25-11

 

 

* Carla Marques



A língua já existia antes de cada um de nós e, contudo, sentimo-la nossa. A escrita passou por inúmeras fases, que muitos desconhecem, e foi construída por homens cuja identidade e crenças se perderam na memória. Homens atrás de homens, escritos atrás de escritos, séculos após séculos legaram-nos uma herança que sabemos de todos, que sabemos existir para além de nós, antes e depois, mas que queremos nossa. Não gostamos que nos alterem a ordem das almofadas da sala ou dos livros da biblioteca, porque é a nossa ordem, porque são os nossos objetos. E porque a língua é nossa, de cada um de nós, não gostamos que mexam na nossa língua.


As reações afetivas à mudança que introduz o novo acordo ortográfico têm sido muitas e diversificadas, mas todas passam pela relação umbilical que estabelecemos com a língua na qual nos criamos e através da qual aprendemos a pensar e a exprimir os nossos pensamentos.

 

 

 

 

* Doutora em Linguística (na área da argumentação oral); investigadora do CELGA (Centro do Linguística Geral e Aplicada, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra); autora de várias publicações de caráter didático e de caráter linguístico; docente no Agrupamento de Escolas de Carregal do Sal.



publicado por Correio da Educação às 15:04
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24-05

* Carla Marques


Era uma vez uma escola. Era uma vez a história dessa escola. Era uma vez o tempo aqui e o espaço agora. Era uma vez as personagens dessa história. Era uma vez a trama dessa história. Era uma vez o autor dessa história.
As personagens dessa história eram inúmeras e mesmo contraditórias: um senhor que queria governar e outros sete que o queriam ajudar a mandar; outro senhor que queria controlar e ainda outros sete que sonhavam ajudá-lo a imperar; uns sonhavam com uma escola sem alunos, outros lutavam por uma escola sem professores; uns só queriam ter alunos para trabalhar, outros buscavam professores para avaliar; uns queriam aprender para ir mais longe, outros não queriam aprender, mas queriam ir mais longe; uns destilavam mágoas e rancores, outros buscavam unir e repartir; uns queriam uma escola centrada nos fins, outros queriam uma escola virada para os meios; uns queriam unir para avançar, outros queriam dividir para reinar; uns só queriam que os deixassem em paz, outros não deixavam ninguém sossegado; uns só queriam trabalhar, outros não deixavam fazer nada; uns queriam números numa pauta, outros buscavam caminhos invisíveis.

 

 

* Carla Marques - Mestre em Linguística e doutoranda na mesma área; autora de várias publicações de carácter didático e de caráter linguístico: docente na Escola Secundária/3 de Carregal do Sal.



publicado por Correio da Educação às 10:28
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01-02

 

* Carla Marques

 

 

Os novos Programas de Português do Ensino Básico que entrarão em vigor no ano letivo de 2011/2012, nos três ciclos do Ensino Básico, trazem um conjunto de novidades que implicam grandes mudanças na forma como a escola se relaciona com os curricula.

 

Entre estas alterações, teremos de salientar o novo papel que é atribuído ao professor de Português. Este passa a ser o principal responsável pelo desenvolvimento curricular da disciplina que leciona. A descentralização parcial do centro de decisões curriculares para a figura do professor sinaliza, a meu ver, duas mudanças de grande importância: a reiteração, por um lado, da importância da autonomia do professor enquanto gestor de conteúdos programáticos e, por outro, o reconhecimento da heterogeneidade que caracteriza o mapa escolar português, que engloba no seu seio alunos com necessidades, saberes e perfis muito específicos e distintos.

 

 

 

 

 

Carla Marques - Mestre em Linguística e doutoranda na mesma área; autora de várias publicações de carácter didático e de caráter linguístico: docente na Escola Secundária/3 de Carregal do Sal.



publicado por Correio da Educação às 12:38
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13-01

 

* Carla Marques

 

 

Todos guardamos na memória a imagem e os ensinamentos de um professor que, a certa altura do nosso percurso, nos marcou indelevelmente, deixando em nós um sinal que teima em ficar para toda a vida.
Todo o professor sabe que, a certa altura do seu percurso, marcará indelevelmente um aluno e deixará nele um sinal que teimará em acompanhá-lo por toda a vida.

 

Esta é uma dádiva que só quem é professor pode compreender. E somente o professor sabe também que, para que isto aconteça, são necessárias condições muito especiais.

 

 



publicado por Correio da Educação às 12:05
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24-11

 

Carla Marques*

 

Os professores, que investiram numa formação científica e pedagógica, deparam-se atualmente com uma realidade escolar para a qual não se preparam e que, em nada, corresponde ao tipo de formação na qual se especializaram.
A escola pública enche-se de turmas “fabricadas” para o sucesso: CEF, EFA, PIEF… os nomes pouco importam. As realidades que cada uma destas siglas evoca tocam-se em muitos pontos. Um professor entra numa sala de aulas movido pela vontade de ensinar, de partilhar conhecimento, de abrir caminho aos alunos para que estes cresçam. Todavia, a realidade que se lhe oferece em nada corresponde a esta idealização, cada vez mais utópica, das funções da docência. São turmas repletas de alunos que não têm vontade de estar na escola, naquela ou em qualquer outra. São alunos a quem nenhum tipo de saber interessa, por muito motivadora que a acção didática possa ser. São seres enclausurados, que estão na escola sem ter um objetivo que se coadune com a realidade que os enquadra. São alunos violentos, que veem em qualquer atitude um pretexto para medir forças com o mundo. São trabalhadores cansados, que, ao final do dia, rumam em direção à Escola em busca de um diploma prometido (“mas, não seja muito exigente, professor…”).

 

 

* Carla Marques - Mestre em Linguística e doutoranda na mesma área; autora de várias publicações de carácter didático e de caráter linguístico: docente na Escola Secundária/3 de Carregal do Sal.



publicado por Correio da Educação às 19:02
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18-06

Carla Marques*

Ou da estranha inversão entre os meios e os fins

 

Ao longo de todo um ano lectivo marcado pela expectativa da mudança, por alguma ansiedade e por muito marasmo, os professores aguardaram com a paciência possível as decisões da tutela. Estas revelaram-se escassas, foram lançadas a conta-gotas, desencontradas e avulsas, deixando os professores a suspeitar da possibilidade de um projecto maior, concebido na penumbra para ser lançado quando menos se espera ou quando as atenções se centram noutros interesses…

Sem entrar na teoria da conspiração, gostaríamos, todavia, de reflectir sobre uma das mais “inovadoras” medidas levadas a cabo pela actual equipa ministerial (dando aliás continuidade a um projecto da anterior equipa): a certificação das competências TIC.

Carla Marques - Mestre em Linguística e doutoranda na mesma área; autora de várias publicações de carácter didáctico e de carácter linguístico: docente na Escola Secundária/3 de Carregal do Sal.



publicado por Correio da Educação às 12:16
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02-06

Carla Marques*

 

A sociedade moderna é um monstro voraz capaz de roubar ao ser humano aquilo que é conhecido como “tempo”. A desenfreada corrida do quotidiano deixa cada vez menos tempo para aquilo que se designa por “tempo livre”. Este conceito, cada vez mais estranho e desprezível aos olhos da moderna máquina social, vai caindo em desuso e leva consigo idosos, adultos e também crianças. A sociedade exige adultos com uma capacidade de produção cada vez maior, nega aos mais idosos a saída atempada da “vida activa” e rouba às crianças o tempo para brincar.

*Carla Marques - Mestre em Linguística e doutoranda na mesma área; autora de várias publicações de carácter didáctico e de carácter linguístico: docente na Escola Secundária/3 de Carregal do Sal.



publicado por Correio da Educação às 10:47
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16-04

Carla Marques*


Estou cansado, é claro,

Porque, a certa altura,

a gente tem que estar cansado.

De que estou cansado, não sei:

De nada me serviria sabê-lo,

Pois o cansaço fica na mesma.

A ferida dói como dói

E não em função da causa que a produziu.

Sim, estou cansado,

E um pouco sorridente

De o cansaço ser só isto

— Uma vontade de sono no corpo,

Um desejo de não pensar na alma,

E por cima de tudo uma transparência lúcida

Do entendimento retrospectivo...

E a luxúria única de não ter já esperanças?

Sou inteligente; eis tudo.

Tenho visto muito e entendido muito

o que tenho visto,

E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,

Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

Álvaro de Campos, in "Poemas"

 

 

Se por esta altura entrarmos numa sala de professores de qualquer escola do país, este será o ambiente que paira no ar… Cansaço.

Num passado ainda demasiado recente, os professores uniram-se, transformaram-se diversidade, diferenças, incompatibilidades numa manta de retalhos que se uniu e que lhes deu a agradável sensação de união e força. E assim foram, gritaram o seu direito de ser professores nas ruas e nos caminhos virtuais. Moviam-nos as vozes que teimavam em anular uma classe, as intermináveis reuniões improváveis, a degradação do ambiente da escola, a luta pela qualidade de um ensino que viam decair a cada portaria, a cada decreto. Uniram-se porque pressentiram o fumo da injustiça moldado por uma avaliaçã o do desempenho que sabiam não poder ser justa, rigorosa ou verdadeira.

*Carla Marques - Mestre em Linguística e doutoranda na mesma área; autora de várias publicações de carácter didáctico e de carácter linguístico: docente na Escola Secundária/3 de Carregal do Sal.



publicado por Correio da Educação às 00:34
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08-03

Carla Marques*

Os professores de Português foram recentemente confrontados com a suspensão da entrada em vigor dos Programas para o Ensino Básico. A decisão criou uma onda de espanto e de incompreensão, sobretudo por parte dos professores que investiam já numa preparação séria do próximo ano lectivo. As razões avançadas para a decisão tomada, vagas e titubeantes, também não contribuíram para a aceitação da tomada de posição do Ministério da Educação como algo inevitável e inquestionavelmente benéfico.

 

*Carla Marques - Mestre em Linguística e doutoranda na mesma área; autora de várias publicações de carácter didáctico e de carácter linguístico: docente na Escola Secundária/3 de Carregal do Sal.



publicado por Correio da Educação às 16:17
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17-02

Carla Marques*

 

Cada vez mais se verifica uma pressão social de que aquilo que se ensina na escola sirva para alguma coisa. Fotografar será importante num curso de Marketing, realizar desenho técnico num curso de Design, podar videiras num curso de Enologia, programar computadores num curso de Informática. Todavia, esta necessidade de materialização do saber convertido em realização de utilidade pragmática não é nem poderá ser a vertente central e predominante do ensino na sua dimensão geral de formação de seres humanos, futuros cidadãos conscientes e activos. Os nossos alunos, os seus encarregados de educação e até mesmo algumas correntes do poder político vivem obcecados pela importância da aplicabilidade imediata das aprendizagens, mas as escolas não são fábricas de produção em série de executantes. Nas escolas deveria, antes de mais, começar por ensinar-se a pensar, procurando a formação de alunos cultos, conhecedores de diferentes áreas do saber, informados, conscientes e críticos. A componente técnica virá numa fase posterior e poderá ganhar com uma formação globalizante de base um enquadramento mais complexo que a enriquecerá.

 

*Carla Marques - Mestre em Linguística e doutoranda na mesma área; autora de várias publicações de carácter didáctico e de carácter linguístico: docente na Escola Secundária/3 de Carregal do Sal.

 

 

 

 

 

 

 



publicado por Correio da Educação às 12:09
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