um plágio. Não aprendem, de facto. Por isso, daqui a alguns anos serão parte do grupo imenso de adultos que, precisamente "têm a mesma prática e nada lhes acontece".


De huawei ascend p7 a 9 de Junho de 2014 às 11:49
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De Graça Silva a 17 de Junho de 2010 às 02:54
Não quero personalizar questões, também tenho anos de experiência e este caso está longe de ser o primeiro que detecto. A sua natureza é que vai mais longe que o já habitual. E podemos facilmente concluir que não é com uma simples denúncia que os alunos percebem que erraram. Não vamos conseguir transmitir valores se não os respeitarmos completamente. A política dos «brandos costumes» está a corromper-nos completamente! E o efeito «bola de neve» já vai nas teses, e nas desculpas de quem nos governa. Resolve esta crise com um simples raspanete?


De Ana a 17 de Junho de 2010 às 08:31
Estou a terminar o 2º Ciclo de Estudos na UTAD na área da educação e é com uma profunda tristeza que tenho observado colegas, que serão professores, a entregar trabalhos integralmente copiados de outros colegas, da internet, de livros... A questão que coloco é: o que irão estes futuros professores ensinar aos seus alunos? Valores e princípios éticos? Duvido.


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