23-01
* Conceição Courela
Muito se tem falado em trabalho colaborativo, cooperativo, de grupo… não só entre alunos, mas também entre professores e outros profissionais. Será um politicamente correto que podemos (e devemos) evitar? Uma moda? Ou um caminho que pode valer a pena encetar e percorrer?
Enquanto profissionais lidamos com conhecimentos que outros (e nós próprios) temos de aprender. Se já não acreditamos que as aprendizagens se dão por transmissão (ou magia?), mas que é necessária uma predisposição para aprender (Knowles, 1986), cabe-nos criar ambientes favoráveis a essa aprendizagem. Ambientes permeados de afetos (Strecht, 2008), em que os alunos e o professor se assumem como seres sociais, dialogantes e que, nesse diálogo, constroem o conhecimento (por exemplo, quando se dispõem a seguir raciocínios, que lhes permitem ligar o que é novo ao que já sabiam). Este conhecimento, inicialmente partilhado, torna-se de cada um, quando cada um o integra na sua estrutura cognitiva, ou seja, quando dele se apropria. Por isso mesmo, o conhecimento não se pode adquirir… é algo que se torna meu, mas que começa por ser nosso… algo de que nos apropriamos (César, 2009).
* Docente do Ensino Secundário, colaboradora da Universidade Aberta, doutorada em Educação/Pedagogia
09-01
* Teresa Martinho Marques
Não deixo acumular as mensagens no correio eletrónico. Não deixo acumularem-se as novidades do digital, trazidas por amigos e colegas Não deixo adensarem-se as novidades, que eu própria procuro ao preparar as muitas ações que o ano de 2012 trará. Isso significa nunca interromper o fluxo de trabalho digital, nem mesmo nas épocas festivas como a que passou. Verdade seja dita, nos tempos em que era tempo de presentes, tão pouco deixava acumular as obrigações das festas e chegava a dezembro serenamente sem compras para fazer. Talvez seja coisa minha, talvez aguçado instinto de sobrevivência. Sou rápida para poder ser lenta. Sou organizada para poder ter um tempo vazio e desordenado à minha espera. Adio a gratificação para saborear a cobertura doce do bolo no final de cada dia. Adormeço sem insónia com a leveza do dever cumprido.
Gosto de abrir a caixa do correio e não a ver invadida com muitos centímetros de escuro por ler. Lido mal com a densidade das coisas reais e digitais. Falta-me ar se o espaço não tiver uma dose essencial de luz e branco à minha espera. Não sei exatamente como aprendi a lidar com a avassaladora velocidade dos dias e da informação que nos invade dentro deles. Não foi a escola, acho. Ou terá sido? Defendo-me sendo egoísta no meu tempo de rede. Escrevo para os outros, mas começo a conter o desejo de dizer. Bebo menos o que os outros oferecem, mas aprendo a arte de escutar. Seleciono com precisão cirúrgica o que quero. Apago, arrumo, escondo tudo o que não me apetece. Recuso bem mais do que aceito. Aprendo a apreciar o silêncio como a palavra mais importante dos anos que estão para chegar.
* EB 2,3 de Azeitão e CCTIC – ESE/IPS: http://projectos.ese.ips.pt/cctic/ e http://eduscratch.dgidc.min-edu.pt/
02-01
* Inês Silva
O percurso casa-escola e escola-casa é feito diariamente por milhares de alunos, pais e professores, com uma certa fé de que o que vai acontecer a seguir vale a pena. Nesse mesmo percurso, tudo pode ser visto, caso o viajante não vá alheado do mundo, absorto nos seus pensamentos, a caminhar como um autómato, o que por vezes acontece.
Em 1991, Maria vinha da escola no autocarro, distraída, muito distante dos outros passageiros, embora encostada a eles. Com dezassete anos, a vida espraiava-se à sua frente e a força do corpo para realizar o impossível aumentava em cada instante. Embora ciente da imperfeição do mundo, dado o facto de a mãe ter saído de casa meses antes, levando-a a ela e à irmã, por não aguentar mais os maus tratos do marido, Maria tinha esperança de que a separação fosse o início de uma nova vida para todos.
* Doutora em Linguística (Sociolinguística). Professora Adjunta convidada na Escola Superior de Educação de Santarém. Tem realizado estudos sobre a escrita dos alunos. É autora de várias publicações de caráter didático e de caráter linguístico. Na ficção, publicou o romance: A Casa das Heras.
22-12
Lídia Marques & Paula Costa
“Quem não conhece línguas estrangeiras, não sabe nada da própria." Assim profetizava Goethe. Tal afirmação não poderia ser mais atual. Numa sociedade que se quer cada vez mais aberta aos outros, é fundamental alargar os horizontes pessoais, incentivar os mais novos, partilhar referências que fazem parte da nossa cultura e da nossa história, dar-lhes as ferramentas de que precisarão para se moverem num mundo cada vez mais exigente, uma aldeia global que não cessa de crescer e que está cada vez mais perto de nós. Uma geração que sabe menos é uma geração mais pobre. Por isso, as línguas constituem a chave fundamental para compreendermos os outros povos, irmos aos encontro das suas diferenças, encontrarmos semelhanças, partilharmos experiências, oportunidades, concretizarmos sonhos.
A Europa promove, todos os anos, no dia 26 de Setembro, o Dia Europeu das Línguas. É a oportunidade para lembrar que a aprendizagem das línguas é imprescindível, numa Europa cada vez mais interdependente. Esta comemoração assenta no princípio de que a diversidade linguística é um dos pontos fortes da Europa e que a aprendizagem das línguas contribui para reforçar a tolerância e a compreensão mútua. Em 2005, 146 países membros da UNESCO apelaram, numa convenção internacional, para a importância do plurilinguismo, salientando a necessidade de aprender várias línguas, para assegurar uma melhor diversidade cultural no mundo. As línguas não são só ferramentas propícias à comunicação mas refletem e transmitem igualmente perceções do mundo que nos rodeia, e no qual se inserem os nossos jovens.
12-12
* Teresa Martinho Marques
(Algumas histórias contadas, com muitos sorrisos, pelos professores que frequentaram a Oficina de Formação – Scratch e Matemática – 1.º Ciclo e Pré-escolar do CCTIC-ESE/IPS - e se atreveram a aventuras especiais com os seus alunos, mesmo depois de um tempo relativamente curto de aprendizagem da ferramenta Scratch).
... Eles são tão bebés no falar (quatro/cinco anos), mas nos nomes dos dinossauros acertam sempre e sem nenhuma falha de dicção... Pusemos o Apatossauro a andar de um lado do ecrã para o outro utilizando o “desliza num segundo, para determinados pontos x e y”, e um dos alunos diz logo: “O Apatossauro não anda tão depressa. Eles andavam muito devagarinho!”. Ora, por defeito, o comando de programação “desliza” tem 1 segundo de tempo marcado... Perguntei-lhe: “Já viste ali o número 1(segundo) do tempo que ele anda... Se queres mais devagar o que devemos fazer?” A resposta pronta: “Professora tem de ser um número maior de segundos!”... (a física intuída aos cinco anos – relação espaço/tempo = velocidade)... “E tu conheces um número maior que um?”... “Sim!... o seis!”. Descobriu o seis no teclado e experimentou... “E agora?”... “Oh... ainda não dá... está médio”! “Hummm... então que fazemos agora?”… “Pomos outro maior!”... “E conheces mais algum?”... “Sei o oito!”... Experimentou e... “Está quase, mas tinha de ser mais!”... é que ele ainda não conhece números maiores do que oito. Então agarrei nas mãozinhas dele, levantei-as, abriu os dedinhos e eu recordei o número dez! Ele escreveu esse número, com a minha ajuda e ficou feliz com o resultado. “Agora é que está mesmo bem! Com o dez – dedos no ar – é que fica bem!”.
05-12
* Rosa Duarte
Os gajos morrem em média cinco anos mais cedo do que elas, dizias-me tu, jovem rapaz a propósito da viuvez, num tom sentido de constatação. Uma conversa sobre viuvez que te incomoda pela solidão. Daquele paradoxo de solidão que serve de alimento aos idosos pelas recordações silenciosas remoídas por suspiros dolorosos e os precipitam para a linha que se entende terminal da sua história nem sempre partilhada. Tu és um adulto jovem que teima em pensar na avó. Sim, ser velho não é doença. Muitas doenças nascem no pensamento. Ah, pois, é mais uma longeva num misto de passado-presente que a divide, confunde e domina e a faz desejar o momento zénite, aquele êxtase de horizonte excelso, alojado para além do seu semicerrado de olhos pesado e pensativo, crente no troféu paradisíaco sonhado, pleno de calorosos encontros. Há beleza até nas rugas como sorrisos em linha de pontas cruzadas numa expressão de despedida. Reparas que o final se prepara para ultrapassar a fasquia da vida no fio de prumo da estrada, com a cumplicidade do azul imenso. Aparentemente sem esforço nem súplica. Imaginas qual será o horizonte da sua mente, sempre em perspectiva, porque é daquelas que não conhece desistências nem derrotas na peregrinação identitária. Vejo que a encorajas: é só mais um troço de caminho, avó. Pensas no sentido da vontade dos passos lentos de quem ainda observa os instantes por palavras respiradas. Sempre com o tal horizonte no fundo do olhar alagado. Ficará à vista na hora do crepúsculo à beira vida? Crês que sim, tu próprio o vislumbras nela estampado; acender-se-á aquela linha luminosa verde ao fundo no último estertor de sol, e o seu derradeiro desejo realizar-se-á…
* Professora do Ensino Secundário
25-11
* Carla Marques
A língua já existia antes de cada um de nós e, contudo, sentimo-la nossa. A escrita passou por inúmeras fases, que muitos desconhecem, e foi construída por homens cuja identidade e crenças se perderam na memória. Homens atrás de homens, escritos atrás de escritos, séculos após séculos legaram-nos uma herança que sabemos de todos, que sabemos existir para além de nós, antes e depois, mas que queremos nossa. Não gostamos que nos alterem a ordem das almofadas da sala ou dos livros da biblioteca, porque é a nossa ordem, porque são os nossos objetos. E porque a língua é nossa, de cada um de nós, não gostamos que mexam na nossa língua.
As reações afetivas à mudança que introduz o novo acordo ortográfico têm sido muitas e diversificadas, mas todas passam pela relação umbilical que estabelecemos com a língua na qual nos criamos e através da qual aprendemos a pensar e a exprimir os nossos pensamentos.
* Doutora em Linguística (na área da argumentação oral); investigadora do CELGA (Centro do Linguística Geral e Aplicada, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra); autora de várias publicações de caráter didático e de caráter linguístico; docente no Agrupamento de Escolas de Carregal do Sal.
23-11
* Rosa Duarte
Ao regressar de carro pela zona do Feijó, hoje um dia pingado e de um cinzento brilhante, ouvia na Antena 2 uma notícia sobre a estreia de logo à noite de uma peça de teatro escrita por Lars Norén (tradução de José Luís Peixoto) encenada pela companhia Aloés, sobre o conhecido caso do jovem alemão que feriu colegas e professores e, de seguida, atirou sobre si. Espetáculo anunciado que promete. Será mais um bom trabalho de equipa (literatura em palco) para inevitavelmente refletirmos: Que sociedade é a nossa? Que escola é a nossa?
* Professora do Ensino Secundário
14-11
* Teresa Martinho Marques
Uma professora a lecionar o 1.º ano, pela primeira vez, propõe aos alunos (com 6 anos) uma tarefa de interpretação de dados num gráfico de barras. O tema? Pacotinhos de leite bebidos pelos meninos de uma turma ao longo da semana. Explica-se o gráfico, diz-se o que está escrito (dias da semana no eixo do X e número de pacotinhos no eixo do Y) e a certa altura esta pergunta: Em que dia da semana se beberam mais pacotinhos de leite?
O João coloca o dedo no ar e responde: Terça!
A professora: Está errado! Não é esse dia!
O João fica atrapalhado e a turma olha para ele e para a professora...
* EB 2,3 de Azeitão e CCTIC – ESE/IPS: http://projectos.ese.ips.pt/cctic/ e http://eduscratch.dgidc.min-edu.pt/
02-11
* Rosa Duarte
Fazer da família um suporte real do indivíduo, que é um ser em permanente construção, tem sido objeto de estudo do projeto artístico em geral. Quantos letrados recorrem à palavra para revisitar histórias de família, como por exemplo aquela do viúvo preparado para a viagem que o levará até à sua senhora, crente na união perpétua (Valter Hugo Mãe, O Filho de Mil Homens, capítulo 5)? Quantos realizadores de cinema recorrem à representação para retratar a inédita beleza de cada amor filial (Pedro Almodóvar, Tudo sobre a minha mãe)?
Criar é também exprimir o desejo do outro num discurso artístico que alguns gostariam de fazer, mas não o fazem. Porque (ainda) não sabem. Porque é uma vontade que exige um trabalho árduo. Vontade não apenas de se imaginar a fazer, mas de fazê-lo de facto, num trabalho persistente e continuado, como o enlace do instrumentista no seu instrumento, várias horas por dia a tocar a mesma composição musical. Enid Blyton dizia que ser escritora era sentar-se e escrever. Não partilhava da crença na bênção do escritor pela musa inspiradora para iniciar a sua obra. É uma atitude interessante pela intenção desmistificadora e despretensiosa que constitui um convite espontâneo à criação e às inevitáveis reflexões sobre o ato criador, por aspirantes e pelos veteranos nestas lides criativas.
* Professora do Ensino Secundário