05-11

* Inês Silva

Lembro-me de há uns quinze anos uma turma queixar-se de uma professora de matemática. Diziam os alunos que ela permanentemente se fixava na janela e se esquecia deles. Eu, como diretora de turma, teria de resolver o problema. Mas ela estava deprimida e assustada, não com a crise dos tempos de hoje, claro, mas com outra, para a qual não encontrava solução. E eu também não sabia como ajudar. Os alunos não compreendiam. Para eles, ela era medíocre. E eu, que não resolvia o caso, também. “Não se brinca com um 11.º ano”, diziam. “Eu quero entrar em medicina”, acrescentava um. “E eu preciso de boa nota a matemática, que é a específica”, acrescentava outro. “Façam os exercícios do manual que ela vai pedindo”, dizia eu, sem mais inteligência. Mas face a esta sugestão, contaram-me logo a história do dia anterior: depois de terem entrado na aula, a professora pediu-lhes que fizessem os exercícios de uma determinada página e logo fixou o olhar na janela, no Outro lado que, decerto, apaziguava tudo aquilo que a emudecia. Passados minutos, um dos alunos perguntou-lhe:
- Afinal, qual é a página, stôra?
- Ah? Ah, sim… é… é uma qualquer.
Para ela, qualquer página servia. Mas para eles não. Porém, apesar desta adversidade, os alunos lá foram caminhando até ao fim do ano e até ao fim de muitos outros anos, com a determinação que não encontraram na professora. Contudo, hoje, já médicos, engenheiros, veterinários, também olham pela janela à procura do Outro lado, o lado que alivia as tensões maiores. E agora percebem a resposta da professora. Em certos momentos da vida, qualquer página serve para a nossa história. A falta de perspetiva de futuro a isso leva.

 

* Doutora em Linguística (Sociolinguística). Professora Adjunta convidada na Escola Superior de Educação de Santarém. Tem realizado estudos sobre a escrita dos alunos. É autora de várias publicações de caráter didático e de caráter linguístico. Na ficção, publicou o romance: A Casa das Heras.



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27-04

* Inês Silva

 

Alguns títulos de jornais, publicados recentemente, deixaram-me perplexa: “Acordo ortográfico adiado na CPLP” (Sol, 3/03/2012); “Governo admite rever Acordo Ortográfico” (RTP, 29/02/2012); “Governo vai alterar Acordo Ortográfico” (Expresso, 29/02/2012). A minha perplexidade advém do facto de não perceber por que razão os que mexem e remexem neste caldeirão, que se chama Portugal, motivados por um força egocêntrica, nunca se queimam.


O projeto de texto de ortografia unificada de língua portuguesa, designado Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, foi aprovado em Lisboa, no dia 12 de outubro de 1990. Foi ratificado pelo decreto do presidente da república n.º 43/91, de 23 de Agosto de 1991, e está em vigor, na ordem jurídica interna, desde 13 de maio de 2009. A resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, de 25 de Janeiro, determinou a aplicação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa no sistema educativo no ano letivo de 2011/2012 e, a partir de 1 de janeiro de 2012, ao Governo e a todos os serviços, organismos e entidades na dependência do Governo, bem como à publicação do Diário da República. Apesar da discórdia em torno das XXI Bases deste novo acordo, ninguém conseguiu travar estes passos em tempo útil.

 

 

* Doutora em Linguística (Sociolinguística). Professora Adjunta convidada na Escola Superior de Educação de Santarém. Tem realizado estudos sobre a escrita dos alunos. É autora de várias publicações de caráter didático e de caráter linguístico. Na ficção, publicou o romance: A Casa das Heras.



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27-10

* Inês Silva



A melhoria das condições de vida é um dos fatores que tem levado o homem a severas transformações sociais, económicas e até políticas. E é para isso que ele luta e trabalha. Por detrás dessas condições de vida está a ideia de felicidade. No fundo, o que o move é a felicidade. Mas, por vezes, ela não está onde julga estar – no mais complexo, no mais acessível, no mais confortável. Também não está na precariedade, na fome, na ignorância, claro. Pode simplesmente estar naquilo em que se acredita ser bom e bem feito.
Quando eu andava na escola primária (na altura assim designada), os alunos usavam bata para disfarçar as roupas que traziam dos irmãos ou dos vizinhos mais abastados. Note-se que já ninguém ia roto ou descalço. Mas as camisolas eram mais curtas nas mangas e as calças tinham em baixo as marcas de bainhas descidas vezes sem conta. Quando se rasgavam nos joelhos, levavam um remendo, às vezes em forma de boneco. Nos intervalos, corria à volta da escola, sem gradeamento, no meio do pó branco, chapinhava nas poças de água, subia a um ou outro morro e ia até à casa de banho, pequena, sem apetrechos. O lanche era pão com manteiga que levava de casa e leite aquecido pela auxiliar numa grande panela de alumínio, servido em copo de plástico por uma concha. Todos bebiam leite e comiam pão. Houve um ano em que serviram bolachas de água e sal e queijo, mas nem todos gostavam. As crianças da altura estavam mais habituadas a sopas e a outras comidas quentes. Frio, só mesmo o pão. Não havia bolicaos nem donuts nem kinders. A pequena bolacha Maria aquecia-se na boca, ao ser mastigada devagar. Ia-se a pé para a escola de pasta de uma só cor: castanha, azul, ou preta (na altura não havia mochilas com super-homens ou  barbies). Sendo uma pasta, servia para levar os livros e cadernos e era o que bastava. As horas dentro da escola, por vezes com chuva a cair em certos cantos, eram passadas a ler textos (todos os dias e em vários momentos), a fazer exercícios de compreensão textual, exercícios de caligrafia, exercícios de ortografia, redações e mais redações, reduções e outros problemas de matemática. Aliás, não havia uma tarde em que não se resolvessem problemas de matemática no quadro, lembro-me bem (e eu que não gostava de matemática! Paciência, minha filha!). Às vezes, às sextas, fazíamos trabalhos manuais (ou de expressão plástica, como queiramos chamar). Tudo isto só com uma professora. Não conheci outros na escola primária.

 

* Inês Silva - Doutora em Linguística (Sociolinguística). Professora Adjunta convidada na Escola Superior de Educação de Santarém. Tem realizado estudos sobre a escrita dos alunos. É autora de várias publicações de caráter didático e de caráter linguístico. Na ficção, publicou o romance: A Casa das Heras.



publicado por Correio da Educação às 15:30
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29-06

* Inês Silva

 

Tem-se vindo a assistir, desde o início do século XXI, ao fim das humanidades em Portugal. Cada vez menos os alunos escolhem esta área de estudos no ensino secundário. Cada vez menos pretendem tirar uma licenciatura em línguas e literaturas ou em linguística, ou ainda em história ou filosofia. E cada vez menos se interessam pela “cultura” associada à sua língua, literatura, vivências do passado…


Também em certas licenciaturas, como Educação Básica, os docentes confrontam-se com a dificuldade crescente dos estudantes (futuros educadores e professores) em acompanhar os programas de unidades curriculares como cultura portuguesa, literaturas lusófonas, linguística, história.  


A que se deve este desinvestimento e este desinteresse (quase repúdio) pelas humanidades?

 

* Inês Silva - Doutora em Linguística (Sociolinguística). Professora Adjunta convidada na Escola Superior de Educação de Santarém. Tem realizado estudos sobre a escrita dos alunos. É autora de várias publicações de caráter didático e de caráter linguístico. Na ficção, publicou o romance: A Casa das Heras.



publicado por Correio da Educação às 15:28
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22-06

* Inês Silva



Numa sessão de formação de professores de português num destes dias, partilhava-se a ideia de que era muito importante explorar as ilustrações dos livros junto dos alunos mais novos (1.º e 2.º ciclos). Na tarde anterior, e no lançamento de um livro infantil, ouvia-se a ilustradora dizer que sentiu muito medo ao ser confrontada com a realidade de ter de ilustrar uma história escrita por outra pessoa. “E se eu não conseguir representar o mundo que a autora imaginou, quando escreveu a história?”, disse ter pensado várias vezes.

 
A ilustração ganhou uma importância notória nas últimas décadas, no âmbito do livro infantil, o que leva a crer que, sem ilustração, o livro se torna mais aborrecido, mais difícil e que, por isso, não proporciona prazer. Não é verdade. A ilustração, de facto, integra a comunicação não verbal e, como tal, tem uma significação própria que proporciona percursos de leitura no âmbito da sua especificidade. É extremamente importante. No entanto, não substitui a história nem a verte plenamente.

 


* Inês Silva - Doutora em Linguística (Sociolinguística). Professora Adjunta convidada na Escola Superior de Educação de Santarém. Tem realizado estudos sobre a escrita dos alunos. É autora de várias publicações de caráter didático e de caráter linguístico. Na ficção, publicou o romance: A Casa das Heras.



publicado por Correio da Educação às 16:16
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28-04

 

* Inês Silva

 

 

Num período em que muitas famílias contam tostões em casa para fazer face a todas as despesas, há quem se regozije com inaugurações, primeiro de escolas, depois de unidades hospitalares, a seguir de estradas e autoestradas. Esperemos pelas futuras, para não recordar os estádios de futebol do passado. Obras e obras feitas e a serem feitas, sem dinheiro…. São obras dignas, claro, e muitas fazem falta. Mas há o outro lado da questão: quem as vai pagar? Legítima pergunta, esta, dado que os tostões das famílias não chegam para tanto.

A dignidade de uma obra não vem da ação do governante que a manda construir ou a inaugura, principalmente porque não é ele quem a constrói ou paga os bons materiais que uma qualquer empresa de construção escolhe, se for do Estado. Por exemplo, não se creia que a dignidade de uma escola vem do material que reveste teto, chão e paredes. Obviamente que ele tem de ser resistente, mas antes do pormenor da estética, estão as suas mesas e cadeiras ajustadas à aprendizagem, as salas de aula com luz, quadro, cadeiras, carteiras e algum material informático, laboratórios e bibliotecas sérias, pavilhões desportivos dinâmicos, com uma estrutura sólida para fomentar a paixão dos alunos pela atividade desportiva – quando o desporto é saúde e alegria de viver. A dignidade da escola vem do trabalho consistente desenvolvido, da cordialidade e confiança entre direção-alunos e direção-encarregados de educação, da motivação intrínseca e extrínseca dos seus agentes, da vontade de ensinar e de aprender, dos valores desenvolvidos, do projeto educativo aplicável aos interesses dos indivíduos…

 

* Inês Silva - Doutora em Linguística (Sociolinguística). Professora Adjunta Convidada na Escola Superior de Educação de Santarém. Tem realizado estudos sobre a escrita dos alunos. É autora de várias publicações de caráter didático e de caráter linguístico. Na ficção, publicou o romance: A Casa das Heras.



publicado por Correio da Educação às 14:25
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23-02

* Por Inês Silva

 


Os acontecimentos da educação, que têm sido noticiados nos últimos tempos, relacionam-se, sobretudo, com a forma como o governo tem conduzido a sua ação governativa, assente em questões financeiras, que se traduziram nos cortes dos salários dos professores do ensino público e nos despedimentos dos do ensino particular e cooperativo. O desequilíbrio na profissão de docente é notícia. E é notícia séria, para levar a sério.
A sério deveria também ser levada a notícia sobre os salários dos gestores trazida a lume recentemente, que, aliás, não é de hoje. Lembro-me de, há um tempo atrás, ter ouvido qualquer coisa semelhante. Não me lembro dos valores revelados. Lembro-me simplesmente de ter ficado atónita perante a inércia de todos, tal como aconteceu agora.

 

* Inês Silva - Doutora em Linguística (Sociolinguística). Professora Adjunta Convidada na Escola Superior de Educação de Santarém. Tem realizado estudos sobre a escrita dos alunos. É autora de várias publicações de caráter didático e de caráter linguístico. Na ficção, publicou o romance: A Casa das Heras.



publicado por Correio da Educação às 11:49
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16-12

 

*Inês Silva

 


Boa notícia… a de que subimos no ranking da OCDE. Boa notícia… a de que as retenções baixaram. Boa notícia… a de que os professores foram os grandes responsáveis por estas boas notícias.
A televisão vai mostrando os políticos a regozijarem-se com a aprendizagem de sucesso dos nossos alunos e com o trabalho de todos os professores. Convém-lhes neste momento tecer alguns elogios a quem é sistematicamente espezinhado e culpado dos males maiores da sociedade das (in)competências.

 

* Inês Silva - Doutora em Linguística (Sociolinguística). Professora Adjunta Convidada na Escola Superior de Educação de Santarém. Tem realizado estudos sobre a escrita dos alunos. É autora de várias publicações de caráter didático e de caráter linguístico. Na ficção, publicou o romance: A Casa das Heras.



publicado por Correio da Educação às 12:57
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28-10

*Inês Silva

 

Otimismo é uma palavra pouco audível nos dias que correm. A tendência é a de se dizerem, quase ininterruptamente, palavras de outra ordem, como “crise”, “dívida”, “desemprego”, “dificuldade”, “sacrifício”, “austeridade”, “boys”, “corrupção”, “falência”, “corte”, “custos”, “queda”, “incompetência”,”fragilidade” – nomes que, nos contextos em que são ditos, só podem semanticamente contribuir para caracterizar de “infeliz” o país em que vivemos. E não são apenas proferidos em conversas de circunstância, aquelas que preenchem os espaços sociais nos locais públicos e privados, quando encontramos algum amigo ou algum conhecido e perguntamos “Como vai?”/ “E a família?”, e onde, por vezes, ainda introduzimos um comentário, como “Choveu imenso nos últimos dias!”, finalizando com um espécie de refrão de cantiga de escárnio e maldizer dos tempos de agora: “É a crise!”. Os tais nomes depreciativos também têm sido utilizados “à boca cheia” por várias personalidades públicas, jornalista e políticos, quer na imprensa quer na televisão, em todos os canais, em todos os debates e em todos os noticiários. Ou seja, estão a dominar lexicalmente a comunicação pública e privada do momento.

 

 

 

*Inês Silva - Doutora em Linguística (Sociolinguística). Professora Adjunta Convidada na Escola Superior de Educação de Santarém. Tem realizado estudos sobre a escrita dos alunos. É autora de várias publicações de caráter didático e de caráter linguístico. Na ficção, publicou o romance: A Casa das Heras.



publicado por Correio da Educação às 15:52
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27-09

Inês Silva*

É inevitável, por vezes, não se ouvirem certas conversas que ocorrem entre pessoas, anónimos discretos que, distraidamente, se sentam num qualquer lugar e falam sobre os seus afazeres, filhos, sogras, trabalho, entre outros aspectos. Ninguém faz por mal: nem quem fala e é ouvido por alguém, nem quem ouve alguém falar. O ouvinte, que só por acaso é ouvinte, não é um espião nem um jornalista. É alguém que ouve mas não ouve. No entanto, possuindo o ser humano curiosidade aguçada, tal como tem mostrado ao longo da História, por que não liga ele à conversa alheia?

A resposta é muito simples: as conversas do dia-a-dia são cada vez mais vazias. Não têm conteúdo. Por isso, não vale a pena procurar ouvir. Não têm interesse nenhum para ninguém. E ai de quem se atreva a lançar para a mesa um tema polémico, pertinente ou inteligente. A boa conversa está a ser substituída pela tagarelice oca, imposta por regras de cortesia pouco sólidas numa sociedade cada vez mais destituída de conhecimento e de espírito crítico. Não se está aqui a falar de técnicas da expressão oral, mas sim de assunto, tema, conhecimento – da inventio dos retóricos.

Inês Silva - Doutora em Linguística (Sociolinguística). Tem realizado estudos sobre a escrita dos alunos. É autora de várias publicações de carácter didáctico e de carácter linguístico. Na ficção, publicou o romance: A Casa das Heras. É docente no Externato Cooperativo da Benedita.



publicado por Correio da Educação às 08:37
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