14-02
* José Matias Alves
Um dos mais interpelantes desafios que se coloca ao desenvolvimento da educação portuguesa – o mesmo é dizer: à aprendizagem de todos aqueles que se deseja constituam as comunidades educativas – é saber agir nos nós das redes que possam elevar os patamares de aprendizagem individual e coletiva.
Seguindo de perto Bolívar (2012), citemos os sete fatores que estão por detrás de melhorias sustentáveis:
* José Matias Alves é investigador, doutor em Educação e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa.
30-01
* José Matias Alves
Há mais de 20 anos que se vem reiterando a vontade política do ensino profissional mobilizar 50% dos alunos que frequentam o ensino secundário. No contexto de uma escolarização obrigatória durante 12 anos, torna-se mais premente revisitar este tópico e perceber por que motivo tem sido impossível atingir esta meta.
A razão maior é simples: não se tem atingido esta meta porque o ensino profissional não tem valor social, empresarial, familiar para atrair as pessoas. E por que é que não há este valor e esta força de atração?
Por duas razões maiores: i) porque os nossos empregadores não oferecem, em regra, aos diplomados por este ensino uma carreira profissional cativadora (em termos de prestígio, status, remuneração e carreira, provavelmente por não verem as mais valias desse conhecimento para o aumento da produtividade organizacional; ii) porque o sistema de ensino trata esta via de ensino como a via para os deserdados do sistema regular não lhe conferindo a qualidade e o prestígio escolar que lhe seria devido.
* José Matias Alves é investigador, doutor em Educação e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa.
16-01
* José Matias Alves
Está em curso mais uma reforma curricular. Mais hora ou menos hora. Tira aqui e coloca ali. Reforçando a visão disciplinar do conhecimento. Decretando que os conhecimentos mobilizáveis para agir, conhecer, intervir e transformar o mundo e dar sentido à vida não têm dignidade curricular. Só o conhecimento puro (mesmo que seja o sistema nervoso da mosca que para “nada” serve) é que importante.
Está em curso uma suposta mudança de paradigma. Mas não se conhece o horizonte, a substância, a rota, o rumo. Vive-se na era do vazio, da incerteza e da ameaça. De cortes e de asfixia. Com os diretores das escolas transformados nos chefes de secretaria preenchendo formulários eletrónicos nas plataformas centrais. Com os professores cansados de tanta mudança inútil porque não toca no essencial.
* José Matias Alves é investigador, doutor em Educação e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa.
13-12
* José Matias Alves
Continuamos a viver num sistema marcado por várias ilusões: a ilusão do comando e do controlo, a ilusão do poder dos decretos e do diário de república (vasto cemitério de leis); a ilusão das lideranças heroicas, salvíficas e solitárias; a ilusão da comunidade educativa; a ilusão dos projetos, planos e programas.
Nesta crónica defendemos a tese de que quando há um excesso de planificações, planos e projetos a realidade tende a ficar muito aquém do desejado e previsto. Mais: tende a ser substituída pelas ficções das narrativas que se escrevem ou esquematizam. Partindo de Pfeffer e Sutton (2000, 2006) identificamos 5 barreiras à ação resultantes deste excesso:
1. Quando o discurso e a escrita substituem a ação. Na arena escolar, muitas vezes basta escrever para não ter de agir. Outras, o esforço de planificar esgota a vontade, a energia ou tempo para concretizar. Outras ainda, o que interessa, segundo a boa regra burocrática, não é o fazer mas o que se escreveu sobre o que se vai fazer ou sobre o que já se fez.
2. Quando a memória substitui a nova ação. A ênfase da planificação alimenta-se, em regra, da memória, do passado e isso dificulta um ajustamento às novas realidades emergentes.
* José Matias Alves é investigador, doutor em Educação e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa.
29-11
* José Matias Alves
Todos conhecemos alunos que não queriam ir para a escola: porque as matérias nada lhes diziam, porque as aulas eram uma seca, porque precisam de biscatar para ajudar a família, porque e porque.
Começam agora a surgir os alunos que não querem sair da escola. Que adiam a conclusão do 12.º ano, que deixam deliberadamente uma disciplina para trás, ou a prova de aptidão profissional. Mesmo quando expectavelmente, no caso dos cursos profissionais, podem ter acesso a um emprego.
* José Matias Alves é investigador, doutor em Educação e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa.
14-11
* José Matias Alves
Dizia Roland Barthes, o célebre linguista e semiólogo francês precocemente desaparecido, na sua luminosa Lição, que há uma idade em que se ensina o que se sabe. É a tarefa comum dos que estão incumbidos da função docente: passar às novas gerações o património de valores, conhecimentos, técnicas, artes, culturas; ensinar as teorias, os métodos, as leis, os códigos, os factos; ensinar o que já se descobriu, o que já se inventou.
Mas vem em seguida a idade de ensinar o que não se sabe. Ensinar a incerteza, o obscuro, a viver sem teto, nas ruínas do tempo. Ensinar as rotas que ignoramos. E como é que se ensina o que não se sabe?
* José Matias Alves é investigador, doutor em Educação e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa.
28-10
* José Matias Alves
Como se sabe, há vários conceitos, tipos e perfis de liderança. Nas organizações escolares é relativamente consensual a vantagem da existência de uma liderança transformacional e inspiradora, que combata a ameaça da balcanização, da desconexão e as múltiplas forças centrífugas.
Mas nas escolas também podem existir lideranças tóxicas. As lideranças tóxicas podem seguir o seguinte padrão:
* José Matias Alves é investigador, doutor em Educação e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa.
13-10
* José Matias Alves
Começou mais um ano letivo. Com o problema da avaliação adiado, com algumas confusões na colocação de docentes, com uma significativa diminuição de professores colocados, com promessas (inúteis) de voltar a mexer em programas e de mais exames a contar para a nota e para a passagem de ano.
Aparentemente, foi um recomeço marcado por mais rigor, mais exigência, mais trabalho, mais prestação de contas, mais centração no essencial. E um certo alívio na panela de pressão dos dispositivos de avaliação de professores, adiando-se para mais tarde o tempo da crispação.
Um saldo, apesar de tudo, tendencialmente, positivo. Gostaria, no entanto, de sublinhar que o rigor, a exigência, o trabalho, o conhecimento têm de começar no Ministério da Educação que tem de fazer mais e falar menos; que tem de publicar menos no Diário da República e persuadir a agir mais e melhor os atores educativos situados nos diversos campos e níveis; que tem de prescindir das vastas ilusões da governação por decreto e por programas centralizados; abdicar das reformas morfológicas que só mudam os nomes e as formas e não têm o poder de alterar a substância das coisas e as dinâmicas das ações e das relações.
* José Matias Alves é investigador, doutor em Educação e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa.
30-06
* José Matias Alves
Chegamos ao merecido tempo de férias, com uma crise financeira e económica grave, com ameaças sérias de agitação social, com nuvens sombrias nos horizontes que respiramos. No campo educativo, chegamos com alguns sinais paradoxais, diversas incógnitas que o tempo a vir elucidará.
Quero aqui enunciar a necessidade de um tempo de alento e de esperança. Alento e esperança na capacidade das escolas e dos professores, no poder mobilizador das lideranças inspiradoras, na construção de um sentido de comunidade.
Precisamos de praticar uma ativa cidadania profissional e organizacional. Que faça dos professores coautores do seu destino e não meros funcionários ou súbditos. Professores que sejam ativadores das redes onde cada escola tem de ser, afirmando-se nas interdependências. E membros de pleno direito das organizações educativas que ajudam a desenvolver.
O tempo a vir é, certamente, um tempo difícil e sombrio. Mas as nossas inteligências podem iluminá-lo. As vontades podem tecê-lo. A nossa determinação e lucidez podem dar-lhe um sentido de humanidade (de que muito carecemos).
Divididos entre dois sentimentos. Entre a ameaça e a promessa. Mas, apesar de tudo, partidários de que outra ordem é possível.
A todos os meus leitores, votos de boas e merecidas férias.
* José Matias Alves é professor do Ensino Secundário, mestre em Administração Escolar pela Universidade do Minho, doutor em Educação pela Universidade Católica Portuguesa e professor convidado desta instituição.
15-06
* José Matias Alves
Não há dúvida de que a aprendizagem escolar exige trabalho, método, perseverança. E também não há dúvida de que a motivação não se prescreve, mas antes se gera através das práticas educativas que se desencadeiam no contexto escolar.
Para que o trabalho individual que o aluno realiza se constitua como fator de motivação, importa considerar as seguintes variáveis:
i) Que as tarefas, os temas e os problemas sejam relevantes para a vida presente ou futura dos alunos. A motivação nasce da visão, da compreensão, da perceção do uso pessoal e social dos conteúdos.
ii) As práticas devem centrar-se na aquisição de capacidades de compreensão, de exposição oral e escrita, de raciocínio, de uso e aplicação do conhecimento. A motivação gera-se a partir do sentido prático que as ações podem assumir.
iii) Os roteiros da ação devem ter guiões específicos de forma a estruturar as atividades de aprendizagem.
iv) As atividades (tal como os conteúdos) são estratégias de aprendizagem que visam desenvolver determinadas capacidades e competências e que importar explicitar e fazer compreender.
v) As atividades requerem um pensar sobre o seu desenrolar, de modo a avaliar o êxito e o fracasso e aprender com ambos.
vi) Que o professor forneça um feedback específico, de forma a reforçar/consolidar as aprendizagens realizadas ou corrigir os aspetos não conseguidos.
vii) A promoção da auto e hetero-avaliação como forma de ativação do conhecimento e de regulação das aprendizagens.
Por outro lado, se avaliação convocar o pensar e o compreender, e não apenas o recordar; se indicar os modos de superação das insuficiências e das dificuldades; se valorizar a capacidade de auto-avaliação; se os critérios de classificação forem claros, se centrarem nos progressos
realizados (e não apenas nos produtos) e se convocarem diversos instrumentos de medida (alinhados com as teorias das inteligências múltiplas), então, muito provavelmente, as práticas de escolarização estarão ao serviço das aprendizagens, da inclusão e da automotivação.
Fonte: Tapia (2005). Motivar en la escuela, motivar en la família. Madrid:Morata
* José Matias Alves é professor do Ensino Secundário, mestre em Administração Escolar pela Universidade do Minho, doutor em Educação pela Universidade Católica Portuguesa e professor convidado desta instituição.