15-09

Entrevista a Alice Vieira

Notícias magazine, Suplemento do Jornal de Notícias, 23 / 8 / 2009: 24-30 por Catarina Pires. Fotografia de Rui Coutinho

 

Parece que foi ontem, mas já passaram trinta anos desde que se sentou a esta mesa onde conversamos para escrever, com os filhos, Catarina e André, o que viria a ser o seu primeiro livro – Rosa, minha irmã Rosa. De então para cá, não parou e já vai em mais de setenta títulos publicados, entre romance juvenil, histórias tradicionais, livros para crianças e mais recentemente poesia de amor. Pelo meio escreveu quatro romances a várias mãos, uma experiência trabalhosa, mas muito divertida. A paixão pelo jornalismo, que a fisgou aos 14 anos, amadureceu, mas não morreu. «Quem é jornalista é jornalista para sempre», afirma. Senhoras e senhores, meninos e meninas, Alice Vieira, a escritora que antes de escrever para nós, escreve para si própria. Deve ser por isso que o faz tão bem.

[…]

Já contou milhares de vezes como começou a escrever o Rosa, Minha Irmã Rosa e como este resultou de um ultimatum dos seus filhos que aos 9 e 10 anos já não tinham o que ler.

Foi nesta mesa! Por isso é que chia tanto. E por isso é que os meus filhos não me deixam deitar fora esta porcaria e comprar outra. Estávamos de férias e ter miúdos de férias em casa é complicado, de maneira que, para ver se os sossegava um bocadinho, já que estavam sempre a pedir que escrevesse uma história para eles, disse: «Vamos tentar escrever uma história nestes vinte dias de férias.» Sentávamo-nos aqui, eles traziam os cadernos da escola e eu ia escrevendo, depois líamos, emendávamos, no outro dia mais um bocadinho e no fim das férias a história estava pronta. Eles levaram-na para a escola e eu arrumei-a numa gaveta e nunca mais pensei naquilo. Nem sequer fui eu que a mandei para o concurso. Quando veio no jornal a notícia de que havia um prémio instituído pela Caminho para o melhor texto do Ano Internacional da Criança (era 1979), foi o Mário que pegou naquilo e mandou. Por isso, quando ganhei o prémio foi um grande espanto para mim. E significou uma volta de 180 graus na minha vida. O livro vendeu-se muito, o editor pediu-me logo para escrever outro e nunca mais parei...

O primeiro livro foi colectivo...

Pois foi, os meus filhos acham que devia ter posto também o nome deles como autores. E devia, devia, porque aquilo foi um trio muito conseguido.

De então para cá como é que os seus métodos de trabalho evoluíram?

O meu método de trabalho [suspira]... Não tenho método de trabalho. Nunca sei o que vou fazer nem quando vou fazer, mas trabalho muito bem com prazos – isso foi uma coisa que o jornalismo me deu – e quando tenho muita coisa para fazer ao mesmo tempo. Sou muito organizada na desorganização. Mas só quando estou a escrever é que descubro que história vai acontecer. Antes dizia que tinha que ver com o barulho das teclas, agora não já não posso dizer isso, porque o computador é um bicho mudo... e o barulho faz-me tanta falta. Havia no Diário de Notícias um jornalista, o Humberto Vasconcelos, que, quando entraram os computadores, sofreu muito, como eu, e então fez uma gravação com o barulho das teclas, para o acompanhar quando escrevia no computador [ri]. Comigo continua a ser um bocadinho assim: só quando estou no teclado é que aquilo vem, antes não acontece nada. Mas agora, com cinco «patrões» [escreve para cinco editoras do grupo Leya] e sempre a correr de um lado para o outro para ir às escolas, ando a trabalhar que é uma maluqueira, durmo duas horas por noite.

Nunca lhe ocorre dizer que não?

Pois, tenho muita dificuldade. As pessoas são muito engraçadas, amam-me de paixão, mas depois exploram-me ao máximo [ri].

Como é que alguém para quem era tão importante dormir e que só conseguia escrever de manhãzinha, consegue passar do dia para a noite e só dorme duas horas?

Cada vez me adapto melhor às circunstâncias. De há três ou quatro anos para cá, a minha vida é muito diferente. Passo os dias nas escolas, chego a casa à noite, começo a escrever e quando dou por mim são três ou quatro da manhã. E se não tenho escolas no dia a seguir, às sete e meia estou no ginásio a fazer a minha passadeirinha (onde às vezes adormeço, é verdade). É muito trabalho! E eu aceito tudo, meto-me em tudo...

É autora do grupo Leya. Este fenómeno de concentração do mercado editorial causou alguma polémica. Como o encarou?

A Caminho, que era a minha casa há quase trinta anos, na altura convocou-me para uma reunião para dizer o que ia acontecer, e eu tive sérias dúvidas, mas eles puseram as coisas neste pé: ou entramos no grupo ou fechamos a porta. Diante desta opção, não havia muito a fazer. Hoje, devo dizer que trabalho muito bem com o grupo.

E não é estranho para si ser protagonista de uma campanha como esta - «Alice Vieira – 30 anos de livros» –, com lápis, crachás, autocolantes, marcadores, cartazes e por aí fora?

Completamente. O meu neto é que outro dia dizia: «Ó ‘vó está ali uma que pareces tu, mas não és porque tens o cabelo azul.» Mas gosto muito que os patrões se lembrem que faço trinta anos de trabalho. O que me espanta é que tenham passado tantos anos, porque para mim foi ontem. A campanha de mandar um livro para Timor por cada postal – daqueles que vêm dentro dos meus livros – que os meus leitores me enviarem foi uma ideia minha, porque queria que isto tivesse um significado maior. Tenho uma relação forte com Timor e nunca vi ninguém naquele país pedir nada que não fosse lápis ou livros. Isso toca muito uma pessoa.

Visita cerca de oitenta escolas por ano, porque é que para si é tão importante ir às escolas?

Pelos miúdos. Uma coisa é eles lerem os livros, outra é falarem com quem os escreveu. Além disso, crio uma relação com eles que sai muito das escolas e dos livros, eles escrevem-me, eu respondo, até hoje escrevo-me com leitores meus. Alguns há trinta anos, já casados e com filhos. Os miúdos têm muita necessidade, há trinta anos como hoje, que os oiçam, às vezes só querem ser ouvidos. Ainda outro dia, uma miúda, assim da sua idade [trintas], passou por mim na Feira do Livro e deu-me uma carta. Não tinha referência alguma, só o nome dela, era cabo-verdiana, e dizia qualquer coisa como isto: quando estiver em baixo, leia esta carta e lembre-se de quantas raparigas leram os seus livros; eu li-os quando a minha vida não era nada fácil... Sentir que estamos a contribuir para que miúdos e jovens sejam um bocadinho mais felizes dá-nos vontade de trabalhar.

A sua amiga Rosa Lobato de Faria, que entrevistei há uns tempos, diz que fala com as personagens e elas é que lhe dizem o que ela tem de escrever, não inventa nada, Deus a livre...

É exactamente isso. As personagens ditam o que o livro vai ser. Quando começo a escrever, como lhe disse, nunca sei o que vou fazer, sou um bocado espectadora, é como se estivesse no cinema, a olhar para o ecrã e a partir dali a história surgisse. Também falo muito com as personagens e ainda bem que estou aqui sozinha porque faço umas figuras desgraçadas: paro, falo, insulto, berro, sobretudo insulto muito o computador quando as coisas correm mal. Dantes a culpa era do papel, rasgava e deitava fora, agora não posso deitar fora o ecrã.

Hoje é mais fácil destruir um livro, se não gostar do resultado?

É muito mais fácil destruir, mas também é muito mais fácil escrever. Tenho a certeza de que se não tivesse computador e estivesse ainda na velha máquina de escrever não era capaz de desenvolver este trabalho todo. Embora – por muito que custe aos ecologistas e às florestas – ainda precise muito de papel para fazer as últimas emendas. Só consigo ver o livro quando está em papel. O José Paula e Carmo, que era um grande crítico, dizia: «Tanta árvore que se deita abaixo para se fazer papel de parvo.» Não sendo esse o caso, lembro-me sempre disso quando imprimo um texto.

Nestes trinta anos, já publicou mais de setenta livros. É obra! Onde vai buscar a matéria para tanta produtividade?

Pois, parece que sim [suspira]. Além da minha infância e da dos meus filhos, vou sempre ou quase sempre buscá-la ao meu dia-a-dia. Saio e quando chego a casa já trago um romance para escrever. Matéria-prima nunca falta desde que se esteja com atenção. O António Torrado costuma dizer que para escrever uma história basta olharmos pela janela.

Consegue dizer o que é que gosta mais de escrever?

O mais difícil é o que escrevo para crianças. Tenho o dobro do trabalho e levo o dobro do tempo a escrever pequenas histórias para os mais novos porque tenho de estar sempre a pensar que idades têm, se percebem determinada palavra ou não. Por isso, prefiro escrever romance. Sou muito egoísta quando estou a escrever; sou eu, a máquina e mais ninguém, e escrevo para mim. Sou muito, muito exigente, mas é comigo, já deitei fora romances completos quando os ia entregar.

As crianças e jovens são os que mais lêem neste país. Mas são bons leitores?

São. Muito por causa da escola, resta saber é se quando saem da escola continuam a ser bons leitores. Penso que temos de os cativar para o gosto da leitura muito antes disso, desde bebés, habituá-los a mexer nos livros, contar-lhes as histórias, só assim serão adultos que lêem.

[...]

Recentemente publicou dois livros de poesia. Mas só depois de sujeitar o primeiro – Dois Corpos Tombando na Água – a concurso sob o pseudónimo Filipa Sousa e Silva. Porquê?

Gosto muito de poesia e até será o que leio mais, mas sou muito crítica. Tinha ideia de que não estaria mal, mas não valia de nada dar aquilo a alguém porque iam logo dizer que estava muito bom. E então soube que havia o prémio Maria Amália Vaz de Carvalho e, como os membros do júri eram gente que me dava muita segurança, mandei sem ninguém saber. Os únicos que souberam, como aliás sabem da minha vida toda, foram os senhores dos correios. E pronto, ganhei. Mas ainda outro dia estava a dizer a uma amiga que acho que devia assinar a poesia com outro nome, não pseudónimo, mas heterónimo, porque sinto que quem escreve aquilo é outra pessoa. A sério, não sou eu, a maneira de escrever, o quando escrevo. Eu, que nunca fui capaz de escrever nada à mão, nem uma carta, só consigo escrever poesia à mão.

[…]

Aos 66 anos, ainda acha que o seu calcanhar de Aquiles é ser muito impulsiva e acreditar de mais nas pessoas?

Acreditar nas pessoas é bom, apesar de tudo. Nunca me arrependo disso, vale mais desiludirem-me do que estar sempre a desconfiar. Mas impulsiva sou muito e tenho pouca paciência para certas coisas. Tenho muito pouca paciência para gente burra, por exemplo.

Se perguntarem por si, o que é que quer que eu diga?

Ai, queria tanto que dissesse: deixem-na descansar, deixem-na dormir. Digam que voei, digam que emigrei, digam que estou fechada para balanço. Qualquer coisa, desde que me deixem descansar um bocadinho.

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publicado por Correio da Educação às 15:29
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