09-01

 

* Teresa Martinho Marques


Não deixo acumular as mensagens no correio eletrónico. Não deixo acumularem-se as novidades do digital, trazidas por amigos e colegas Não deixo adensarem-se as novidades, que eu própria procuro ao preparar as muitas ações que o ano de 2012 trará. Isso significa nunca interromper o fluxo de trabalho digital, nem mesmo nas épocas festivas como a que passou. Verdade seja dita, nos tempos em que era tempo de presentes, tão pouco deixava acumular as obrigações das festas e chegava a dezembro serenamente sem compras para fazer. Talvez seja coisa minha, talvez aguçado instinto de sobrevivência. Sou rápida para poder ser lenta. Sou organizada para poder ter um tempo vazio e desordenado à minha espera. Adio a gratificação para saborear a cobertura doce do bolo no final de cada dia. Adormeço sem insónia com a leveza do dever cumprido.


Gosto de abrir a caixa do correio e não a ver invadida com muitos centímetros de escuro por ler. Lido mal com a densidade das coisas reais e digitais. Falta-me ar se o espaço não tiver uma dose essencial de luz e branco à minha espera. Não sei exatamente como aprendi a lidar com a avassaladora velocidade dos dias e da informação que nos invade dentro deles. Não foi a escola, acho. Ou terá sido? Defendo-me sendo egoísta no meu tempo de rede. Escrevo para os outros, mas começo a conter o desejo de dizer. Bebo menos o que os outros oferecem, mas aprendo a arte de escutar. Seleciono com precisão cirúrgica o que quero. Apago, arrumo, escondo tudo o que não me apetece. Recuso bem mais do que aceito. Aprendo a apreciar o silêncio como a palavra mais importante dos anos que estão para chegar.

 

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* EB 2,3 de Azeitão e CCTIC – ESE/IPS: http://projectos.ese.ips.pt/cctic/ e http://eduscratch.dgidc.min-edu.pt/    



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12-12

 

* Teresa Martinho Marques



(Algumas histórias contadas, com muitos sorrisos, pelos professores que frequentaram a Oficina de Formação – Scratch e Matemática – 1.º Ciclo e Pré-escolar do CCTIC-ESE/IPS - e se atreveram a aventuras especiais com os seus alunos, mesmo depois de um tempo relativamente curto de aprendizagem da ferramenta Scratch).

... Eles são tão bebés no falar (quatro/cinco anos), mas nos nomes dos dinossauros acertam sempre e sem nenhuma falha de dicção... Pusemos o Apatossauro a andar de um lado do ecrã para o outro utilizando o “desliza num segundo, para determinados pontos x e y”, e um dos alunos diz logo: “O Apatossauro não anda tão depressa. Eles andavam muito devagarinho!”. Ora, por defeito, o comando de programação “desliza” tem 1 segundo de tempo marcado... Perguntei-lhe: “Já viste ali o número 1(segundo) do tempo que ele anda... Se queres mais devagar o que devemos fazer?” A resposta pronta: “Professora tem de ser um número maior de segundos!”... (a física intuída aos cinco anos – relação espaço/tempo = velocidade)... “E tu conheces um número maior que um?”... “Sim!... o seis!”. Descobriu o seis no teclado e experimentou... “E agora?”... “Oh... ainda não dá... está médio”! “Hummm... então que fazemos agora?”… “Pomos outro maior!”... “E conheces mais algum?”...  “Sei o oito!”... Experimentou e... “Está quase, mas tinha de ser mais!”... é que ele ainda não conhece números maiores do que oito.  Então agarrei nas mãozinhas dele, levantei-as, abriu os dedinhos e eu recordei o número dez! Ele escreveu esse número, com a minha ajuda e ficou feliz com o resultado. “Agora é que está mesmo bem! Com o dez – dedos no ar – é que fica bem!”.

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14-11

 

* Teresa Martinho Marques

 

Uma professora a lecionar o 1.º ano, pela primeira vez, propõe aos alunos (com 6 anos) uma tarefa de interpretação de dados num gráfico de barras. O tema? Pacotinhos de leite bebidos pelos meninos de uma turma ao longo da semana. Explica-se o gráfico, diz-se o que está escrito (dias da semana no eixo do X e número de pacotinhos no eixo do Y) e a certa altura esta pergunta: Em que dia da semana se beberam mais pacotinhos de leite?

O João coloca o dedo no ar e responde: Terça!

A professora: Está errado! Não é esse dia!

O João fica atrapalhado e a turma olha para ele e para a professora...

 

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12-10

 

 

 

 

* Teresa Martinho Marques

 


Abro a televisão e lá está a psicóloga a falar dos casais desavindos (e muitas vezes divorciados) por causa do Facebook. E são tantos e pelas mais diversas razões... «Está a ver... algumas mulheres não gostam que os seus companheiros façam like em meninas de biquini... Ou que as adicionem como amigas... E não querem que os companheiros/as fiquem tanto tempo de volta do computador em vez de prestarem atenção à família...» E que antes a culpa já foi também muito das salas de chat... e continua a ser dos sms do telemóvel e de toda essa parafernália de tecnologias do demo que chegou apenas para destruir as pobres famílias e afastar as pessoas umas das outras. Antes de tudo isto, penso eu à luz do que escuto, nunca ninguém se desamava, se traía, se afastava como agora. Saudades de uma caverna à luz da lareira.

 

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27-06

 

* Teresa Martinho Marques



O trabalho continuado de investigação e aperfeiçoamento das linguagens e ambientes de programação para jovens (LOGO, nos anos 80), desenvolvido no Massachusetts Institute of Technology, produziu a ferramenta Scratch ‐ um ambiente gráfico de programação inovador, divulgado publicamente apenas em Maio de 2007, que permite trabalhar cooperativamente e utiliza media diversificados.

 

O Scratch (cujo slogan é: «imagina, programa, partilha») foi concebido e desenvolvido como resposta ao problema do crescente distanciamento entre a evolução tecnológica no mundo e a fluência tecnológica dos cidadãos, e pensado, igualmente, para promover um contexto construcionista propício ao desenvolvimento da fluência tecnológica nos jovens, desde muito cedo, e das competências transversais ditas «para o século XXI», nomeadamente a resolução de problemas. Os seus autores pensam que poderá, ainda, permitir avançar na compreensão da eficácia e inovação do uso das tecnologias nos processos de aprendizagem em diferentes domínios e contextos, de forma mais específica na educação matemática formal e informal (pela própria natureza do ambiente), incentivar a criação e invenção  (para que os jovens não sejam apenas meros consumidores de tecnologia) e estimular a aprendizagem cooperativa.

 

 


O projecto EduScratch, criado no presente ano (numa parceria ERTE/PTE, DGIDC, CCTIC ESE/IPS e SAPO KIDS), tem como meta principal promover a criação e desenvolvimento de uma comunidade de educadores em torno da utilização do Scratch em ambiente escolar. Pretende‐se com o seu desenvolvimento divulgar e apoiar a utilização do Scratch (e o conhecimento sobre esta ferramenta), bem como incentivar à sua utilização através da formação e da partilha. Já existe em Portugal um portal (SAPO Scratch) desenhado por uma equipa da PT Inovação/SAPO, como resultado de uma parceria desta empresa com o MIT.


Aqui poderão encontrar um webinar da ERTE/PTE sobre o tema e algumas referências bibliográficas úteis com ligações ativas para os textos.

 

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publicado por Correio da Educação às 15:57
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13-06

* Teresa Martinho Marques

 

Chegou entusiasmado, desejando partilhar:
– Oh, professora, pensei no desafio e construí o meu relógio com o Scratch.
– Boa! E então como foi? Como fizeste?
– Bem, eu fiz o relógio e o ponteiro dos segundos (eram dois sprites) e pensei que o ponteiro depois de rodar tinha de esperar um segundo, claro. Mas depois o ângulo é que demorou mais a descobrir!
–Conta lá!
Era o final da aula de Estudo Acompanhado, e o F. contava-me a história a mim e ao professor de Língua Portuguesa:
– Então, aquilo quando começa tem sempre 15 graus na instrução de rodar, mas achei que era muito e mudei para 10. Experimentei mas não deu. Depois experimentei um grau por cada segundo. Era pouco e não dava. Fui experimentando e acabei por chegar a seis graus, que é o valor certo para o relógio funcionar.
– Então porquê?
A minha cabeça ia já a mil, apercebendo-me do problema matemático que havia estado à sua mão de resolver… se eu estivesse perto dele tê-lo-ia colocado a pensar no assunto: – Vamos lá pensar juntos.
O professor de Língua Portuguesa começava a ficar entusiasmado com o rumo da conversa… E foi ele quem perguntou: – O relógio é o quê?
– É um círculo…
– Sim, e então quantos graus tem uma volta completa?

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20-05

* Teresa Martinho Marques

 

 

Ela aproximou-se de mim no final da aula e disse: "De tudo o que andamos agora a fazer nas aulas quando resolvemos problemas, o que mais me tem ajudado é aquela coisa da professora estar sempre a dizer e a mostrar que temos de usar a nossa inteligência natural para os resolver! Já estou melhor a resolvê-los e já nem tenho tanto medo!”

Há uns anos li um livro de John Holt que marcou indelevelmente o meu caminho (How children fail – Dificuldades de aprendizagem, Ed. Presença). Entre muitas coisas escritas nos anos 60, mas com preocupaçãoes tão atuais como as de hoje, uma história prendeu-me. Essa história foi, por sua vez, retirada por John de um outro livro (James Herndon – How to survive in your native land) e estava num capítulo intitulado “A turma burra”. Esse capítulo dizia respeito a uma turma, que James lecionava, constituída por crianças do 1.º Ciclo incapazes de aprender e, sobretudo, a um rapaz que parecia ser o mais burro da turma burra. Era descrito como absolutamente irrecuperável e incapaz para qualquer trabalho escolar. Um dia, James encontrou-o numa pista de bowling anotando os resultados oficiais em torneios exigentes. Apontava as sobras, os plenos e havia sido contratado por trabalhar rapidamente e com precisão. Ninguém toleraria erros nesses torneios e ele não os cometia. Então James decidiu propor-lhe, na escola, alguns problemas sobre bowling... e ele não foi capaz de os resolver! As respostas, mais do que erradas, eram completamente absurdas.

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14-04

 

* Teresa Martinho Marques

 

 

Poderia começar por dizer que não há receitas. Que cada contexto é um contexto específico. Que a primeira diferença nasce em cada um de nós pessoa, professor, em cada escola. Poderia dizer que o tempo é uma variável fundamental. Verdades incontestáveis. Mas preciso de dizer um pouco mais. Procuremos, então, alguns aspetos comuns das viagens. Pequenos exemplos e ideias soltas.

Há uma variedade imensa na quantidade, tipo e causas para os erros que os alunos cometem. Em Matemática, se não fosse às vezes triste... poderíamos sorrir com as variantes. Então, qual o interesse de ir ao quadro fazer a correção de um teste de forma distante, que parece servir a todos e não serve verdadeiramente a nenhum, que pouco lhes devolve de essencial e aborrece de morte os que têm tudo certo e são obrigados a copiar todas as respostas?

Os alunos podem e devem ser confrontados diretamente com os erros cometidos (chamo-lhes as consultas “médicas”). Nesses momentos ganhamos um conhecimento privilegiado sobre eles (erros e alunos). Se não individualmente, pelo menos em pequenos grupos. São momentos de crescimento para nós, também. Perceber a lógica de um erro novo que nunca observámos é ter a possibilidade de ajustar a forma como determinado conteúdo pode ser abordado de forma a evitar a confusão. Como? Se possível, criar um tempo de diálogo exterior à aula (como Estudo Acompanhado, um clube de apoio – aproveito frequentemente esse tempo de qualidade com eles para aprofundar a relação e o conhecimento das pessoas que todos são). Se não... então organizar o diálogo/correção em grupos autónomos, dispensando os alunos que não cometeram erros significativos (sempre que sinta que é mais vantajoso para estes organizarem autonomamente o trabalho que irão fazer na aula). Não é tão rico, mas é preferível à massa anónima da aula dirigida como orquestra em que todos tocam o mesmo instrumento.

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publicado por Correio da Educação às 10:53
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14-03

 

* Teresa Martinho Marques

 

 


A escola tende a ser um espaço de massas anónimas, espaços e tempos formatados, uniformização e médias. Número excessivo de alunos é uma tentação para adormecer no branco e não convida ao arco-íris.
Há muitos anos, a Filipa (nunca mais esqueci o nome dela), depois de concluir uma ficha de avaliação, surpreendeu-me com este desabafo: Professora, fiquei desapontada com o teste. Explicou-me que sabia resolver problemas e expressões numéricas muito mais complicados, tinha estudado imenso e o teste era... muito fácil!

Esta menina de 11 anos motivou a mudança na minha forma de olhar as turmas e o ensino da Matemática no 5.º e 6.º anos. Muito jovem, professora a lecionar em escola complicada de periferia, acreditava que era preciso zelar quase apenas pelos (imensos) desfavorecidos, porque os filhos de um Deus maior acabariam sempre por encontrar o seu caminho. Falso. Todos têm o direito a ver os seus limites desafiados, mesmo que nem sempre seja fácil encontrar o equilíbrio.

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publicado por Correio da Educação às 09:10
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